Luigi Piccolo

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Dois irmãos.

In Uncategorized on Junho 16, 2009 at 2:58 pm

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A peleja entre os gêmeos Raimundo e Deodoro Paranhos era nacionalmente conhecida. Sua luta encarniçada pelo título de “especialista em tudo o que há” os levaram a um sucesso ressonante: ambos eram editorialistas prestigiados, embora um tivesse por formação a medicina – em uma escola conhecida por instruir as maiores mentes do liberal Partido do Povo – e o outro estudado as leis do país na conservadora e católica Universidade de Todos os Santos. Raimundo escrevia a coluna A Lupa no segundo jornal mais vendido do país: seu grande mérito era destrinchar a vida de celebridades e políticos como um médico legista o faz com um cadáver. Não raro destruía reputações apimentando matérias e opiniões com segredos de alcova. O que lhe salvava a cabeça era a maneira magistral com que lidava com a língua portuguesa – diziam os amigos intelectuais. Fora convidado a ser sócio do jornal tamanho o sucesso de sua escrita entre as classes populares, mas preferiu continuar dividindo a literatura com a clínica geral – era, talvez, o médico mais bem-sucedido da capital.

Ao carola Deodoro cabia a tarefa de expurgar todo e qualquer traço de liberalidade na sua coluna O púlpito, que aos domingos era substituída pelas orações que Dona Marília Paranhos, sua esposa e oradora prodigiosa, concebia com suas amigas da fraternidade Mulheres por Nossa Senhora. Se o irmão trabalhava no jornal conhecido como “jornal do Raimundo”, era Deodoro o colunista mais lido do país. Trabalhava para um influente grupo de comunicação que detinha a maior rede de rádios e televisões da República e isso explicava porque era execrado por progressistas e comunistas, mas adorado pelos conservadores e o admirável contingente de católicos praticantes que se espalhavam por todos os cantos da nação.

Se Raimundo escrevia sobre a boa fase do time de futebol nacional Deodoro fazia ressalvas quanto à escalação do time. Se Deodoro escrevia sobre a retumbante vitória do Partido Conservador nas eleições regionais Raimundo protestava contra as leis que impediam negros e brancos de se sentarem juntos em lugares públicos. Se um herói nacional era prestigiado em O Púlpito certamente A Lupa traria um filho ilegítimo aos holofotes. Não foi uma surpresa quando Raimundo perdeu a cadeira na Academia Nacional de Letras para o irmão. Tampouco foi uma surpresa quando Deodoro tachou de “socialistas”, em sua coluna, os celebres intelectuais que apontavam Raimundo como a melhor opção para a prefeitura da capital. A antítese daquela relação era acompanhada de forma tão entusiasmada que a “guerra dos Paranhos” era, sem dúvida alguma, a novela mais popular do país.

A única pessoa a que ambos respeitavam era a sua mãe, centenária, mas liberal nos costumes. No dia do seu enterro ambos acertaram uma trégua muda, publicando cada um a sua maneira a história daquela mulher – que enviuvara cedo e criara doze filhos. Aquela senhora não viu os dois filhos se cumprimentarem em seu leito de morte, porque um estava a esperar na varanda que o outro se retirasse da casa. Não guardaram luto. Em poucos dias Raimundo estava a protestar contra a péssima estrutura da escola de seu povoado natal, que representava para ele o exemplo de como o Partido Conservador tratava a educação do país na região serrana. Deodoro se contrapôs reafirmando as benesses que o programa de agricultura trouxera aquela região, que produzira um presidente e um membro da Academia Nacional de Letras.

Não causou espanto algum quando, aos 65 anos, Raimundo morreu de uma cirrose devastadora. Seus hábitos pouco saudáveis e seu gosto pelo destilado nacional o levara a ter uma constituição fraca – não raro padecia de desmaios e refluxos diante dos amigos. Mesmo contrariado o Partido Conservador decretou luto por três dias em homenagem aquele homem, que fora reconhecido recentemente por sua luta pelos direitos humanos. A Lupa amanheceu sem o seu colunista e, naquele dia, o “jornal do Raimundo” foi o mais vendido na capital e no interior. Embora as homenagens não cessassem Deodoro não se deu por vencido publicando em O púlpito a sua celebre frase: A bebida faz o homem.

Aos 82 anos de idade foi encontrado morto sobre a sua cama, vitima de um enfarte fulminante. Já havia sido ministro de estado duas vezes e trabalhava incessantemente em um livro, o qual nunca concluiu. Também descontente o Partido do Povo, que chegara ao poder depois de algumas gerações e embalado pela revolução dos costumes na Europa, decretou luto por três dias e ponto facultativo em todas as repartições. Durante três semanas, O púlpito passou a retratar a vida de Deodoro Paranhos e seus principais amigos e familiares dedicaram-lhe as mais honradas palavras. A Lupa calou-se diante da sobriedade com que aquele homem levara a vida, constituindo uma família feliz e sem nenhum filho ilegítimo reclamando o inventário.

O armistício só cessou quando o presidente, liberal e grande admirador de Raimundo Paranhos, não compareceu nem velório e nem ao enterro, consagrado nas tumbas da Academia Nacional de Letras. No outro dia A Lupa fazia menção ao plano nacional de desenvolvimento e O púlpito a falta que fazia ao país a figura de um grande estadista.

O sumiço de Luisa.

In Uncategorized on Junho 15, 2009 at 2:57 pm

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De todas as coisas que Luisa gostava mais de fazer, além das visitas a Tia Gioconda em noites de reza forte, a que mais lhe agradava era bordar sob o céu estrelado de Paúra. A vila fora castigada pelo santo patrono com um clima cáustico que impedia a visita do vento as janelas, mas mantinha o dia e a noite sem a marca de nuvens. Um escritor famoso que nascera em Paúra e de lá fugira em sua rebeldia adolescente dissera que “para as crianças do povoado faltava o essencial, a merenda e a imaginação”. Confessou anos mais tarde que a falta de nuvens era um castigo sobre-humano àquela cidadela: não se podia adivinhar em suas formas nem elefantes e nem coelhos, era uma espécie de sub-nutrição.

Luisa bordava corações nos babados. Aprendera aquele desenho, que em nada se assemelha a anatomia humana, nas cartas de baralho que Tia Gioconda guardava dentro da gaveta, sob o oratório. A senhora de avançada idade sempre dizia que “havia muito o que se aprender na guerra muda do carteado” e Luisa gostava da maneira enigmática com que Gioconda Mastrocola fraseava – sempre levantando o dedo indicador ou depois de baforar a fumaça densa de seu cigarro de palha. Quando a moça não estava bordando se mantinha trancada em seu quarto onde escrevia, sempre em dia santo, uma carta de amor a si mesma. Todas as mulheres de Paúra eram ensimesmadas, dizia o autor fugitivo em entrevista: alimentam-se de amor ou farinha, quando não estão a se alimentar das duas coisas, ao mesmo tempo.

Uma noite deram por falta de Luisa. Gritos de pavor tomaram a velha casa dos Mastrocolas quando perceberam que havia no lençol uma mancha de sangue indistinguível. Pequena e ainda úmida. Convocaram Gioconda a levantar-se da velha cadeira de balanço e dar o seu veredito. A senhora embora muito próxima de Luisa afirmou não saber nenhum segredo que desse fim ao mistério. E era verdade. Gostava mais da pequena pela atenção dedicada do que por seus desvarios românticos; sequer lhe interessava se a moça tinha um pretendente. Olhando a mancha com suas pupilas cansadas, perguntou:

- Já está na idade fértil? – ao que ninguém sabia responder.

Não demorou para a história se espalhar por Paúra a passos demôniacos. Todos conheciam um possível infeliz que tivesse roubado a honra da moça, embora nenhum varão tenha desaparecido da cidade. A desonra dos Mastrocolas era um mistério tão insóluvel que as mulheres da cidade resolveram tomar a partir dali medidas drásticas: toda menina em idade fértil tinha a sua menstruação anunciada com lençois presos as janelas. O pudor era tamanho que as meninas de Paúra passaram a ser chamadas sempre com o nome de suas mães e Luisa se tornou um nome proibido, amaldiçoado. Até hoje, mesmo com a morte do último Mastrocola da cidade, o “dia do vermelho” é comemorado em bailes entusiasmados. Tornou-se uma galhofa entre os homens da vila e uma dor de cabeça entre as mulheres, que escondem os lençois antes que seus maridos os pintem em vermelho para saírem as ruas em um carnaval tenebroso.

Jurubeba.

In Uncategorized on Maio 26, 2009 at 12:36 pm

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Ela se sentou cansada sobre a pedra espumada e levou os braços até a testa, enxugando o suor que escorria sobre o rosto. As outras riram de sua indisposição.

- Porque parou, mulher¿

Estou cansada dessa vida, Nena – e torceu a barra do vestido – Não posso passar o resto da vida sovando roupa na pedra.

- Alguns nascem para isso, Juru – Nena estendia o lençol sobre os galhos de um cajueiro – Para lavar a roupa suja dos outros. E ainda reclamam se tudo não ficar um brinco.

-  Pois um dia vou embora sem deixar rastro.

- Você sabe o que acontece com uma bonitinha feito você na cidade grande – Olhou com repreensão – Quer ser mulher de vida fácil¿

- Quero cantar fora da bacia, Nena. No rádio.

- Aqui nós cantamos ou pra atrair a chuva ou pra espantar o Diabo, filha.

Jurubeba recolheu a bolsa que levava sempre para o ribeirão e retirou duas presilhas douradas. Começou a fazer uma trança com a ponta dos cabelos.

- Sabe Nena, minha avó sempre dizia que a graça da desgraça é o seu repente. Como uma chuva dessas de quebrar teto. Quem movimenta o mundo são os demônios porque Deus é sempre misericordioso.

- Sua avó era mulher amarga, Juru. Eu a conhecia como ninguém.

- Eu queria me apaixonar, Nena.

- Você é nova. Um dia aprende que isso é mais do que castigo – virou-se para Jurubeba e sorriu – Já tem um pretendente¿

- Sim, o dono do circo. Anda a me fazer gracejos.

- Ele poderia ser seu pai, toma juízo.

Prendeu a primeira trança com a presilha e começou a cantarolar.

- Eu poderia ter nascido um passarinho.

- Sua aluada. Pois eu não saberia o que fazer com duas asas.

- Poderia voar, Nena.

- Ou cair na boca de um gavião.

- Você sentiria saudades de mim, prima¿

- Está pensando em fugir, Jurubeba¿

- Ele me convidou para ser bailarina.

- O parrudo que se pinta de palhaço¿

- Ele mesmo.

- E você sabe dançar¿

- Não, mas aprendo. Tenho até o fim do mês, depois o circo parte para a Capital.

- Nessa sua cabeça de minhoca nem a barba do profeta faz cócegas. Deus lhe ilumine.

- Vou pra casa minha barriga dói.

- Toma aquela efusão que eu te ensinei. Se for bicho sara logo.

- Vai ficar aí¿

- Até não sobrar uma mancha nessa roupa.

Jurubeba torceu o vestido mais uma vez e calçou as sandálias. Com a bolsa a tira-colo ainda olhou para trás e sorriu para Nena, prima-irmã de sua mãe, dizendo:

- Se eu tiver uma filha vou pôr o seu nome.

- E se for menino¿

- Vai ter o nome do pai.

***

- Estou mais morta do que viva, por isso enterrem-me sob folhas secas e perfumadas, batam palmas, mas não derramem uma lágrima – dizia a velha. E a lenda que corria no ribeirão era que Deus havia se apiedado daquele ser miúdo e desdentado, e esquecido de marcar a sua hora.

Centenária e desbocada, Jurubeba não teve filhos. Era conhecida como Dona Alminha, a Bruxa, a Velha do Ribeirão. Quando uma criança cometia uma prenda seus pais sempre diziam:

- Eu vou chamar Jurubeba! – e todas corriam para debaixo do lençol.

***

- Nena – conversava a velha com o retrato da defunta – se eu tivesse tido uma filha ela teria o seu nome.

As folhas do cajueiro sopravam rindo de seus óvarios murchos.

- Mas se fosse menino teria o nome do pai.

Breu.

In Uncategorized on Maio 21, 2009 at 11:50 am

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Vou a pé a cidade de Aluz, a última cidade habitada antes do pólo norte. O inverno mal começou e as únicas luzes que brilham são as luzes do norte – a aurora rabiscada na abóboda celeste. Com o meu compasso vou anotando as coordenadas até chegar na cidadela, toda construída em vidro multicolorido.

- O vidro não é um bom isolante térmico – falei ao guarda que protegia a primeira torre de vigília.

- Essa é uma cidade esquecida pela luz, estrangeiro, por isso a transparência.

Vejo vultos; em uma das casas alguém tira as calças e senta em uma privada. Em outra uma mulher seminua recusa as carícias de um homem alto. Os vitrais não permitem que aquelas sombras assumam alguma definição – logo não sei se era um homem, se estava a acariciá-la, se alguém sentou em uma privada. As paredes contavam histórias, falavam um dialeto estranho, e o estrangeiro despreparado ou perdia tempo para interpretá-las ou, cauteloso, fechava os olhos e tateava até a estalagem mais próxima.

Em Aluz nenhum segredo sobrevivia, as paredes reverberavam cochichos e conversas de pé de ouvido. Se alguém amava a filha do prefeito, logo estavam todos prevenidos antes da primeira serenata. Por isso as empresas que mais prosperavam na pequena cidade eram o correio e a funerária, responsáveis por entregar as cartas de porta em porta e por enterrar os mortos com discrição. Mas cartas podem ser abertas e túmulos profanados, pensei.

Em Aluz, onde o sol só batia durante três meses, não se podia mentir nem tampouco confiar na verdade. O viajante que quisesse lá permanecer não deveria nunca questionar um morador sobre os seus rumos. Um cartaz na estalagem surpreendia os turistas ao dizer SORRIA. Não era um convite, era uma recomendação.

Dali partiria para o pólo onde seria o primeiro homem a fincar a bandeira do meu país no ponto mais extremo da Terra. Andara léguas com o meu compasso, agora além do calor me faltava um objetivo maior que me fizesse voltar a minha nação – que não o de mostrar aos meus compatriotas a foto que iria tirar da nossa bandeira flamulando junto a nações amigas e inimigas.

Talvez voltasse a Aluz e lá construísse minha própria casa de vidro.

Monólogo.

In Uncategorized on Maio 14, 2009 at 1:38 pm

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[Na cena um banco e um copo d’água. Ele se senta, cruza as pernas e acende um cigarro. Levanta o dedo como quem pede licença para falar, logo depois o enfia na orelha direita]

- Não é sobre o que eu quero sentir, entendem? Eu já sinto muito, por mim, por você, por todos aqui sentado. Não é uma busca, vocês podem perceber que não há cenário, não há antagonista, coadjuvantes, a luz se precipita apenas sobre mim.

[Apaga o cigarro e enfia o outro dedo na orelha esquerda]

- Trata-se somente do que eu quero ouvir. Que existe relação entre o não dito e o que se quis dizer. Complicado?

[Com os ouvidos tapados se levanta da cadeira e, tambores tocando, agarra o copo d’água com os cotovelos]

- Olha o que eu sou capaz de fazer!

[Leva o copo d’água até a boca, mas não consegue engoli-la. Rosto e camisa empapados. Alguém ri na platéia, mas a grande maioria faz silêncio]

- Isso sim é complicado!

[A produção traz uma toalha, ele se limpa e a coloca sobre os ombros]

- Complicado é ser honesto sem parecer careta!

[Coloca as duas mãos sobre o banco e planta bananeira]

- Por exemplo, se eu dissesse que eu não queria estar em nenhum outro lugar se não ao seu lado, isso soaria piegas. Vocês já ouviram isso em algum lugar.

[Cai no chão]

- Ai. Complicada é a lei da gravidade.

[Levanta-se e começa a bater palmas]

- É ser óbvio sem cair no ridículo.

[O público começa a aplaudir, uma minoria permanece calada. Ele põe as duas mãos na boca e sussurra]

- É dizer a verdade.

[Faz touca com a toalha, imitando um adivinho]

- É prever o futuro.

[Senta-se novamente, coloca as mãos sobre as pernas e faz silêncio. Depois de cinco minutos começa uma vaia]

- É pagar por esse espetáculo.

[E sai de cena]

Diálogo.

In Uncategorized on Maio 13, 2009 at 10:51 pm

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Pensei em pôr aqui uma frase de Clarice, mas tive medo de sepultá-la como uma unanimidade. Antes de morrer, porém, ela me apontou com aquela mão calejada pelo fogo e me interrogou.

- Sei que nunca leu um livro meu até o fim. E você sabe que escrever, mesmo que qualquer bobagem, é vender a alma aos poucos. O que lhe tira o sono?

- Não sei, como toda criança talvez o medo. Ainda anseio por uma coisa sem nome, embora ele esteja na ponta da língua.

- Medo de parecer honesto ou medo de ser honestamente louco?

- Qual a diferença? Ambos são paralisantes!

- Deixe a palavra morrer em paz e siga vivendo. Diga sim, sempre.

- Se assim fizesse uma hora estaria me violentando.

- Isso porque você ainda acredita que você vale à pena. Não perca tempo.

- Para onde vão as pessoas depois que elas morrem?

- Não sei. Eu virei poeira em seus livros.

- Ainda assim todos lhe amam.

- Porque verso como uma bruxa. Trato a letra com muita mandinga. Em vida nunca fiz questão de ser compreendida.

- Agora que está morta…

- Não posso processar quem abusa dos meus textos. Fazem mal-uso deles, tratam tudo como uma grande revelação, não há nada de original nem no sofrimento nem no gozo. Nem na falta.

- Pensei em usar algumas palavras suas para traduzir o que ando a sentir.

- Não seria o primeiro.

- Mas prefiro ser clichê ao meu modo.

- Não será o último.

Ainda passei o dedo sobre a capa de Perto do Coração Selvagem; pensei em folheá-lo e roubar um trecho avulso, qualquer um. Queria selar assim um pacto com a palavra. Eu abriria mão da autoria, de qualquer verdade inventada, e em troca venderia a alma dela, de Clarice, já carcomida pela vida, mas nunca, nunca esquecida.

Desculpa ou O Conto da Ilha de Abre-Olhos.

In Uncategorized on Maio 12, 2009 at 2:46 am

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Fomos a cavalo, eu e a minha sombra, até o Porto onde sabíamos existir um barco a nossa espera. Nele uma caveira encapuzada recomendava que os viajantes engolissem uma moeda antes de embarcar. “Vai saber se vão chegar”, dizia com sua voz cadavérica.

No caminho um vapor suforoso que emanava do lago me deixou nauseado; a ponto de ver tudo dobrado. Eram duas as caveiras e elas brincavam com suas foices como quem joga maculelê em noite de festa. De repente um barulho, “estou cega”, disse a vizinha gorda e um homem atrás pulou de alegria, “eu também, só enxergo o que quero”.

Com a sombra grudada nos pés vi ao longe as sete ilhas vulcânicas, cada uma tinha um nome, esquecidos em algum registro da Capitania. Juntas formavam Abre-olhos, a terra onde “era impossível se enxergar um palmo a frente e que, ironia a parte, todos queriam chegar”. Diziam haver nela toda sorte de fruto, uma espécie de vaca que dava leite três vezes ao dia, as mais belas mulheres, os homens mais corajosos, o último dos tesouros enterrados e uma cidade para a qual todos os dias viramos as costas – e que, natimorta, nunca mais fora encontrada.

“Aqui paramos, quem quiser segue a nado”, disse a caveira. Pus as minhas botas na água e tapei as narinas, dando um salto de invejar golfinho. Com um dos braços puxei a água caudalosa, com o outro certifiquei-me se carregava a mochila nas costas. A minha sombra sumira, deixando-me a ver navios – dois e agora eram quatro encapuzados me desejando boa sorte.

As horas passavam e Abre-olhos crescia. Um ponto luminoso podia ser visto na ponta esquerda da primeira ilha, seriam necessárias mais umas mil braçadas até que eu conseguisse pisar na terra prometida. Vultos tomavam a água escura, pensei se não eram feras devoradoras de marinheiros preparando o bote, mas a minha sombra voltara, refletida a luz da lua, me lembrando que eu era mais osso do que carne – um petisco intragável.

Já ía alta a lua quando pisei na areia pedregosa e avistei uma vila. “Aqui só se entra pedindo desculpas”, dizia uma placa. Gritei bem alto “desculpa” e um homem manco veio me recepcionar de braços abertos. Levou-me para casa e me ofereceu uma toalha -  era cego dos dois olhos. “Quero morar aqui por alguns tempos”, disse, “ouvi falar que aqui as pessoas morrem mais tarde do que em qualquer outra parte do mundo”. “Eu não sei o que é a velhice, nunca a vi, só a sinto nas costelas”, riu o bom homem.

Deixou que eu ficasse apenas cinco dias, no sexto deveria partir e só voltar quando aprendesse a pedir perdão, palavra que até então não conhecia. Acendi um vela grande, que contava uma semana, e verifiquei que a minha sombra ainda estava lá, amarrada sob as minhas botas, hora diminuindo, hora crescendo – e isso me encheu de alegria.

Minha primeira noite em Abre-olhos passou tranquila. Logo que acordei percebi que a minha sombra saíra para passear e me deixara só em casa com aquele homem que, agora, estava a cozinhar batatas. Ofereci-lhe ajuda mas ele, como bom anfitrião, recusou. Fui então até a praia, puxei meu caderno de notas e comecei a escrever uma poesia.

Eram as mais doces palavras de amor por aquelas ilhas negras; seria o meu hino e um presente para aquele homem que insistia que eu aprendesse a pedir perdão, ou não me dava o sexto dia. Quando terminei de escrever vi uma vaca feia e descarnada se aproximar da casa. O sol levantara sobre as montanhas e a minha sombra resolvera sentar-se ao meu lado. “O poema se chama Desculpa”, eu disse. Ela pareceu gostar pois se aproximara das minhas pernas como se quisesse ouvir um bocadinho mais daquele hino. “E começa assim…”

Romântico.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 1:01 pm
Por Pedro Fernandes

Por Pedro Fernandes

Comentário em Desenha-me um Carneiro:

“O bom é que antes de descer para o estômago ela dá uma voltinha no coração”

***

“Bem, eu não tenho certeza, é coisa minha, como lhe dizer, acho que estou..”

“As palavras…”

“O que tem elas?”

“Perdem o encantamento muito rápido”

Moderno.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 11:54 am

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VERMELHO

“Eu vejo uma grade”, me disse.

“Eu vejo três cores básicas  impedidas de se misturarem”

“Não estamos falando sobre a mesma coisa, impedimento?”

“Acho que ele queria falar sobre simetria, nós é que estamos no caminho errado”

***

AMARELO

“Ontem estive com outra pessoa”

***

AZUL

“Porque você é tão calado?”. Aproximou-se e tirou um cílio que escapara, colocou sobre o dedo e falou “vem”.

“Porque tenho medo de parecer clichê quando estou do seu lado” e apertei com firmeza o meu dedão sobre aquele dedo pequeno.

“Você venceu”, me disse, “vai desejar o que?”.

Equação.

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 7:26 pm
"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

Posto o problema, e dada meia hora para solucioná-lo, comecei a rabiscar com o meu lápis laranja as possíveis fórmulas para se chegar a resposta. Eu sabia que era um número de 1 a 10, mas o exercício tinha muitas letras, números e variáveis.

Cocei o cocuruto e olhei para o relógio, ainda faltavam vinte minutos. Crianças brincavam do lado de fora, escorregavam, giravam, gritavam – uma delas tirou uma maçã da lancheira e tascou-lhe uma mordida.

Suando, bati com a ponta do lápis na mesa. Faltavam cinco minutos quando entreguei a prova nas mãos do professor.

***

Resolvi que todo problema matemático poderia ser transformado em uma pergunta boba e rabiscava “Como vai você¿”, “O dia está chuvoso, não¿”, “Você já foi ao banheiro hoje¿”, “Quantas vezes você sente vontade de me ver ao dia¿” ou “Você já leu aquele livro¿”.

Respondi: N vezes elevado a infinito. E saí sorrindo para os meus colegas de sala.

Amor (VI).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 6:35 pm

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“Posso dormir aqui com você”, eu perguntei. Os calafrios tinham voltado, meio tonto procurei o lugar da cama, vazio, e enfiei o meu rosto entre o colchão e a cabeceira. Embora eu tremesse fazia muito calor.

Fechei os olhos e senti um dedo coçar a minha orelha, “Boa noite filhote”.

***

“Você tem seu lar, eu não entendo”, ele estava manso.

“É aqui que eu vou ficar hoje”, respondi.

(O rabino havia roubado a gravata, o padre seduzira um menino, o pastor matara uma criança, a sereia era a prova de um sacríficio, jesus morrera na cruz, o Adonai ainda não chegara. Nessas circunstâncias, como dormir tranquilo¿)

***
Eu fiz aquela posição e cumprimentei o Fùhrer. Ele me olhou irritado, queria me xingar, queria me ver no espeto, então abriu a boca e me chamou de… “Do contra!”… E correu com o carro.

***

“De quanto você precisa”. “Do suficiente para voltar para casa”.

Amor (V).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 12:44 pm

“Você vem”, me perguntou. E eu fui.

***

“Eu preciso ir”

Amor (IV).

In Uncategorized on Maio 7, 2009 at 2:07 pm

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“Eu nunca mais quero lhe ver chorando desse jeito”, ela disse, “eu não criei um filho para isso”. Foi carinhosa, ao seu modo, cobrando apenas que eu tentasse descansar e refletir – nunca, nunca impediu um movimento meu.

(Aquele colosso ainda estava sendo construído, ela me pegou pela mão e me fez andar por entre as alamedas. Eu chorava como um bebê separado do seu brinquedo)

***

“Não arredo o pé”.

A carne trêmula, “eu não quero você aqui”.

“Se não for eu quem vai ser”, me perguntou.

***

“Mãe”, “o que foi”, “as vezes eu queria voltar para o útero”, e rimos juntos.

“Você não cabe mais aqui dentro”.

(Quando estou sozinho continuo a dormir todo coberto, dos pés a cabeça, e em posição fetal. É tudo tão morno e de onde olho, até a outra ponta do lençol, brinco de faz de conta em um mundo particular)

***

“Estou com sono”, eu falei. E ela me ensinou um segredo.

No segundo andar do colosso compramos um perfume com cheiro de bebê, “vamos fazer alquimia”, e um frasco de alfazema. Eu falei, “tenho água de flor de laranjeira”, “vamos dividir”. Misturamos tudo aquilo e, como nos filmes, a fórmula mudou de cor. “Agora vamos comprar chocolate, para te dar energia, e alguns cremes para essa sua pele, você precisa se cuidar”, e pela primeira vez, em duas semanas, dormi no horário certo. Como uma criança encantada.

(segredo: borrife a fórmula mágica sobre os travesseiros e o lençol)

***

“Me perdoe”. “Isso eu aprendi com você”.

Amor (III).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:28 pm

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“Eu preciso dormir”, eu disse. E fez-se silêncio.

(As fotografias recortadas que davam o tom da novela, as promessas tortas, narrativa de muitos personagens. Um universo laborioso, tóxico, etéreo. “Como é perigosa essa sensação de abraçar o mundo”, alguém me disse, “e depois ter que fazer o contorno de novo”. Esse dia eu o deixei extinguir e aprendi a chamar por telefone de novo)

“Mas nós vamos ficar sozinhas aqui”, me disse a secretária de mesa. “Eu volto na hora do almoço e para fechar a urna, mas me deixem ir” e não houve objeção.

***

“Eu não consigo dormir”, eu disse. E levantei a cabeça, nauseado.

( “Não carregue nas costas o peso do mundo, não culpe seus ancestrais, não culpe sua família”, me disse uma mulher aflita)

Encontro uma amiga no térreo, “tem um palhaço argentino na praça aqui ao lado”, eu tirei meu adesivo de presidente e a segui. As mãos tremiam e eu tentava cerrar os punhos. Consegui passar cinco minutos olhando para aquele nariz de tomate, senti vontade de vomitar – era a criatura mais pavorosa da terra.

***

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

***

“Seus pais estiveram aqui mês passado, porque só decidiu vir agora”, ela me perguntou. “Porque só agora percebi que há algo de errado comigo”, eu respondi. “Depois de um ano e meio”, ela riu e tentou me acalmar, explicou que eu não estava doente, mas que minha ansiedade (que se tornara um tédio profundo) estava me prejudicando. “Veja como você balança as pernas”, ela apontou, e eu só queria chorar porque percebi, de súbito, que tinha pernas e elas tinham dedos e unhas.

Amor (II).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:38 am

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“Viemos lhe visitar”, ela me disse. Os cabelos cheiravam a uma lavanda especial, como se apenas uma tivesse sido fabricada e ali, segredada entre seus fios, fosse evaporando rumo ao vento. “Quanto tempo, meu amigo”, ele me abraçou.

Sentamos em frente ao mar. Aquela coisa, da qual eu fazia segredo, ainda me assombrava – logo que sentei visgou pela minha medula, descendo gelada como se me lambesse a coluna. “Vou morrer”, eu pensei.

“Você está bem”, ela perguntou. Eu queria dizer não, mas então disse “sim”. E ela olhou para ele e depois para mim, “faz alguns meses que chegamos, você sumiu”. “Vou morrer”, suspirei e depois acendi um cigarro, “está tudo bem”. Nunca guardei uma carta, uma foto, em toda minha vida; Mas estava aprendendo a me despedir de pessoas e coisas, “está tudo bem”, e aprendendo a mentir – aquela coisa voltara, gelada, por trás da minha cabeça, “está tudo bem”.

“Se você estiver mentindo para nós, não tem perdão”, ela falou depois da décima tentativa de me arrancar alguma informação. E eu amei tudo o que não tivemos, sua infância, sua vida no interior, sua delicadeza. Ela me virou o olho, “eu preciso ir embora”, pensei, e o que eu mais amava nele era o silêncio sem censura – porque era um jovem em meio a pessoas mais velhas, não aprendera a repreender.

“Bom ver vocês”. “Você tem certeza”, questionaram.

“Está tudo bem”

Amor.

In Uncategorized on Maio 5, 2009 at 11:38 pm

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“Eu vou ficar aqui com você, vem, deita no meu colo”, ela me disse.

Eu ali deitado na grama, em frente a um hotel cinco estrelas. Você passou a mão no meu cabelo e falou “Eu te amo, meu amigo, vai dormir na minha casa” e eu lhe neguei e ao mundo inteiro.

“Minha mãe mandou vocês aqui”, perguntei, você me olhou chorosa e ela me disse “precisamos de você” e, por um momento, pensei que estávamos brincando de novo de esconde-esconde – e você me encontrava na casa do jardim e falava bem alto “agora é a sua vez de nos procurar”.

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Desarranjo.

In Uncategorized on Maio 4, 2009 at 11:53 pm

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(2004) Memória do Ventos Alísios, antigo blog

Mal contando vinte anos dei para escrever asneiras, de cima para baixo e de baixo para cima. Tudo ainda era doce e fácil quando mantido em segredo. Se houvesse reciprocidade não haveriam essas linhas estreitas. Fui me construindo na falta e fazendo dela uma vaga alegria, ainda que duvidassem

eu amei…

Psicossomático.

In Uncategorized on Abril 30, 2009 at 3:06 pm

soma

“Diarréia, Dor de Cabeça, Sonolência, Barriga Vazia, Unha roída”

Ontem senti como se você passasse a mão por trás da minha orelha e puxasse bem de leve os meus cabelos. Então tudo ficou gelado e os pêlos do meu braço levantaram e eu os vi, escuros. Depois senti uma ânsia estranha, um embrulho, e pensei que você fosse jorrar da minha boca, quente, como um conjunto de palavras indevidas. Eu ía lhe contar um segredo, mas você morreu antes, quando juntavamos cacarecos e fazíamos um mosaico. Uma janela de ônibus, incenso, vinte cigarros, hidrocores, esmalte ainda fresco, um quarto escuro, um diário… No dia em que você morreu eu esqueci o meu nome, me chamavam de mãe, pai, filho… Com as vistas turvas ainda consegui escrever “eu não sei porque” em um papel com cheiro de laranja doce. Queria que você renascesse entre as minhas juntas, numa dor aguda, e eu pudesse beijar a ponta dos meus dedos e fazer dez pedidos. Que isso me curasse de mim, de você, de nós, de todo o mais. Em vão…

(Receitaram-me duas pílulas brancas e uma rosa. Quando as tomo, como mágica, relembro o meu nome. Eu ainda não sei porque, então lhe vejo em pé, vivo, em uma série de fotografias)

A sorte.

In Uncategorized on Abril 24, 2009 at 12:01 am

tarot

Que havia um metódo indolor, ele me disse, mas que nunca se deveria brincar de esquecer. Se quisesse realmente tirar esse peso da minha vida então que levasse a sério aquela mandinga, É batata, é batata. Havia três passos iniciais, Matéria morta, um pedaço da sua cutícula, um fio de cabelo, uma cusparada bem dada em um copo virgem. Tudo isso seria rezado. Perguntei se o material a ser recolhido era meu ou do finado.

Não trabalhamos com magia negra e sim com simpatias, essa é para melhorar sua auto-estima. Não vê, vocês vem aqui sempre me pedindo pra amarrar, para soltar, para jogar as cartas, para solucionar mistérios. Fui com a sua cara, vejo que está a sofrer em vão, é bonita e singela, então serei bastante honesto. Não há solução, eu moro nesse cafofo, faço isso para pagar minhas contas, no fundo eu vendo auto-estima, entende¿ É como uma terapia só que o cliente sempre sai satisfeito, o passado já foi dito, o presente está abarrotado de promessas e o futuro a Deus pertence, como sempre, mas ninguém precisa saber disso. Não chore, não chore.

Porque deveria cuspir em um copo virgem¿ Ora, prefere cortar os pulsos¿ Prefiro acabar logo com isso. Mas já está acabado e não lhe cobrarei nada. Mas você não fez nada. Passei uma hora lhe ouvindo, lhe entreguei um segredo místico, agora ande… Mas… Pegue seu dinheiro, compre algo bonito, um perfume, a cidade é grande, a cada esquina lhe cai um pensamento logo não haverá mais o que esquecer… Estarei só… Estará com os anjos, minha flor… Só… Com os seus, como no dia em que nascemos e no dia em que iremos morrer… Só… Não chore… E se tivesse cuspido em um copo virgem¿… Então meu aluguel estaria garantido e você saíria dessa porta como entrou… Talvez eu saísse daqui mais tranquila… Talvez sim, talvez não… Não me deu a chance de ser crédula como as outras… Quem mandou ter o rostinho tão bonito¿ Agora ande, ande, respire fundo, já disse que não lhe cobrarei pela consulta… Posso lhe deixar um pedaço de unha e uns fios de cabelo… O que farei com isso¿… Não sei, magia, eu preciso acreditar em alguma coisa… Mulher!… Em qualquer coisa… Então acredita no tempo… No que perdi¿… Sim, minha flor, e no porvir… Não entendo… Tem coisas que só que entendemos quando batemos a porta… Quanto te devo¿… Nada… Quero pagar!… Deixa uma nota sob aquela vela… Beija-me a face demoradamente e me diz, Você é nobre, uma princesa, agora vá e não se esqueça de bater a porta com força, bastante força…

Cowboy.

In Uncategorized on Abril 19, 2009 at 2:07 pm

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Então, onde ponho minhas botas¿ Não sei se as tiro em sua frente ou se as esqueço debaixo da cama.

É a sua hora de entrar em cena, com um cavalo de pau e uma pistola metálica, persegue um indío até um desfiladeiro de isopor e papel-metro. Leve-me ao seu líder. O indío invoca seus deuses em uma língua estranha e se joga para o abismo, deixando você – que não é herói, tampouco vilão – boquiaberto. Ainda não levara a moça sequestrada para casa, a promessa que a traria antes do verão não seria cumprida, os indíos se moviam rápido pelo deserto de pedra e sal.

Eu entro em cena com o meu cavalo de pau e um laço de cânhamo na mão, pergunto onde está o malfeitor. Você me solta um palavrão e pergunta porque demorei tanto. Estou correndo ao meu tempo, explico. Ele se foi, você desce do cavalo, ele se jogou e perdemos a pista. Você é um ator mais bonito mas eu sou mais experiente, tiro o meu chapéu e o coloco sobre o peito falando, Não merecia essa sorte o pobre. Alguém derrama sinceramente uma lágrima na platéia.

Então, onde ponho minhas botas¿ Deixe-as secar perto do fogo ou espere chegarmos na taverna. Nós saímos de cena, entra uma atriz gorda e ansiosa que interpreta a dona do Salão.

Porque repete sempre essa fala quando não sabe mais improvisar, você me pergunta no camarim. Que fala¿ As botas, onde vai guardá-las, etc. Já se perguntou porque isso aflige tanto o seu cowboy¿ Não sei, vi antes em um filme ruim. E onde ele finalmente colocava as botas¿ Ele as esquecia debaixo da cama. Engraçado, o que seria de um cowboy sem suas botas¿ Não só isso, o que seria do cowboy sem indíos, malfeitores, xerifes, belas damas e um companheiro de aventuras¿ Têmos de voltar, coloque as botas e não se esqueça, você só as perde quando esquecer uma fala. De baixo da cama¿ Não, perto da fogueira.

Um flecha rasga o meu peito, você me agarra em seus braços e grita “Não”. O sangue molha a camisa e eu então sorrio, de improviso pergunto, onde ponho minhas botas. Ator inexperiente mas bastante estudioso você não sabe o que responder, procura a fogueira e não a encontra. Tiros e flechas cortam o cenário, você tem que ser mais rápido. Onde-eu-ponho… minhas botas¿ Onde… eu ponho… minhas botas¿

Onde… eu…¿

Texto infantil.

In Uncategorized on Março 13, 2009 at 4:17 pm

Começo essa estória explicando que esse não é um conto comum para crianças. Não haverão princesas e vilões, monstros e fadas, mas sim um desafio. E todo desafio começa com uma pergunta cabeluda, dessas que fazem a gente coçar a orelha e espremer os olhos nos perguntando “mas o que é isso?”.

O João não sabia o que era uma Fábula. A professora tentou explicar que as fábulas eram pequenas estórias onde os personagens são normalmente animais com características humanas – eles falam, cantam, dançam, andam, como nós – e que sempre no final havia uma lição de moral.

O joão chegou em casa e olhou para o seu gato, o Malhado, e esperou cinco minutos para vero se ele esboçava alguma reação que lhe lembrasse seus colegas de escola, seus primos e amigos do bairro, mas a única coisa que conseguiu foi um carinho nas pernas que lhe lembrou muito os cafunés inesperados que levava da avó.

Confuso perguntou para a professora se a história do sapo que virava um príncipe no final era uma Fábula e ela lhe explicou que não. Nesse caso ser um sapo era um castigo e se tornar o príncipe a solução de todos os problemas. Nas Fábulas animais eram sempre animais só que conversam como nós e cometiam erros como nós. João não conhecia nenhum príncipe e detestava sapos, mas gostava do gato Malhado e pensou talvez que se o imitasse soubesse por onde começar a entender uma Fábula.

No outro dia chegou cedo à aula e quando a professora o chamou, João se levantou, pegou a mão da professora com calma e esfregou seu nariz entre seus dedos. A professora ficou vermelha como um tomate, abriu um pequeno livro que ela chamava de caça-palavras (um dicionário) e pediu para que o João lêsse em voz alta o significado da palavra “Imaginação”.

“Sem essa palavrinha mágica não há fábula, João”.

É essa a lição da estória, professora? – perguntou ele.

Não, esse é o desafio antes de ler qualquer livro – respondeu a professora.

Liberdade.

In Uncategorized on Março 6, 2009 at 11:38 pm

Enrolava o dedo nos cabelos sintéticos da boneca caolha, vez em quando o colocando na boca, chupando-o nervosamente como se fosse estranho ao seu próprio corpo. Camomila doce, morno ao toque dos lábios, sugava o sangue até a ponta da unha miúda e deixava-o voltar as veias, o ventinho batendo no molhado da saliva. Hoje, nem o vestido de cetim, presente da avó, nem o dedinho gordinho lhe deixava sossegada, gritava aos berros deixando as visitas constrangidas, o pai e a mãe desesperados, Desfaz as tranças dessa menina. Odiava aqueles dois pedaços de cabelo trançados, preferia a morte, dizia para a babá, essa fazia mesmo assim, aos beliscões, porque menina usava trança e quem criava a crina solta era a égua selvagem. Meias nem pensar, preferia o bicho de pé, as unhas enegrecidas com a lama do chiqueiro. Essa menina não tem jeito, a mãe chorava para o padre. O pai ouvia dos amigos que ela parecia um rapazote, Logo vai nascer o bigode, pagava a conta e chegava em casa, deprimido, a garota matando mosquitos e caçando ‘dinossauros’. A tia adorava, ria com as histórias da pequena, Conta a da mulinha apaixonada, desatava a cantar e relinchar como um potro selvagem, a mãe toda lastimosa. Resolveram então mandá-la para um convento, Liberdade venha cá, hoje você vai arrumar suas malas e colocar sua melhor roupa. A meninota gemendo, Não quero ir, a babá choramingando fazendo as tranças da menina e colocando as meias nos pezinhos. Botou a mala pesada no fundo do carro, a mãe abraçou e Liberdade não deu um piu, o pai lhe apertou as bochechas Liberdade fez que não viu. Correu então para dentro de casa, catou a boneca caolha escondida sob a cama e deu adeus ao último dinossauro da sua infância, uma lagartixa perneta que, apavorada, sumiu entre as molas e o colchão. Liberdade, liberdade, chegou a sua hora, desceu as escadas respirando com calma e quando na porta abriu um sorriso e bateu as asas até o banco dos fundos do automóvel. A mãe estendendo o braço, despedindo-se da filha, Era necessária o corretivo, consolava o pai. Liberdade, gritavam algumas crianças na rua pelo seu nome, já a uma certa distância de casa. Não se despediu, nesse exato momento destrançava os cabelos sintéticos da boneca caolha – as asinhas amarradas com uma meia felpuda e a mosquinha na janela pedindo para ser caçada.

Memória do Ventos Alísios

Prefaciando uma não-dedicatória

In Uncategorized on Março 1, 2009 at 4:59 pm

Não lhe dedico esse poema, amarga-doçura, porque como podes ver, salvo o excesso de adjetivos e outros estardalhaços estilísticos, não se respeita aqui à métrica e a rítmica do coração; antes sim, violentasse cada sílaba e expressão no intuito de engrandecê-la diante dos seus ouvidos invisíveis, tocando-lhe não mais na epiderme da alma, mas sim em pontos delicados, no mais sensível dos seios, da tua inconsciência.

Não irei dedicar-lhe nada, nem um “a”, nem um “o”, porque as escrevo sempre com o eu-fluído, derramando-me aos poucos numa profusão letal de palavras que vai me desatando, sem nunca alcançar uma verdade que me satisfaça – mas sempre lhe deixando saciada, amarga-doçura, pois cada gota da minha seiva articulada entre consoantes, apetece-lhe como o vinho mais saboroso.

Aprenda que nem tudo o que tem alvo é dedicatória, e nem toda dedicatória busca um alvo especifico – às vezes, só o que se quer é derrubar as paredes no olho do furacão e vê até onde pode chegar palavras rebeldes que almejam enlaçar alguém em seu descuido, e só depois então, devorar-lhe com toda a devoção.

Memória do Ventos Alísios

Das cartas e sua cerimônia.

In Uncategorized on Fevereiro 24, 2009 at 12:11 pm

300px-french_suitssvg(Toda resistência é pouca quando tudo o que se quer é não resistir)

Ao fim, Da guerra – brindaram as duas senhoras e seus consortes, no que então a de longo negro, com o naipe de espadas bordado em prata no peito, ofereceu a mão à segunda mulher, uma rechonchuda senhora de cabelos escuros e naipe de copas enfeitando a capa vermelha, um grande coração recheado de pérolas rosadas; essa aceitou com um ar de desdém, logo depois olhou furiosa para o Mestre de Cerimônias, anunciando baixinho que, Isso não fazia parte do cerimonial, e crispando os dentes de raiva.

Sentaram as duas em seus respectivos tronos, num alto tablado, onde podiam assistir a cerimônia de entrega das armas, última parte do processo de paz entre os dois reinos. Soldados de ambos os lados jogavam suas lanças no chão e se abraçavam em sinal de respeito e amizade. Queimem tudo – anunciou o Mestre de Cerimônias, quando então trouxeram a mistura efervescente de gordura de vaga-lume e álcool-aquarela, jogando-a sobre o pequeno monte de armas que ali se formava. Foram oferecidos dois fósforos dourados as rainhas, que então se levantaram para dar inicio ao ritual de destruição das armas. Olhou a rainha para o Mestre de Cerimônias e depois para o fósforo da rainha de espadas, Certificou-se que o meu é menor do que o dela?, Sim Majestade, e dizia isso em meio a pernas bambas e outros tremeliques. Um tanto melhor para você, terminou a prosa em tom profético, como se o sucesso da empreitada tivesse alguma relação com o pescoço que dava sustentação à cabeça do bom homem.

Pois quando acendeu o fósforo, queimou em azul o da rainha de espadas, expelindo pequeninas estrelas cadentes e arrancando aplausos de ambos os exércitos. A rainha de copas não escondeu a insatisfação, bufou alto, e todos ficaram quietos respeitando o seu momento no ritual. Levantou o pequeno fósforo com toda a pompa, fazendo círculos enquanto não chegava à pequena esteira, aonde iria riscá-lo. Cantou o hino da sua nação, sendo acompanhada pelos seus e quando chegou à hora, foi com toda a força, como se decepasse com as próprias mãos algum dos seus desafetos… Ouviu-se um barulho de espanto, no que ao abrir um olho, verificou a dama que o seu palito havia partido ao meio. A face queimando num vermelho que se confundia com a capa que lhe dava autoridade, Foi um fracasso, gritou em voz alta, batendo com força o pé no tablado, rugindo como um tigre feroz. Aonde? Aonde foi parar?, procurou com os olhos o Mestre de Cerimônias, Apareça seu duende manco!, apertava o pescoço do consorte, o apagado rei de copas. A rainha de espadas não conteve um risinho, escondido delicadamente atrás das mãos, e resolveu interferir em favor do pequeno homem, Acho que não há razão alguma para castigá-lo!, poderíamos reiniciar a cerimônia, para mim não há problemas!, apagou com um sopro a chama azul que ardia na ponto do fósforo. Por acaso está insinuando que a culpa é minha? Que fui eu a culpada por tamanho fracasso? Logo se vê que não entende nada de cerimonial e Mestres de Cerimônias!, desceu do trono, pomposa, e gritou, Na certa é um complô, apontou para a rainha de espadas, perdendo toda a compostura, Um complô?, levantou-se indignada a dama de negro, Ora, ora, minha senhora, deveria tomar cuidado com a língua, essa parece ferver mais do que o seu humor exaltado! Num acesso de raiva a rainha de copas atirou-se contra as armas, depositadas no chão, apontando uma lança afiada em direção a outra senhora dos naipes, Pois tu devias era tomar cuidado com a defesa das suas cidades e palácios, Essa guerra termina agora quando começa a outra, Vão todos para casa!, insultada a senhora de espadas aceitou a proposta e no furor do momento gritou, Tens apenas um mês de reinado, aproveita!, e retirou-se com seu exercito para fora das terras dos de copas.

Sentou-se no trono, Tragam a taça de vinho, no que o rei lhe trousse cheia, rodeada de uvas e morangos. E quando acharem o velho, Me vejam só a cabeça, o resto empalem do lado de fora do castelo que é para o exercito de espadas perceber que não se brinca com uma dama, principalmente uma dama de vermelho, e abriu o leque em gargalhadas, enquanto rabiscava a melhor estratégia para se chegar à cabeça da rainha de espadas, sem perder a classe e a compostura.

Memória do Ventos Alísios

Virtuose.

In Uncategorized on Fevereiro 23, 2009 at 4:08 pm

Virtuose. No sentido pejorativo, é aquele que tem, em arte, habilidade meramente malabarística, destituída de sentimento, probidade interpretativa, etc. A exemplo do quadro moderno (três traços negros verticais, quatro traços vermelhos horizontais, dispostos uns sobre os outros paralelamente), cujo autor diz significar o emaranhado urbano e ideológico em que vivemos atualmente. Para a moça ao meu lado, apenas traços. Assim como para a senhora de vistas cansadas que via tudo dobrado, como um tecido em xadrez.

***

Eu conheço uma jovem malabarista. Sempre espero o momento em que ela joga os malabares para o alto e dá uma cambalhota; faz isso sorridente e cheia de emoção. Hoje a moça ao meu lado ri para a colega e diz: Você viu a cara que ela faz?… Parece que está gozando!

***

Já a palavra ‘virtuoso’ é um adjetivo, ou seja, qualifica o nome. Ela possui dois sentidos: indica aquele ‘que tem virtudes’ ou ‘aquele que é eficaz, que produz efeito’. As palavras podem não ter sentido se passarmos os olhos sobre elas com total impaciência. Ou mesmo se passarmos os nossos olhos sobre elas e não os olhos d’alma. Porque todo o sentido está na palavra sentida. E não importa muito se ela tem um significado próprio, toda e qualquer interpretação é eficaz e necessária. A virtude da palavra está no cabelo arrepiado da sua nuca e na maneira como ela lhe toca; como uma vizinha trocando de roupa com a janela aberta.

Memória do Ventos Alísios

Mexilhões e Saudades

In Uncategorized on Fevereiro 21, 2009 at 3:17 pm

A saudade presa na garrafa o mar trouxe, com cheiro de lembrança e marisco – meu pai está preparando uma paella na cozinha – e ela é miúda, eu sei, me esforço para ouvi-la no fundo da concha, um barulhinho de água salgada chegando aos nossos pés e nós dois correndo, inocentes, das águas-vivas – o arroz não está tão amarelado, falta açafrão, mas meu pai diz que está tudo nos conformes, eu então vou acreditar – lembrar é antes percorrer com a garrafa, sargaço e tempestades marinhas, do que destampá-la e ler as mensagens do passado. Guardo-lhe em movimento, na memória, para não lhe perder quando piscar os olhos – as panelas fazem tim-lim-tim e o cheirinho de ostra e outros bichinhos do mar já assaltam o ambiente, é tão bom com um vinho tinto – Deixei minha criança dormindo pra fugir com você pela janela do quarto. Descobrir o mundo e fazer das tuas asas a chave da minha prisão. E agora fico aqui remoendo imagens amareladas e me alimentando de “até mais ver”, pois quando fugi esqueci o caminho de casa e me perdi das suas mãos – Na mesa os pratos em seus devidos lugares, os talheres alinhados, à vista pro mar e todo mundo se preparando, mãos lavadas, ta na hora, ta na hora – Se um dia couber essa mensagem entre os livros e os troféus que guarda na sua estante, me avisa, que a envio de bom grado, com cheirinho de lavanda e um trevo de quatro folhas, pois quero assaltar o destino e abusar da sorte dos seus dias – Olá, não perguntei, que insensato, quer se sentar e almoçar comigo?

Memória dos Ventos Alísios

Vem, que lá se vai à tarde!

In Uncategorized on Fevereiro 19, 2009 at 6:03 pm

Já eram quatro as horas, passadas entre as folhas secas que piruetavam no chão, como crianças a girar em roda, e as sombras movediças que o sol tratava de deslocar quando assim ia se deitando sobre o horizonte. Quando?, enxugou a testa com um pano bordado, pequenas margaridas, e o guardou na bolsa grande ao lado do estojo de maquiagem. Ansiosa passava a mão na pequena imagem, o Santinho, que trazia sempre ao peito, um homenzinho de marfim segurando o cristo-rei ainda muito bebê. De um lado para o outro a cabeça, as mãos num esfregar nervoso, o esmalte já espantado na ponta das unhas, Nada!, e cantarolava um salmo que talvez servisse, apelidado de Arrasta-tempo. Sentou-se no banco novamente, perdera as contas de quantas vezes, e cruzando as pernas ficou a balançar os pés alguns minutinhos, quando o telefone móvel tocou, Alô, alô!, era engano, soltou um palavra suja no que respondeu com um tapinha na boca, Perdão, e alisou o santinho.

Quando a fome começou a apertar e os rins a doer, iniciou um cântico, Esse não falha!, Esse não falha!, mas as tripas se enrolavam, faziam barulho, as pernas se apertavam como se pudessem barrar um rio, fazendo força, Ai meu bom senhor, suava frio. Pegou o pano na bolsa, o suor molhando a camisa de seda, muito fina, enxugou o rosto, os braços, Toda borrada!, olhou no espelhinho do batom, Que faço senhor?, o telefone vibrando na bolsa, Alô, alô, e do outro lado uma voz perguntando por um certo alguém, Se enganou, desligou, Me enganei!, guardou o aparelho e conteve as lágrimas, o soluço preso na garganta, o coração chocho, o último suspiro antes de levantar.

Quando partiu, as folhas lá continuavam, motivadas como crianças em gangorra balançadas pelo vento do fim da tarde, subiam delicadas e desciam como plumas, nem deram adeus; não foram educadas para respeitar a tristeza dos homens, não davam os pêsames, apenas sorriam desavergonhadas enquanto a noite não vinha.

Memória do Ventos Alísios

Horizonte.

In Uncategorized on Janeiro 22, 2009 at 12:44 pm

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Alí

—————- todo lugar-lugar algum

Aqui

Eis que de súbito, na densa massa escura da madrugada, reconheceu-se o mundo em dois planos paralelos que, obedecendo às regras matinais, caminharam do tímido azul espacial à cor invisível que define todas as coisas.

No horizonte, a mais perfeita das retas desenhadas à mão livre, misturaram-se mar e nuvens e tudo aquilo que os olhos não podiam – e ainda não podem – alcançar. Era ali que o celeste do céu evaporava-se nas profundezas do vácuo e onde morava também todo e qualquer tipo de besta devoradora de marinheiros.

No céu dançava um astro solitário, escondido, vez sim, vez não, sob vinte véus brancos; enquanto treinava cada pirueta de seus raios solares. Logo abaixo, o mar e todas as pedras que bóiam sobre ele davam vida a uma série de bailarinos coadjuvantes; criaturas coloridas e de uma graciosidade nunca antes vistas por essas bandas.

E num piscar de olhos ía célere o tempo deleitado. Ao fechar das cortinas, novamente se dissolveria a cor definidora em um misterioso caldo escuro repicado de brilhantes, e nada mais seria – somente os malandros sobreviveriam a um mundo de pálpebras fechadas.

Onde eu estava.

In Uncategorized on Janeiro 10, 2009 at 2:19 pm

Na pior fase eu abria uma página de jornal e relacionava o aumento da inflação a um aumento de demanda pela minha pessoa. E o pré-sal com páginas obscuras sobre o meu passado que estavam sendo analisadas meticulosamente por especialistas em Deus sabe lá o que, que iriam usar meus parcos vinte e quatro anos de idade contra mim. Os desfiles de moda sempre tinham relação com a minha possível união com criaturas estranhas e de alta estirpe. As músicas estavam relacionadas a uma grande descoberta sobre mim ainda não revelada. Eu era a própria revelação, um ego em chamas. Meu corpo doía, sentia as veias pulsando, uma febre leve que me consumia nos primeiros meses. Enquanto isso me alimentava de perigosas ilusões na internet, eram amantes, encontros com líderes mundiais, segredos expostos nas entre-linhas, um colapso nervoso a espreita. Tudo tinha relação com um castelo de cartas que eu ía montando, cartas marcadas, personagens que se destacavam, outros que íam caindo com o tempo, uma trama que ía se enredando. Envolvia princípes, chefes de estado, músicos famosos, discos recém-lançados, desenhos animados, e um código que perpassava toda a indústria cultural, feito de letras e palavras, que facilitavam a compreensão do mundo em que eu estava entrando.

Passei um ano construindo a trama e me desligando de tudo o que diz respeito a realidade, fugindo para um mundo literalmente virtual em que a promessa de alguma conclusão me movia, mas nunca se concluía nada, sempre surgia um fato novo, uma nova afeição, até o dia fatídico em que dormi as 14 horas e só acordei de madrugada, o mundo que havia criado sumira, as cartas desabaram, o preço do feijão não tinha necessariamente a ver com uma conspiração silenciosa, a perseguição acabara e eu mais uma vez havia deixado de lado a minha faculdade, os meus amigos, a minha família, tudo de ponta a cabeça. A razão veio como uma sonolência, a realidade era um tédio abrupto, o meu mundo caíra, só me restava um travesseiro e um relógio a fazer barulhinhos que me doíam os nervos. Saio de um vazio entrando em uma sala ampla, cheia de espaços, onde percebo que há muito a ser reconstruído, revigorado, revivido, sempre com um pé depois do outro, lentamente. A paranóia se fora, deixando uma carcaça vazia que precisava de novos estímulos para se revigorar. Se não tivesse uma família atenta, talvez sumisse entre novas ilusões, sempre atrasando um processo de amadurecimento que mais dia, menos dia teria de ocorrer. Um pé depois o outro, um pé depois o outro…

2009.

In Uncategorized on Janeiro 7, 2009 at 11:19 am

Sentados na beira da praia esperamos junto a massa de gente a chegada do ano novo. As pessoas se ajeitam como podem na areia, trazendo toalhas, delimitando seus espaços, cantando alto, até que de repente começam a contar: cada um faz uma contagem em separado, a sua própria virada de ano. Garrafas estouram e liberam o vapor gasoso preso dentro delas. Alguns malandros aproveitam para dar um banho nos turistas, além de molhar seus familiares com a champagne. Quando uma relva de fogos estouram no horizonte, já se sabe que o ano entrou e que é preciso fazer certos rituais na praia para comemorar a sua chegada. Sigo com minha mãe para o mar, primeiro pedindo uma permissão de entrada na água e logo depois molhando os pés. Ao meu lado um grupo de amigos pulam sete ondas, nós rimos juntos, eu e a minha mãe, mas cada um faz respeita um ritual próprio. Eu peço coisas em silêncio, deixando pequenas marolas bater nos meus calcanhares. Molho a mão com água e passo na testa; é ano de oxossi, vou com uma camisa escrita Salve Jorge, vermelha sangue e molho a testa invocando a força do santo. As pessoas tomam seu rumo, ainda vejo a minha mãe de braços abertos e olhos fechados recebendo o ano novo, emanando uma leve luz – reflexo das estrelas em seu vestido amarelo. Fogos ainda estouram sobre nossos ouvidos, quando decidimos partir da praia de volta para casa. Dever cumprido, a passagem se deu sem a sonolência, sem o vapor do álcool, sem grandes problemas, seguindo o ritmo das gentes que brincam na beira do mar, seguindo o estouro dos fogos, seguindo os pés molhados na areia e as flores oferecidas a Iemanjá e o retorno do povo para os seus particulares. Faço retorno com a imagem da minha mãe guardada na mente, tranquila; é como filho dela que findo o ano, é mais filho ainda que desperto para 2009.

***

A sonolência anda vencida pelo auto-controle, o tédio não me perturba tanto, a culpa e a idade são assuntos para mais tarde. A uma série de hábitos ruins que desenvolvi para não adiantar-me em meu processo de cura, um deles é reclamar do tempo. Mas se tem uma coisa em que estar diante de um processo de reintegração trás são visões neutras de um todo em andamento. Despertei da sonolência para os cuidados familiares mais básicos, sou antes de tudo um ente familiar. É na família, pela família, por causa da família que alcancei um estado diferenciado no processo de amadurecimento. Sou minha mãe e meu pai, estou estacionado diante deles, mas revigorado entre meus problemas. Quero de mim tanta coisa mas tenho pouca força, preguiça mesmo de ser algo mais do que filho de meus pais. É por aí que começo minha aprendizagem, é como um rosto familiar ao da minha mãe, como um corpo familiar ao do meu pai que entro em 2009.

Finda o ano.

In Uncategorized on Dezembro 30, 2008 at 12:30 pm

Assim quando estourou o primeiro dos fogos eu estava longe, com a cabeça em outra cidade. Fechei os olhos e me transportei para perto de amigos que não estavam ali comigo, mas dividiam o mesmo momento – a passagem de ano. Juntei as palmas das mãos e os saudei, saudei também o ano vindouro, depois de abrir os olhos saudei a minha mãe, dediquei um tempo ainda a molhar os pés na beira do mar e a fazer desejos. Desejei coisas simples, uni-me aquela massa de homens e mulheres e seus rituais e desejos complexos; pedi um ano melhor, que este fosse mais proveitoso, fui atendido na mesma hora com mais estouros de fogos e jubilos de alegria. Era a melhor festa do ano, era também a última.

***

Escrever me toma pouco tempo, ainda assim tenho de pensar sobre como, o momento, o que deve ser escrito, que contrato eu estabeleço com quem me lê, toda uma gama de coisas que parecem muito sérias assim escritas, mas que na verdade estão cobertas de pura galhofa e gratuidade. Já fui melhor sonhando, já fui mais alto escrevendo, já fui tanta coisa esse ano que me bastaria um abraço e uma conversa elaborada, algo que me fizesse generosamente sorrir para me encantar. Ando com as pernas bambas, o cérebro fraco, ainda assim ele dá rodopios e idéias mirabolantes solidificam-se e derretem ao mesmo tempo, logo depois que eu acordo. Como balas engatilhadas, um circo armado, um tiroteio prestes a acontecer. Não fui feliz este ano, também não fui infeliz. Algo se manteve, gavetas trancadas que precisam ser reorganizadas, muita insegurança sobre a capacidade de lidar com a tarefa. Muito trabalho a ser feito.

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O que fazer quando felicidade se resume a manter pelo máximo de tempo balas de cereja na boca?

Fim de Ano.

In Uncategorized on Dezembro 28, 2008 at 12:19 pm

Estou na rua de trás, andando a passos largos e com as mãos nos bolsos; a essa hora da noite faz um frio incomum, o tempo anda pelo avesso, soltando fumaças estranhas das esquinas. O ano está para acabar, faltam poucos dias. A vida por aqui segue tranquila. Resolvo remeter uma carta o único posto do correio que conheço fica logo mais a frente, se pudesse contar com ele na porta da minha casa teria evitado usar casacos e cachecol, mas seja como for tinha que andar de qualquer forma e pensar sobre o que escrevi para mim mesmo, uma carta que estou a enviar a minha pessoa e que só receberei no ano que vem, graças a burocracia estatal. Nela estão escritos os seguintes dizeres:

“Teimo em acreditar que o ano passou tão rápido, diz desses estava deitado em uma cama acometido de um mal incurável, uma sonolência pegajosa que me impedia de qualquer convívio social, de qualquer aproximação mais eficaz. Perdi meses da minha vida contando horas de relógio e vivendo aventuras virtuais que mal posso ditá-las em uma carta de tão estapafúrdias. O ano passou, passou também a idade, me sinto mais velho, menos moço, não sei o que fazer com o peso da idade e com pouca responsabilidade – é como entrar na vida adulta ainda com fazeres de criança”

“A cidade está moribunda neste fim de ano. Muitos viajaram para se encontrar com os seus então as ruas ficam de repente mais arejadas e a chance de encontrar algo ou alguem que lhe chame a atenção diminui sensivelmente. Desci para a piscina onde brinco de voar sobre os ladrilhos enquanto boio na água – a sensação de ser um pássaro molhado, eu a amo – e vejo crianças brincando com seus presentes de natal. Não consigo parar de pensar que depois de uma certa idade o melhor da vida foi ter sido criança. Observo seus gestos, a maneira como falam dos pais, a proteção que as circundam. Sinto saudades de mim mesmo.”

“O ano termina com pouco aproveitamento. No céu irão brilhar fogos e será sim uma noite mágica, como todas as viradas de ano, até que tudo se tranquilize novamente e volte ao seu estado natural. Durante o momento não sei o que pedirei, talvez mais saúde, uma rotina diferente, algo que me arrebata de tal forma que eu seja obrigado a participar de uma grande aventura sem ter sido convidado. Algo de novo, por favor. Que eu posso celebrar a entrada de um ano mágico, com grandes novidades, muita saúde; que eu possa finalmente cumprir com certas responsabilidades atrasadas.”

Hiato.

In Uncategorized on Dezembro 23, 2008 at 12:34 pm

Solução ou interrupção de continuidade em um corpo, em uma série etc.; falta, intervalo, lacuna.

Largo os pés logo cedo sobre a cadeira e me ponho a escrever novamente sobre a falta, o vazio tedioso. Já há quem o diga que o venero como a um Deus, que o tenho como inspiração maior dos meus escritos. Há verdade é que a lacuna é mais sensível onde o processo criativo foi interrompido, no afeto que se põe sobre as coisas do mundo, sobre a própria realidade sensível.

O certo seria venerar o que me rodeia e o que obtenho em retorno. Uma boa família, uma boa saúde, dois pares de perna qie ainda seguem rumos certos, um bom emprego. Mas sinto que o amor pena para acontecer. Não tomo nada em minhas mãos que me torne efusivo, tão pouco me faça andar por caminhos depressivos; pouco choro, pouco dou risada, estou em pausa.

As vezes sinto-me beirando a loucura, é quando tento quebrar meu próprio conceito de normalidade, rasgar a realidade e forçar fronteiras; isso acontece com desconhecidos ou pessoas próximas, arregimentando segredos em série, forçando pequenos vínculos e amizades. Não é um afeto de qualidade, é antes um amor construído, nada falso porém sem a pontinha de alegria e compromisso que figuram nos amores não embrutecidos.

Risco um pedaço de papel. Me alimento hora sim hora não de palavras dificéis. Quero conquistar um espaço enorme, estive sóbrio porém vazio por tempo demais; há ainda um mundo a minha espera eu é que não sei esperar pelo meu papel antes de entrar no palco. Que personagem é esse que interpreto sem vontade¿

Estar vivo é extremamente complexo, organizar uma vida ainda mais. Quando o relógio bate 20h eu durmo, quando dão 8h eu acordo; entremeios vou levando o meu tédio de uma forma salutar, tentando escrever, jogando conversa fora, trabalhando sobre um hiato criativo e mental de aproximadamente um ano. Com frequência tenho tremores nas pernas e nas mãos. É difícil falar sobre abismos quando ainda se está subindo às margens de uma depressão, aos mãos não sangram, mas a falta de apoio é evidente; é um caminho que se faz sozinho e em silêncio.

Voltar.

In Uncategorized on Dezembro 17, 2008 at 8:06 pm

Pego um palito de dentes afiado e encontro uma teia de aranha na varanda, pequena, com um inseto envolto e pendurado a espera. Agora a quebro, liberto o alimento morto, deixo-o cair no chão à espera das formigas.

Escrever se tornou uma tarefa tão enfadonha quanto brincar com a comida no prato, com o estômago sem vontade; de repente, uma obrigação diária. São leves exercícios físicos para a mente, jocosos, irritantes, quando a ainda se estou a buscar o meu ápice criativo – do outro lado da balança um grande “nada a declarar”. Quem quer me ler¿ O que se tem para ler hoje por aqui¿ Que tipo de retorno está garantido¿ E essa tarefa me inquieta além do simples prazer de frasear¿ Que tipo de inquietação eu quero despertar¿

Quando estou sólido a letra enrijece comigo. A mágica se perde no caminho – é o tédio, estou de sobreaviso. Quero ligar para minha mãe, ela me escuta, eu ainda a encanto e ela me encanta como poucas pessoas: nosso vínculo invisível é tão forte que tenho medo de ganhar rugas e ainda estar sob a barra de suas calças. É sobre a mecânica de nossa relação que me debruço quando estou na penumbra, no mais ou menos. O tédio me faz revivê-la, revisitá-la com muita frequência.

A tenho como força motriz, geradora de diversos impulsos criativos, a minha mãe. Seus dizeres, a forma como organiza sua vida, seu esforço humano para alcançar-me enquanto mulher e enquanto amiga, o afeto direto que põe sobre as coisas: a simplicidade com que nossos mecanismos trabalham é o que me convida a querer mais da vida, principalmente quando fui tomado pelo vazio, tedioso e alquebrante. Ela é a minha principal incentivadora em qualquer coisa, eu sou o que trás o princípio da dúvida e a insegurança; tenho medo de sugá-la, ela diz que cobro muito pouco, que quer me ver sanado. Um pé depois do outro, enquanto ela segura as minhas mãos.

Escrever é simples, cativar nem tanto. Encantar é um processo alheio ao que se escreve, imagino eu, a reação mágica entre o trabalho intelectual e um espaço em branco no leitor – talvez o mesmo tédio que sinto, talvez o mesmo encantamento quando pego um livro. Queria libertar-me, queria me saber libertário também, cunhar palavras que quebrassem na relação autor-leitor um grande copo de vidro vazio; que causasse um grande estardalhaço, e que ambos pudessemos ouvir, que ambos pudessemos catar os cacos, recolá-los, trabalhá-los em um mosaico. O copo nunca mais seria o mesmo, assim como eu e você, nunca mais teríamos um ao outro da mesma maneira – é o encantamento a que me refiro, é o tédio submetido. Se a vida só tratasse do que é encantado encontraria a minha cura em horinhas de descuido, transformando-me a beira do teclado, em palavras que me reconduzem e remodelam. Mas eu sou todo cuidados, perco a fé facilmente, não vejo luz no fim do túnel – ainda faço meus exercícios sem nenhuma finalidade, hoje sem a magia de outrora. Já fui mais jovem e mais vaidoso.

Ainda quero ligar para a minha mãe, enquanto penso em como fechar esse texto.

São Jorge.

In Uncategorized on Dezembro 16, 2008 at 9:55 am

jorge

A lenda fala sobre um cavaleiro e seu cavalo branco que salvam, ao trespassar a garganta de um dragão com sua lança, um povoado e a última virgem que seria sacrificada para amansar a fera. Nas areias da África do Norte os cidadãos da pequena vila se convertem ao cristianismo e a donzela se casa com Jorge, que a leva com ele para a Europa. Em outra lenda se fala de um herói de armas do exército romano alçado muito jovem a carreira de tribuno. Desafiando outros juízes que haviam declarado a morte em massa de seguidores de Jesus que não aceitavam o paganismo imposto pelo imperador, Jorge se levanta e se declara cristão e fala que aquela é a sua verdade. Ele então é castigado com inúmeros martírios até a data de sua morte, em 23 de abril de 303, quando é comemorado o seu dia. Já foi rebaixado na categoria dos santos, já foi revitalizado pelo Papa, é padroeiro de alguns países e regiões, inspirou muita música boa e aparece em camisetas despojadas por todo o Brasil; enfim, é um santo popular.

O fato é que queria uma corrente de ouro com um pequeno São Jorge e a ganhei de minha mãe no meu vigésimo quinto aniversário. Ela aparece e diz, quero pô-la em você, e me conta que o santo matava um dragão por dia. Penso em um lema que tenho usado: um pé depois o outro. Guardando a certeza de que não são dragões que me atormentam, nem mágoas retidas, é a sonolência tediosa e sem cura, que agora, às avessas, me faz perder noites de sono.

A cabeça fervilhando sobre o travesseiro, cheio de idéias amalucadas. Penso na minha idade, vinte e cinco. Penso no santo. Penso em ir à missa para solenizar o momento e a medalha. Batizá-la como fui batizado. Abençoá-la, trazê-la a cristandade. Mas é o seu lado místico que mexe comigo, sua lua brasileira, seu dragão, seu corpo revestido em orixá, o sincretismo. Eu não sei o meu santo no candomblé, mas fora dele tomei gosto por São Jorge – ainda iniciante em seus segredos.

Todavia não sei ao certo que proteção queria, contra que armas eu estou me defendendo. Sim, por vaidade queria uma corrente porque achava bonito tê-la em volta do pescoço. Agora me pego a pensar em sua história, no misticismo, em um escudo invisível, um motivo para rezar o corpo. Hoje o guardo no peito como um companheiro, carrego uma inspiração comigo, sou um cavaleiro de Jorge; não sei ainda matar dragões nem salvar virgens, mas sei orar baixinho, emaranhar em pequenas preces as melhores energias. Como diz a letra do Caetano, potência de amar senhor do lugar inteiro. Os santos sempre amam demais, amam sem aviso, protegem, dão cor aos altares e escutam pedidos. Pedirei um ano melhor, a cura de um mal ainda indefinido, mais alegria menos combate – hei de ser atendido.

Aniversário.

In Uncategorized on Dezembro 15, 2008 at 10:10 am

Sinto falta das bujalações e do bolo com velas; seriam vinte e cinco e eu as assopraria desejando alguma coisa doce, muito doce. Algo simples, como um ano melhor, saúde ou paz de espírito. Aniversários sempre parecem melhores quando somos crianças, todos em volta da mesa, a família batendo palmas, as brincadeiras na hora dos parabéns e os presentes.

Quando somos pequenos ainda ganhamos presentes inesperados. O brinquedo da moda, uma roupa que não cabe e precisa ser trocada, um roupa que cabe mas que não gostamos e fingimos bem em uma risada de canto de boca. Mais velhos ganhamos livros que não lêmos, cartões ou uma presença em mesa de bar para ajudar a dividir a conta. Isso quando respondem ao convite.

Faço aniversário em uma segunda-feira mas escrevo isso antes, muito antes. Porque sei o que irei fazer antes de reunir-me aos amigos ou fazer um jantar pequeno com a família; irei ao mar. Sempre vou a praia na manhã do meu aniversário, tiro a roupa e entro vagarosamente. Quando a água já tomou a minha cabeça eu grito. Saúde, felicidade, amor, coisas clichês e positivas. Grito alto sob as águas do porto.

Nado um pouco, brinco com a água e depois saio confiante. O ritual nem sempre se repete ano a ano, mas saio com a certeza de que no próximo estarei lá, sob o mar, aos berros pedindo algo que não vou ter sob um laço de fita ou papel de embrulho. Deixo sob a água bem mais do que pedidos e quereres; deixo ali mais um ano de vida, tanto faz o que passou, tanto faz o que virá.

Os livros.

In Uncategorized on Dezembro 13, 2008 at 11:46 am

Este sim foi um livro libertador para mim, ele me disse. Acordo com a obra ao lado já em andamente, britadeiras a postos, as soldas ainda não usadas. Por puro costume pego um cigarro e vou a varanda. Dia desses alguém gritou “caipora”, alto o suficiente para eu ouvir. Os tenho com indiferença, os rapazes da obra, eles xingam com naturalidade, o dia inteiro; xingam e batem a argamassa, xingam e jogam o dominó na hora do almoço.

Pego o livro que ganhei de presente a exatamente um ano e o abro na parte em que deixei ontem a noite. Leio umas poucas páginas, os olhos ainda estão grudados, acabei de acordar. Depois inquieto pego um outro cigarro e tomo o rumo do computador, ainda é cedo, ninguém para jogar conversa fora. Já acordo com o tédio, de uma forma secreta me dou “bom dia” antes que ele me visite. Penso que ainda há muito a ser reconstruído, reavido, reajustado, então não me culpo mais por senti-lo – o tédio. Quanto a ele só me incomoda não ler mais de vinte páginas de um livro ou a televisão, que não visito a um bom tempo.

Escrever se transformou em uma forma de combatê-lo. Junto minhas armas e com um pouco de esforço sopro palavras; se quisesse levar isso a sério, vestir-me de autor, diria que me falta leitura. Daí penso nos livros que estão sobre a minha estante. Quantos eu já li realmente? Quantos estão imbuídos de uma capacidade transformadora, libertadora? Todos, provavelmente. A minha relação com livros é bem complicada. Leio pouco por medo do encantamento que guardam as páginas. Sou tão influenciável que passo a escrever como o autor que leio, a fazer dele um companheiro diário, a me embebedar em cada frase que julgo emoldurada por uma sabedoria acima da média. Respeito e temo autores de livros, mesmo os ruins, porque ainda não escrevi um que possa chamá-lo de meu e, principalmente, duvido da minha capacidade de encantar como me encantam. No dia que puder dispor de força para libertar um momento, uma memória, alguém através de palavras, nesse dia serei temporariamente completo. Nesse dia, entre palavras minhas e mecanismos alheios, dividiremos um segredo. Não há nada mais libertador que um segredo em uma relação a dois.

Engrenagem.

In Uncategorized on Dezembro 12, 2008 at 3:03 pm

As engrenagens da mente; quem pode entendê-las? Com um parafuso a menos, corremos sem eira nem beira por sertões apinhados de cactos. Combatemos não os jagunços, mas plantas, como Quixote em uma nova aventura. Saltamos rios e montanhas com os nossos cavalos, achamos água para saciar nossa sede; bebemos e a saciamos. Com um parafuso a menos se vai longe onde se está, sem ir à parte alguma – há coadjuvantes, mas eles não sabem que fazem parte de um grande e enfadonho monólogo. Está tudo errado, estão todos enganados e a razão é minha, sozinho e sem contra-argumentos.

Com algumas peças a mais, todos os círculos encaixados e girando. Com a máquina lubrificada e os cálculos sendo feitos, também se vai longe. Quase tudo se pode saber com exatidão; tudo o que envolve importa para o seu bom funcionamento. A mínima experiência gozada é o máximo divisor em uma conta complicada, que produz tantos outros cacarecos. Com a máquina lubrificada todos os sentidos estão aguçados então sentir, qualquer bobagem, é a perfeição. Não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência. A frase do Kant é enfática, tirada de um concurso de revista; faz-me bocejar. Tento entre toda esta parafernália descobrir a minha verdadeira vocação. Sinto saudades de quando não estava tão azeitado, saudades dos sertões e do fantástico, saudades de quando eu era um aventureiro e não trabalhava em série, saudades de mim.

Estou em uma grande biblioteca, não há bibliotecário, basta puxar uma corda e um livro empoeirado cai sobre minha mão. Leio os títulos, brinco com um álbum de fotografias, danço sozinho, grito alto e escuto ecos. As pequenas aventuras de LP é o nome. Capa mole, poucas páginas, a orelha escrita por um autor desconhecido; amigo próximo. Grito alto e escuto ecos, o vão, a parede apinhada de livros e álbuns a perder de vista. Puxo a corda me vem outro livro, auto-ajuda, algo sobre ócio criativo e bons exercícios para a mente. O parafuso está solto, mas ainda não caiu no chão, ainda não caiu; a biblioteca silenciosa, eu balanço freneticamente a cabeça para o lado, dando tapas na orelha esquerda, espero ouvir em breve um tilintar metálico no chão. Quero mesmo é combater cactos e não fazer cálculos matemáticos.

Sólido.

In Uncategorized on Dezembro 11, 2008 at 10:09 pm

Saí de lá estranho, com dores na cabeça e uma sonolência inexplicável. Quando o sono chega a uma da tarde, antes de comer qualquer coisa, sei que algo não vai bem. Não tenho costume de tirar sonecas; em verdade, sempre sonho quando durmo à tarde e acordo pesado e sem chão, como um bicho-preguiça sem o seu galho de árvore. Parei de roer mesmo as unhas, olhei para elas de novo em um ônibus apinhado de estudantes.

Esperava chegar sólido mas o tédio me pegou antes; antes mesmo de pôr a lasanha no prato, de entrar naquele ônibus, ele já estava lá. Impreciso, dentro de um caos controlado. Sono à tarde virou sinal de desarranjo, para mim. Tenho um alfabeto inteiro com letras trocadas de lugar. Tenho um guarda-roupa onde os pares de meia foram parar na gaveta de calças. Tenho dois braços nos lugares das pernas. Tenho também uma tendência a aumentar o tamanho dos problemas, quando não se tem nenhum problema maior em vista. Culpo-me por sentir sono porque sei que terei de organizar a baderna, em algum momento terei de começar a pôr as vogais no lugar e colocar as calças sujas para limpar.

Preciso de alguém para conversar mas o mundo parece bocejar comigo. Está tudo ao avesso e está tudo em seu devido lugar, nunca esteve melhor, não poderia estar. Tenho escrito como um louco e isso é sinal de que quero algo, de que estou inquieto; estou aqui, me organizando de alguma forma, no meio de palavras. Vez em quando um bocejo, uma lágrima. Recebo uma ligação, fui selecionado para uma vaga de estágio, penso: sou feliz, eu só ainda não sei disso.

Máquina 3.

In Uncategorized on Dezembro 10, 2008 at 2:42 pm

Quando dão as férias de fim de ano, quando deu algo errado em minha vida ou, simplesmente, quando dá algo aqui dentro [o desejo mesmo de mudar], eu raspo o cabelo. Sigo com uma amiga até o banco para depositar dinheiro e depois de um forte abraço cada um toma seu rumo. Eu decido atravessar a rua e cortar o cabelo com uma senhora divertida que já o tinha cortado da última vez.

Enquanto ela resmunga sobre o patrão que não se cansa de brigar com os eletricistas que empatam a frente do prédio, vai tirando o excesso de pontas e tufos descomunais que se lançam para os lados. Redemoinhos, ela anuncia, são muitos, temos de começar a cortar pelo lado contrário ao que eles crescem. Com a cabeça depenada ela me pergunta o número, eu digo máquina três, ao que ela responde: vai ficar bonitinho.

Ela sempre me compara a um artista, primeiro a um vencedor de reality show e depois a um roqueiro mineiro, deixando claro que esse corte está nas vitrines, na moda e que provavelmente alguém irá me copiar; como se copia a um ídolo. É só uma cabeça raspada.

Mas no fundo, bem lá no fundo, quando deixo o salão e atravesso a rua, sempre penso que é um rito de passagem. O sol queima o couro cabeludo quase a mostra e eu continuo com a certeza de que deixei algo mais do que fios de cabelo em um chão qualquer – algo que não verei no espelho.

Feriado, oito.

In Uncategorized on Dezembro 9, 2008 at 10:59 am

Gosto quando a ilha some atrás de uma parede de neblina e os navios desencantam na baía. Imagino um infinito chumaço de algodão grudado ao céu, me impedindo de seguir com os olhos os pequenos montes que se formam no horizonte. Enquanto fumo uma música eletrônica toca em alto e bom som, colagens metálicas e vozes masculinas de uma banda da qual baixei três discos sem conhecer nenhuma música. Minto, haviam dois clipes que passavam incessantemente na televisão; o que há de popular.

Mais tarde a ilha reaparece entre leves batidas que atravessam a minha janela. You are everything that i never could keep. Batidas intercaladas por um coro suave, erotismo, música para dois. Chove fino, a neblina se disperça e fico sem o meu algodoado, encostando o cigarro na boca levemente.

Em dias assim a fumaça entra fria e lentamente nos pulmões; a sensação é a mesma de sempre, enchendo e esvaziando a metade de um copo vazio, ao mesmo tempo. Inspirando e expirando.

Almoço fora. Volto. Consigo dormir, sonho em pequenos flashes, colegas de faculdade. Não me recordo. Na ilha se acendem as luzes, pequenos pontos luminosos surgem desenhando um traço no horizonte. Escurece. A neblina volta a tomar metade da paisagem, esmaecendo os montes distantes. You are everything that i never could keep. Outro cigarro, outra música, outra conversa batida, um pouco de lucidez, vou a uma peça de teatro e está tudo bem. Irei comer restos do almoço, dormir e sentir faltar alguma coisa – a metade de uma ilha, talvez.

O tédio 2.

In Uncategorized on Dezembro 8, 2008 at 11:12 am

Então percebo que existem margens, meandros, pequenos orifícios na escuridão. Se pudesse manobrá-lo, tratá-lo como um material alquímico, moldá-lo a minha maneira como se molda um souvenir de barro. Presenteá-lo sem cobrar absolutamente nada, pelo simples gosto de dividir um momento com alguém. Talvez pudéssemos moldá-lo juntos, com as mãos entrelaçadas, trabalhar, suar a testa, deixar pingar algumas gotas no barro e só então presenteá-lo a um terceiro. Que poderia ou não se juntar a tarefa de fabricar pequenos souvenires.

Em meio a copos de cerveja, gente dançando, música alta, luzes e cores, a escuridão iria se esmaecendo. Não sentiria grudá-lo nas mãos, deixaria de ser pegajoso e encardido. Em degrade, ainda fosco, se transmutaria em um estado calmo e convidativo, intercalado por conversas batidas e todo tipo de novidade. A calma preenchida pelo gozo. O tédio como uma lojinha de souvenires multicoloridos onde sempre se pode ler “volte sempre” em plaquinhas de metal fincadas sobre um pedestal de madeira.

Acordo. Fumo três cigarros intercalados por dois cafés. Na tela do computador pisca um comando exigindo uma letra, marca o início de um trabalho descompromissado. Um T, depois um E, depois um acento, depois um D, depois um I e só então um O. Vou passá-lo em papel celofane, enrolá-lo em uma fita e deixar sobre uma bancada. Quem passar primeiro leva. É um presente.

O tédio.

In Uncategorized on Dezembro 6, 2008 at 12:51 pm

Estado invisível e pegajoso cujo efeito não se percebe nem com o bater dos dedos sobre uma mesa, nem com o passar das horas. Sobre ele as melhores palavras surgem quando sento para fumar um cigarro, surgem em cascatas e beiram a poesia. Mas não caio nessas águas, não deixo a água forte bater sobre o meu corpo; em verdade, não vejo uma cachoeira faz quatro anos. E metade da poesia some no caminho para o computador.

Parei de roer as unhas e o sinto crescer e se esconder sob as pontas sobressalentes. As vezes encarde em pequenos negrumes que fico a limpar com outras pontas de unha enquanto nada me chama a atenção; o tédio é escuro, imagino, embora não o possa ver. Respiro-o.

Entre as mãos, quase se pode o ter entre as mãos. Abraça-lo se fosse o caso, como se abraça a uma grande oportunidade, não fosse ele tão escorregadio. Um amigo me presenteou com um livro do Sartre – o protagonista não sabe ao certo se viveu aventuras o suficiente e entediado empurra fotos ao Autodidata que o pergunta sobre suas viagens. Para viver aventuras é preciso que nos ponhamos a narrá-las. Mas é preciso escolher: viver ou narra-las.

Uma aventura; e então o escuro invisível envolve o gabinete, o quarto, a rua. Não se pode narrá-lo nem vivê-lo com exatidão, somente usufruí-lo de alguma maneira. Corro para a varanda, acendo um cigarro e espero, espero por palavras enquanto homens xingam qualquer coisa na obra ao lado. Quando o sol desce sob a ilha desenhada no horizonte eu chego a certeza de que o tédio é sim escuro; não como a noite. Ele não irá se dobrar quando raiar o dia, permanecerá negro e cada vez mais fundo, sob a ponta da minha unha.

De cereja.

In Uncategorized on Dezembro 4, 2008 at 9:29 pm

Faltando meia-hora para eu entrar na piscina atravesso a rua de casa e vou comprar balas de cereja. Uma para degustar na ida outra na volta. Desembrulho-as e ganho sempre de brinde um papel prateado com fotos de garotas e garotos de todo o brasil. São amigos, imagino, e estão sempre felizes.

Carrego em um braço um saco com dois imensos pés de pato e uma mochila contendo o necessário (uma carteira de identidade, uma toalha, uma touca e os ocúlos para natação). Enfio a bala vermelha na boca e a sorvo calmamente durante vinte a vinte cinco minutos, sem quebra-la apressadamente. É um exercício contra a ansiedade. Penso da seguinte forma: se posso chupar uma bala de casa até o clube onde nado então posso transformar uma parte dos meus dias em algo programadamente doce.

Mantenho o cuidado de não quebra-las com o dente até chegar a água, quando já estão como um filete adocicado ameaçados de sumir a qualquer choque mais abrupto; com um molar ou um canino. Meus passos são sempre apressados e nada, absolutamente nada nem ninguém, me aguça os sentidos enquanto eu ando pela rua.

Dois banhos.

In Uncategorized on Dezembro 2, 2008 at 2:53 pm

São dois por dia. Um por tédio, antes do almoço, para subjulgar a cabeleira que está desgovernada (não devia ter pedido a ela que cortasse só as pontas do cabelo). O outro para limpar o cloro da piscina, entre as 17h30 e as 18h, apertado de fome.

O primeiro é demorado. Pego o sabão desgastado e aplico sobre o corpo de qualquer jeito. Lavo somente o que julgo necessário; o peito coberto de cravos muito pequenos e o rosto oleoso. Deixo a água correr, as vezes encostando a cabeça na parede para senti-la na nuca. Nunca limpo os cabelos.

Antes do pôr-do-sol me preparo para o segundo. Com a barriga roncando limpo duas vezes a cabeça com um shampoo bege e cheiroso. Movimento o sabão pelo corpo, círculos e mais círculos, até ganhar uma armadura de espuma dos pés a cabeça. A água quente açoita o ar, faz um barulhinho bom, mas só a encontro para deixar armadura (e armas) escorrer pelo ralo. É sempre o melhor banho do dia.