Luigi Piccolo

Arquivos para a Categoria ‘.números.’

7.

In .números. on Dezembro 19, 2008 at 8:07 pm

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Se lhe pego correndo novamente com aqueles garotos, se lhe pego a se divertir furando os gatos da rua de trás, não sabe do que sou capaz. Um animal, é o que você é, quando pinica os olhos dos gatunos com as seringas do teu pai. Se não gosta de animais porque me pediu um cachorro de aniversário, está aí, mal-cuidado, e se furassem a ele também; sairia atirando pedras no malfeitor, correria para amaldiçoa-lo, não, choraria indefeso na barra da minha saia. A vontade que me dá é de pinicar os olhos do teu cão, vê-los vazar, para que você saiba o que é um olho a menos. Como faz falta um olho a menos e olhe que viemos com dois. Queria ver o teu cão mancando, batendo com a cabeça nas portas, tateando os terrenos, latindo para as paredes, cagando sobre o teu travesseiro. Se te pego de novo furando os olhos de um gato, furo eu mesma os teus. Vou presa por cegar um filho mas com o dever cumprido; lhe prefiro cego do que malfeitor. Crio um filho cego, estás me ouvindo, não se faça de surdo, mas não crio um bandido. Começa por gatos… Depois esta aí torturando passarinhos… Estás me ouvindo… Abandonando mulheres, batendo em indefesos… Estás me ouvindo… Surrando crianças e eu que tenho de ouvir dos pais… Estás me… Se te pego furando o olho de um gato, se te pego a pinicar animais…

6.

In .números. on Dezembro 18, 2008 at 12:36 pm

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Pegaram a primeira a esquerda e seguiram pela rua do Conde, ele pensando ao volante se talvez não chegariam mais rápido se tivessem aceitado o conselho e tomado um atalho pela rua de trás. Estavam perdidos. A essa hora o jantar já estaria servido e ela fazia círculos sobre o mapa, círculos avulsos e isso o irritava profundamente; buzinavam os carros enquanto eles pediam informações. A rua de trás era o atalho mais recomendado, deram meia volta, um outro buzinaço. Esta rua fedia a mijo seco e lixo revirado, se fechassem a janela iriam suar. Ligou o rádio e uma música melosa tocava, ele a conhecia, estava na metade. Ela parou de fazer círculos e se pôs a cantar, alto, e isso o também o irritava.

Ao chegarem na rua recomendada deram de cara com uma praça que a dividia em duas mãos, uma de ida outra de volta; já deviam estar na sobremesa. Ela perdeu um brinco, ele começara a suar. A testa molhada, o perfume rareando, ainda estavam perdidos. Ela achou o brinco, ele ainda suava quando num muxoxo desistiu da festa. Explicaria por telefone que se desentendera com o mapa ou inventaria uma desculpa. Era festa de família, ele não queria ir, ela insistira. No rádio tocava outra música melosa, desconhecida, quando se ouviu um barulho; alguém batera no fundo do carro. Ela xingou, ele pensou em potes de sobremesa. Não precisava mais de desculpas.

Aceitou vir porque a relação não ía bem; achava até que andara sendo traído. Mas era do tipo controlado cujo um par de chifres não lhe tirava oito horas de sono. Ela saiu primeiro, brigava com um rapazote que não percebera o carro da frente desacelerar. Acendeu um cigarro e saiu do carro. Ela estava linda, lhe faltava um brinco na orelha. Imaginou se não o trairia com um tipo jovem, como este moço agora que a afrontava, explicando seus caminhos. Pensou em frangos empanados e mousses de mangaba, pensou em tanta coisa. Queria voltar para casa rápido, trepar, calçar um par de meias e ficar sob as cobertas com o ar condicionado ligado ao máximo. A barriga roncava. Um guarda anotava o número das placas, um arranhão na lataria, nada significativo. Sentou-se e ela o chamou de imprestável, pediu para ir para casa. O ar ao máximo, uma coberta e restos de comida em um congelador. Em seu devido momento, depois da trepada, queria mesmo era ficar solto; nada de cabelos sobre o peito e mãos  lhe acariciando. Esta noite não dormiriam abraçados.

5.

In .números. on Dezembro 17, 2008 at 11:19 am

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Hoje pela manhã aconteceu algo incomum na rua de trás. Muito estreita e sem comportar veículos grandes, a rua foi tomada por dez caminhões coloridos que anunciava a chegada do circo à cidade.

As carroças azuis vinham decoradas com o nome Gran Circo em amarelo e o rosto arredondado de um palhaço, careca como todos e de nariz vermelho. Algumas ficavam expostas a céu aberto, arejando a jaula de grandes feras. Outras eram menores, traziam pequenas cortinas e longas chaminés de onde saíam uma fumaça branca; tinham a aparência de uma casa sobre rodas. Eram nelas que viviam os malabaristas, palhaços e trapezistas? Quem poderia saber por que tipos eram ocupadas? Como era interessante pensar em tanta vida escondida, esperando a última parada antes do espetáculo!

Crianças se aglomeraram na rua enquanto os caminhões perpassavam com todo o cuidado e demoradamente os poucos metros que marcam a vizinhança. Alguns paralelepípedos ameaçaram sair do lugar quando a carroça que trazia um imenso urso passou, mas todas as pedras agüentaram em suas posições. Não fugiram com o circo.

4.

In .números. on Dezembro 10, 2008 at 11:05 am

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Um casal resolve cortar caminho até o ponto de ônibus pela rua de trás. Aparentando ser muito jovem e com cabelos compridos a moça está lacrimosa. O rapaz a acompanha circundando um braço por sua cintura; é magro, alto e muito feio. Segura-a de forma firme como que fincando ali uma bandeira, demarcando um território; ela não demonstra, mas gosta da atenção.

Estão calados, um pouco irritados. Saídos de uma briga, talvez. Destas onde no fim ninguém assume a culpa ou a razão, só o silêncio. Vão andando juntos até a esquina e lá se viram um para o outro, ele a olhando fixamente nos olhos. Ela de cabeça abaixada e de olhos fechados. Beijam-se sem muita paixão.

- Então, me espere amanhã, no mesmo horário – diz o rapaz.

- Vou te esperar.

Três carros passam antes de a condução chegar. O homem entra no ônibus vazio e ainda acena com a ponta dos dedos, mas a mulher já se virara de costas tomando o rumo de volta.

3.

In .números. on Dezembro 5, 2008 at 1:19 pm

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Um homem a beira da loucura corre pela rua de trás com uma faca na mão. O peito nu, os cabelos desgrenhados e a carne muito magra, coberto por um lençol ensangüentado. Fazia dias que os vizinhos não o viam e agora ele sai gritando:

- Uma desgraça. Uma desgraça se abateu sobre mim – repetindo a exaustão.

Seja lá o que tenha acontecido ninguém deu por nota. Porque assim como entrou correndo pela esquina saiu pela outra deixando cair o pano que pendia sobre o corpo. É ator de profissão.

2.

In .números. on Dezembro 3, 2008 at 11:34 am

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Na rua de trás vive um terapeuta com a sua esposa, uma mulher bonita e dez anos mais nova. Resolveram construir sua casa baseada em uma mistura de convicções filosóficas, religiosas e esotéricas, depois de uma viagem a Índia. Como são três os principais deuses do hinduísmo eram três também os andares, as torres que se pronunciavam no terraço, as varandas e as portas que davam de entrada e saída ao edifício. Até onde se pode contar eram dezoito as janelas.

O último andar o terapeuta usava como sala de atendimento. O divã era cercado por incensos e toda sorte de imagens e símbolos hinduístas, embora ele pouco o utilizasse. Preferia sentar jocosamente e descalço sobre almofadas que cercavam a pequena varanda de madeira que havia preparado somente para isso. Sobre um tatame o analisado era convidado a retirar os sapatos e se deitar, da maneira que assim preferisse.

É um terapeuta heterodoxo. Não se serve de nenhuma das linhas clássicas de análise psicológica e ao mesmo tempo se serve de todas, em um trabalho que anuncia em jornais e no boca-a-boca como uma “abordagem holística”. O todo para que se possam chegar às partes, em partes para que se possa conquistar o todo, é o seu mote. Apresenta-o sempre antes de tirar os sapatos e estender as pernas curtas sobre a almofada roxa.

A porta principal carrega uma pequena imagem de uma antiga lenda hindu. Uma criatura humanóide com cabeça de tigre segura em uma das mãos uma cimitarra e na outra a piteira de um narguilé dourado. É um rakshasa, um demônio, explica a todos que perguntam, e os demônios eu os prefiro fora de casa.

Sua mulher está grávida e ainda não sabe. O quarto do bebê será construído onde antes havia uma pequena sala escura para a revelação de fotos; a esposa é fotografa profissional. As paredes serão pintadas de verde limão, com uma série de vinte lótus azuis e douradas representando as flores que nasceram com os primeiros passos de Sidharta Gautama, o Buda. O terapeuta tem uma filha mais velha, do primeiro casamento, que mora em Londres e se comunica com o pai por cartões-postais. Ele não tem computador.

1.

In .números. on Dezembro 2, 2008 at 1:00 pm

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Na rua de trás o motivo de riso é sempre o mesmo. Uma grande placa de vende-se sobre o muro da casa de número 16. Para a casa, muito pequena, dois quartos e uma laje batida, nunca acharam um comprador. Não é feia, pelo contrário, o grande pomar a sua frente, com destaque para um frondoso limoeiro, dá graça à obra mal-acabada. Os últimos galhos, que saltam para fora do muro, deixando cinco ou seis grandes limões à mercê das crianças da rua, servem de apoio aos arames que deixam a placa cair sobre o muro.

Vende-se. Um cachorro magro perambula pelo pomar cavando buracos onde, vez em quando, esconde suas fezes do dono. Cansado de ser surrado por defecar em casa e de não ter outra ocupação a não ser vigiar os outros tantos limões e cajus do pomar, o cachorro criou o hábito de cavar buracos. Longe dos temperos e verduras, sempre perto do mamoeiro ou do pé de limão. Cava-os e depois os cobre. Cava-os e depois os cobre. Não é um hobby, ele sequer balança o rabo. Ao contrário, entorta a coluna e com as patas em diagonal vai cavando agressivamente buracos, não muito fundos. Como foi dito, algumas vezes se alivia sobre um deles

Vende-se. A dona da casa é uma mulher miúda, muito magra. Trabalhou durante cinco anos como babá até “sua menina” estar crescida o suficiente. Tinha um celular que foi presenteado pela patroa: somente para casos de emergência. Foi despedida em uma véspera de natal e dois anos depois teve um filho com um ajudante de pedreiro, no momento desempregado. O filho passa os dias na casa da avó, não muito longe dali, enquanto a mãe e o pai procuram empregos.

Vende-se. O casal é motivo de riso porque, novos na vizinhança, trocaram o “s” por um “ç” pintado em vermelho na placa de ferro. Assim, onde se deveria ler “vende-se” lê-se “vendeçe”. A vizinha, que tem uma filha que freqüenta a escola começou com a piada e assim foi se espalhando pelo bairro que a casa não é vendida por causa da cedilha vermelha. Embora a mesma vizinha tenha pensado, com o seu marido taxista, em deixar de pagar aluguel e comprar a casa ao lado. Sua filha letrada ontem roubou um limão depois de voltar da escola.