
A peleja entre os gêmeos Raimundo e Deodoro Paranhos era nacionalmente conhecida. Sua luta encarniçada pelo título de “especialista em tudo o que há” os levaram a um sucesso ressonante: ambos eram editorialistas prestigiados, embora um tivesse por formação a medicina – em uma escola conhecida por instruir as maiores mentes do liberal Partido do Povo – e o outro estudado as leis do país na conservadora e católica Universidade de Todos os Santos. Raimundo escrevia a coluna A Lupa no segundo jornal mais vendido do país: seu grande mérito era destrinchar a vida de celebridades e políticos como um médico legista o faz com um cadáver. Não raro destruía reputações apimentando matérias e opiniões com segredos de alcova. O que lhe salvava a cabeça era a maneira magistral com que lidava com a língua portuguesa – diziam os amigos intelectuais. Fora convidado a ser sócio do jornal tamanho o sucesso de sua escrita entre as classes populares, mas preferiu continuar dividindo a literatura com a clínica geral – era, talvez, o médico mais bem-sucedido da capital.
Ao carola Deodoro cabia a tarefa de expurgar todo e qualquer traço de liberalidade na sua coluna O púlpito, que aos domingos era substituída pelas orações que Dona Marília Paranhos, sua esposa e oradora prodigiosa, concebia com suas amigas da fraternidade Mulheres por Nossa Senhora. Se o irmão trabalhava no jornal conhecido como “jornal do Raimundo”, era Deodoro o colunista mais lido do país. Trabalhava para um influente grupo de comunicação que detinha a maior rede de rádios e televisões da República e isso explicava porque era execrado por progressistas e comunistas, mas adorado pelos conservadores e o admirável contingente de católicos praticantes que se espalhavam por todos os cantos da nação.
Se Raimundo escrevia sobre a boa fase do time de futebol nacional Deodoro fazia ressalvas quanto à escalação do time. Se Deodoro escrevia sobre a retumbante vitória do Partido Conservador nas eleições regionais Raimundo protestava contra as leis que impediam negros e brancos de se sentarem juntos em lugares públicos. Se um herói nacional era prestigiado em O Púlpito certamente A Lupa traria um filho ilegítimo aos holofotes. Não foi uma surpresa quando Raimundo perdeu a cadeira na Academia Nacional de Letras para o irmão. Tampouco foi uma surpresa quando Deodoro tachou de “socialistas”, em sua coluna, os celebres intelectuais que apontavam Raimundo como a melhor opção para a prefeitura da capital. A antítese daquela relação era acompanhada de forma tão entusiasmada que a “guerra dos Paranhos” era, sem dúvida alguma, a novela mais popular do país.
A única pessoa a que ambos respeitavam era a sua mãe, centenária, mas liberal nos costumes. No dia do seu enterro ambos acertaram uma trégua muda, publicando cada um a sua maneira a história daquela mulher – que enviuvara cedo e criara doze filhos. Aquela senhora não viu os dois filhos se cumprimentarem em seu leito de morte, porque um estava a esperar na varanda que o outro se retirasse da casa. Não guardaram luto. Em poucos dias Raimundo estava a protestar contra a péssima estrutura da escola de seu povoado natal, que representava para ele o exemplo de como o Partido Conservador tratava a educação do país na região serrana. Deodoro se contrapôs reafirmando as benesses que o programa de agricultura trouxera aquela região, que produzira um presidente e um membro da Academia Nacional de Letras.
Não causou espanto algum quando, aos 65 anos, Raimundo morreu de uma cirrose devastadora. Seus hábitos pouco saudáveis e seu gosto pelo destilado nacional o levara a ter uma constituição fraca – não raro padecia de desmaios e refluxos diante dos amigos. Mesmo contrariado o Partido Conservador decretou luto por três dias em homenagem aquele homem, que fora reconhecido recentemente por sua luta pelos direitos humanos. A Lupa amanheceu sem o seu colunista e, naquele dia, o “jornal do Raimundo” foi o mais vendido na capital e no interior. Embora as homenagens não cessassem Deodoro não se deu por vencido publicando em O púlpito a sua celebre frase: A bebida faz o homem.
Aos 82 anos de idade foi encontrado morto sobre a sua cama, vitima de um enfarte fulminante. Já havia sido ministro de estado duas vezes e trabalhava incessantemente em um livro, o qual nunca concluiu. Também descontente o Partido do Povo, que chegara ao poder depois de algumas gerações e embalado pela revolução dos costumes na Europa, decretou luto por três dias e ponto facultativo em todas as repartições. Durante três semanas, O púlpito passou a retratar a vida de Deodoro Paranhos e seus principais amigos e familiares dedicaram-lhe as mais honradas palavras. A Lupa calou-se diante da sobriedade com que aquele homem levara a vida, constituindo uma família feliz e sem nenhum filho ilegítimo reclamando o inventário.
O armistício só cessou quando o presidente, liberal e grande admirador de Raimundo Paranhos, não compareceu nem velório e nem ao enterro, consagrado nas tumbas da Academia Nacional de Letras. No outro dia A Lupa fazia menção ao plano nacional de desenvolvimento e O púlpito a falta que fazia ao país a figura de um grande estadista.
