
Ela se sentou cansada sobre a pedra espumada e levou os braços até a testa, enxugando o suor que escorria sobre o rosto. As outras riram de sua indisposição.
- Porque parou, mulher¿
Estou cansada dessa vida, Nena – e torceu a barra do vestido – Não posso passar o resto da vida sovando roupa na pedra.
- Alguns nascem para isso, Juru – Nena estendia o lençol sobre os galhos de um cajueiro – Para lavar a roupa suja dos outros. E ainda reclamam se tudo não ficar um brinco.
- Pois um dia vou embora sem deixar rastro.
- Você sabe o que acontece com uma bonitinha feito você na cidade grande – Olhou com repreensão – Quer ser mulher de vida fácil¿
- Quero cantar fora da bacia, Nena. No rádio.
- Aqui nós cantamos ou pra atrair a chuva ou pra espantar o Diabo, filha.
Jurubeba recolheu a bolsa que levava sempre para o ribeirão e retirou duas presilhas douradas. Começou a fazer uma trança com a ponta dos cabelos.
- Sabe Nena, minha avó sempre dizia que a graça da desgraça é o seu repente. Como uma chuva dessas de quebrar teto. Quem movimenta o mundo são os demônios porque Deus é sempre misericordioso.
- Sua avó era mulher amarga, Juru. Eu a conhecia como ninguém.
- Eu queria me apaixonar, Nena.
- Você é nova. Um dia aprende que isso é mais do que castigo – virou-se para Jurubeba e sorriu – Já tem um pretendente¿
- Sim, o dono do circo. Anda a me fazer gracejos.
- Ele poderia ser seu pai, toma juízo.
Prendeu a primeira trança com a presilha e começou a cantarolar.
- Eu poderia ter nascido um passarinho.
- Sua aluada. Pois eu não saberia o que fazer com duas asas.
- Poderia voar, Nena.
- Ou cair na boca de um gavião.
- Você sentiria saudades de mim, prima¿
- Está pensando em fugir, Jurubeba¿
- Ele me convidou para ser bailarina.
- O parrudo que se pinta de palhaço¿
- Ele mesmo.
- E você sabe dançar¿
- Não, mas aprendo. Tenho até o fim do mês, depois o circo parte para a Capital.
- Nessa sua cabeça de minhoca nem a barba do profeta faz cócegas. Deus lhe ilumine.
- Vou pra casa minha barriga dói.
- Toma aquela efusão que eu te ensinei. Se for bicho sara logo.
- Vai ficar aí¿
- Até não sobrar uma mancha nessa roupa.
Jurubeba torceu o vestido mais uma vez e calçou as sandálias. Com a bolsa a tira-colo ainda olhou para trás e sorriu para Nena, prima-irmã de sua mãe, dizendo:
- Se eu tiver uma filha vou pôr o seu nome.
- E se for menino¿
- Vai ter o nome do pai.
***
- Estou mais morta do que viva, por isso enterrem-me sob folhas secas e perfumadas, batam palmas, mas não derramem uma lágrima – dizia a velha. E a lenda que corria no ribeirão era que Deus havia se apiedado daquele ser miúdo e desdentado, e esquecido de marcar a sua hora.
Centenária e desbocada, Jurubeba não teve filhos. Era conhecida como Dona Alminha, a Bruxa, a Velha do Ribeirão. Quando uma criança cometia uma prenda seus pais sempre diziam:
- Eu vou chamar Jurubeba! – e todas corriam para debaixo do lençol.
***
- Nena – conversava a velha com o retrato da defunta – se eu tivesse tido uma filha ela teria o seu nome.
As folhas do cajueiro sopravam rindo de seus óvarios murchos.
- Mas se fosse menino teria o nome do pai.
Muito forte isso daqui
boa literatura!
Lu, eu odeio crico, mas gosto muito dessa história. é mesmo forte, intensa, como tudo que vc tem escrito. seus textos são deliciosamente perturbadores.