Luigi Piccolo

Arquivo de Maio, 2009

Jurubeba.

In Uncategorized on Maio 26, 2009 at 12:36 pm

Old-woman

Ela se sentou cansada sobre a pedra espumada e levou os braços até a testa, enxugando o suor que escorria sobre o rosto. As outras riram de sua indisposição.

- Porque parou, mulher¿

Estou cansada dessa vida, Nena – e torceu a barra do vestido – Não posso passar o resto da vida sovando roupa na pedra.

- Alguns nascem para isso, Juru – Nena estendia o lençol sobre os galhos de um cajueiro – Para lavar a roupa suja dos outros. E ainda reclamam se tudo não ficar um brinco.

-  Pois um dia vou embora sem deixar rastro.

- Você sabe o que acontece com uma bonitinha feito você na cidade grande – Olhou com repreensão – Quer ser mulher de vida fácil¿

- Quero cantar fora da bacia, Nena. No rádio.

- Aqui nós cantamos ou pra atrair a chuva ou pra espantar o Diabo, filha.

Jurubeba recolheu a bolsa que levava sempre para o ribeirão e retirou duas presilhas douradas. Começou a fazer uma trança com a ponta dos cabelos.

- Sabe Nena, minha avó sempre dizia que a graça da desgraça é o seu repente. Como uma chuva dessas de quebrar teto. Quem movimenta o mundo são os demônios porque Deus é sempre misericordioso.

- Sua avó era mulher amarga, Juru. Eu a conhecia como ninguém.

- Eu queria me apaixonar, Nena.

- Você é nova. Um dia aprende que isso é mais do que castigo – virou-se para Jurubeba e sorriu – Já tem um pretendente¿

- Sim, o dono do circo. Anda a me fazer gracejos.

- Ele poderia ser seu pai, toma juízo.

Prendeu a primeira trança com a presilha e começou a cantarolar.

- Eu poderia ter nascido um passarinho.

- Sua aluada. Pois eu não saberia o que fazer com duas asas.

- Poderia voar, Nena.

- Ou cair na boca de um gavião.

- Você sentiria saudades de mim, prima¿

- Está pensando em fugir, Jurubeba¿

- Ele me convidou para ser bailarina.

- O parrudo que se pinta de palhaço¿

- Ele mesmo.

- E você sabe dançar¿

- Não, mas aprendo. Tenho até o fim do mês, depois o circo parte para a Capital.

- Nessa sua cabeça de minhoca nem a barba do profeta faz cócegas. Deus lhe ilumine.

- Vou pra casa minha barriga dói.

- Toma aquela efusão que eu te ensinei. Se for bicho sara logo.

- Vai ficar aí¿

- Até não sobrar uma mancha nessa roupa.

Jurubeba torceu o vestido mais uma vez e calçou as sandálias. Com a bolsa a tira-colo ainda olhou para trás e sorriu para Nena, prima-irmã de sua mãe, dizendo:

- Se eu tiver uma filha vou pôr o seu nome.

- E se for menino¿

- Vai ter o nome do pai.

***

- Estou mais morta do que viva, por isso enterrem-me sob folhas secas e perfumadas, batam palmas, mas não derramem uma lágrima – dizia a velha. E a lenda que corria no ribeirão era que Deus havia se apiedado daquele ser miúdo e desdentado, e esquecido de marcar a sua hora.

Centenária e desbocada, Jurubeba não teve filhos. Era conhecida como Dona Alminha, a Bruxa, a Velha do Ribeirão. Quando uma criança cometia uma prenda seus pais sempre diziam:

- Eu vou chamar Jurubeba! – e todas corriam para debaixo do lençol.

***

- Nena – conversava a velha com o retrato da defunta – se eu tivesse tido uma filha ela teria o seu nome.

As folhas do cajueiro sopravam rindo de seus óvarios murchos.

- Mas se fosse menino teria o nome do pai.

Breu.

In Uncategorized on Maio 21, 2009 at 11:50 am

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Vou a pé a cidade de Aluz, a última cidade habitada antes do pólo norte. O inverno mal começou e as únicas luzes que brilham são as luzes do norte – a aurora rabiscada na abóboda celeste. Com o meu compasso vou anotando as coordenadas até chegar na cidadela, toda construída em vidro multicolorido.

- O vidro não é um bom isolante térmico – falei ao guarda que protegia a primeira torre de vigília.

- Essa é uma cidade esquecida pela luz, estrangeiro, por isso a transparência.

Vejo vultos; em uma das casas alguém tira as calças e senta em uma privada. Em outra uma mulher seminua recusa as carícias de um homem alto. Os vitrais não permitem que aquelas sombras assumam alguma definição – logo não sei se era um homem, se estava a acariciá-la, se alguém sentou em uma privada. As paredes contavam histórias, falavam um dialeto estranho, e o estrangeiro despreparado ou perdia tempo para interpretá-las ou, cauteloso, fechava os olhos e tateava até a estalagem mais próxima.

Em Aluz nenhum segredo sobrevivia, as paredes reverberavam cochichos e conversas de pé de ouvido. Se alguém amava a filha do prefeito, logo estavam todos prevenidos antes da primeira serenata. Por isso as empresas que mais prosperavam na pequena cidade eram o correio e a funerária, responsáveis por entregar as cartas de porta em porta e por enterrar os mortos com discrição. Mas cartas podem ser abertas e túmulos profanados, pensei.

Em Aluz, onde o sol só batia durante três meses, não se podia mentir nem tampouco confiar na verdade. O viajante que quisesse lá permanecer não deveria nunca questionar um morador sobre os seus rumos. Um cartaz na estalagem surpreendia os turistas ao dizer SORRIA. Não era um convite, era uma recomendação.

Dali partiria para o pólo onde seria o primeiro homem a fincar a bandeira do meu país no ponto mais extremo da Terra. Andara léguas com o meu compasso, agora além do calor me faltava um objetivo maior que me fizesse voltar a minha nação – que não o de mostrar aos meus compatriotas a foto que iria tirar da nossa bandeira flamulando junto a nações amigas e inimigas.

Talvez voltasse a Aluz e lá construísse minha própria casa de vidro.

Monólogo.

In Uncategorized on Maio 14, 2009 at 1:38 pm

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[Na cena um banco e um copo d’água. Ele se senta, cruza as pernas e acende um cigarro. Levanta o dedo como quem pede licença para falar, logo depois o enfia na orelha direita]

- Não é sobre o que eu quero sentir, entendem? Eu já sinto muito, por mim, por você, por todos aqui sentado. Não é uma busca, vocês podem perceber que não há cenário, não há antagonista, coadjuvantes, a luz se precipita apenas sobre mim.

[Apaga o cigarro e enfia o outro dedo na orelha esquerda]

- Trata-se somente do que eu quero ouvir. Que existe relação entre o não dito e o que se quis dizer. Complicado?

[Com os ouvidos tapados se levanta da cadeira e, tambores tocando, agarra o copo d’água com os cotovelos]

- Olha o que eu sou capaz de fazer!

[Leva o copo d’água até a boca, mas não consegue engoli-la. Rosto e camisa empapados. Alguém ri na platéia, mas a grande maioria faz silêncio]

- Isso sim é complicado!

[A produção traz uma toalha, ele se limpa e a coloca sobre os ombros]

- Complicado é ser honesto sem parecer careta!

[Coloca as duas mãos sobre o banco e planta bananeira]

- Por exemplo, se eu dissesse que eu não queria estar em nenhum outro lugar se não ao seu lado, isso soaria piegas. Vocês já ouviram isso em algum lugar.

[Cai no chão]

- Ai. Complicada é a lei da gravidade.

[Levanta-se e começa a bater palmas]

- É ser óbvio sem cair no ridículo.

[O público começa a aplaudir, uma minoria permanece calada. Ele põe as duas mãos na boca e sussurra]

- É dizer a verdade.

[Faz touca com a toalha, imitando um adivinho]

- É prever o futuro.

[Senta-se novamente, coloca as mãos sobre as pernas e faz silêncio. Depois de cinco minutos começa uma vaia]

- É pagar por esse espetáculo.

[E sai de cena]

Diálogo.

In Uncategorized on Maio 13, 2009 at 10:51 pm

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Pensei em pôr aqui uma frase de Clarice, mas tive medo de sepultá-la como uma unanimidade. Antes de morrer, porém, ela me apontou com aquela mão calejada pelo fogo e me interrogou.

- Sei que nunca leu um livro meu até o fim. E você sabe que escrever, mesmo que qualquer bobagem, é vender a alma aos poucos. O que lhe tira o sono?

- Não sei, como toda criança talvez o medo. Ainda anseio por uma coisa sem nome, embora ele esteja na ponta da língua.

- Medo de parecer honesto ou medo de ser honestamente louco?

- Qual a diferença? Ambos são paralisantes!

- Deixe a palavra morrer em paz e siga vivendo. Diga sim, sempre.

- Se assim fizesse uma hora estaria me violentando.

- Isso porque você ainda acredita que você vale à pena. Não perca tempo.

- Para onde vão as pessoas depois que elas morrem?

- Não sei. Eu virei poeira em seus livros.

- Ainda assim todos lhe amam.

- Porque verso como uma bruxa. Trato a letra com muita mandinga. Em vida nunca fiz questão de ser compreendida.

- Agora que está morta…

- Não posso processar quem abusa dos meus textos. Fazem mal-uso deles, tratam tudo como uma grande revelação, não há nada de original nem no sofrimento nem no gozo. Nem na falta.

- Pensei em usar algumas palavras suas para traduzir o que ando a sentir.

- Não seria o primeiro.

- Mas prefiro ser clichê ao meu modo.

- Não será o último.

Ainda passei o dedo sobre a capa de Perto do Coração Selvagem; pensei em folheá-lo e roubar um trecho avulso, qualquer um. Queria selar assim um pacto com a palavra. Eu abriria mão da autoria, de qualquer verdade inventada, e em troca venderia a alma dela, de Clarice, já carcomida pela vida, mas nunca, nunca esquecida.

Desculpa ou O Conto da Ilha de Abre-Olhos.

In Uncategorized on Maio 12, 2009 at 2:46 am

sombra

Fomos a cavalo, eu e a minha sombra, até o Porto onde sabíamos existir um barco a nossa espera. Nele uma caveira encapuzada recomendava que os viajantes engolissem uma moeda antes de embarcar. “Vai saber se vão chegar”, dizia com sua voz cadavérica.

No caminho um vapor suforoso que emanava do lago me deixou nauseado; a ponto de ver tudo dobrado. Eram duas as caveiras e elas brincavam com suas foices como quem joga maculelê em noite de festa. De repente um barulho, “estou cega”, disse a vizinha gorda e um homem atrás pulou de alegria, “eu também, só enxergo o que quero”.

Com a sombra grudada nos pés vi ao longe as sete ilhas vulcânicas, cada uma tinha um nome, esquecidos em algum registro da Capitania. Juntas formavam Abre-olhos, a terra onde “era impossível se enxergar um palmo a frente e que, ironia a parte, todos queriam chegar”. Diziam haver nela toda sorte de fruto, uma espécie de vaca que dava leite três vezes ao dia, as mais belas mulheres, os homens mais corajosos, o último dos tesouros enterrados e uma cidade para a qual todos os dias viramos as costas – e que, natimorta, nunca mais fora encontrada.

“Aqui paramos, quem quiser segue a nado”, disse a caveira. Pus as minhas botas na água e tapei as narinas, dando um salto de invejar golfinho. Com um dos braços puxei a água caudalosa, com o outro certifiquei-me se carregava a mochila nas costas. A minha sombra sumira, deixando-me a ver navios – dois e agora eram quatro encapuzados me desejando boa sorte.

As horas passavam e Abre-olhos crescia. Um ponto luminoso podia ser visto na ponta esquerda da primeira ilha, seriam necessárias mais umas mil braçadas até que eu conseguisse pisar na terra prometida. Vultos tomavam a água escura, pensei se não eram feras devoradoras de marinheiros preparando o bote, mas a minha sombra voltara, refletida a luz da lua, me lembrando que eu era mais osso do que carne – um petisco intragável.

Já ía alta a lua quando pisei na areia pedregosa e avistei uma vila. “Aqui só se entra pedindo desculpas”, dizia uma placa. Gritei bem alto “desculpa” e um homem manco veio me recepcionar de braços abertos. Levou-me para casa e me ofereceu uma toalha -  era cego dos dois olhos. “Quero morar aqui por alguns tempos”, disse, “ouvi falar que aqui as pessoas morrem mais tarde do que em qualquer outra parte do mundo”. “Eu não sei o que é a velhice, nunca a vi, só a sinto nas costelas”, riu o bom homem.

Deixou que eu ficasse apenas cinco dias, no sexto deveria partir e só voltar quando aprendesse a pedir perdão, palavra que até então não conhecia. Acendi um vela grande, que contava uma semana, e verifiquei que a minha sombra ainda estava lá, amarrada sob as minhas botas, hora diminuindo, hora crescendo – e isso me encheu de alegria.

Minha primeira noite em Abre-olhos passou tranquila. Logo que acordei percebi que a minha sombra saíra para passear e me deixara só em casa com aquele homem que, agora, estava a cozinhar batatas. Ofereci-lhe ajuda mas ele, como bom anfitrião, recusou. Fui então até a praia, puxei meu caderno de notas e comecei a escrever uma poesia.

Eram as mais doces palavras de amor por aquelas ilhas negras; seria o meu hino e um presente para aquele homem que insistia que eu aprendesse a pedir perdão, ou não me dava o sexto dia. Quando terminei de escrever vi uma vaca feia e descarnada se aproximar da casa. O sol levantara sobre as montanhas e a minha sombra resolvera sentar-se ao meu lado. “O poema se chama Desculpa”, eu disse. Ela pareceu gostar pois se aproximara das minhas pernas como se quisesse ouvir um bocadinho mais daquele hino. “E começa assim…”

Romântico.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 1:01 pm
Por Pedro Fernandes

Por Pedro Fernandes

Comentário em Desenha-me um Carneiro:

“O bom é que antes de descer para o estômago ela dá uma voltinha no coração”

***

“Bem, eu não tenho certeza, é coisa minha, como lhe dizer, acho que estou..”

“As palavras…”

“O que tem elas?”

“Perdem o encantamento muito rápido”

Moderno.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 11:54 am

mondrian

VERMELHO

“Eu vejo uma grade”, me disse.

“Eu vejo três cores básicas  impedidas de se misturarem”

“Não estamos falando sobre a mesma coisa, impedimento?”

“Acho que ele queria falar sobre simetria, nós é que estamos no caminho errado”

***

AMARELO

“Ontem estive com outra pessoa”

***

AZUL

“Porque você é tão calado?”. Aproximou-se e tirou um cílio que escapara, colocou sobre o dedo e falou “vem”.

“Porque tenho medo de parecer clichê quando estou do seu lado” e apertei com firmeza o meu dedão sobre aquele dedo pequeno.

“Você venceu”, me disse, “vai desejar o que?”.

Equação.

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 7:26 pm
"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

Posto o problema, e dada meia hora para solucioná-lo, comecei a rabiscar com o meu lápis laranja as possíveis fórmulas para se chegar a resposta. Eu sabia que era um número de 1 a 10, mas o exercício tinha muitas letras, números e variáveis.

Cocei o cocuruto e olhei para o relógio, ainda faltavam vinte minutos. Crianças brincavam do lado de fora, escorregavam, giravam, gritavam – uma delas tirou uma maçã da lancheira e tascou-lhe uma mordida.

Suando, bati com a ponta do lápis na mesa. Faltavam cinco minutos quando entreguei a prova nas mãos do professor.

***

Resolvi que todo problema matemático poderia ser transformado em uma pergunta boba e rabiscava “Como vai você¿”, “O dia está chuvoso, não¿”, “Você já foi ao banheiro hoje¿”, “Quantas vezes você sente vontade de me ver ao dia¿” ou “Você já leu aquele livro¿”.

Respondi: N vezes elevado a infinito. E saí sorrindo para os meus colegas de sala.

Amor (VI).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 6:35 pm

pai2

“Posso dormir aqui com você”, eu perguntei. Os calafrios tinham voltado, meio tonto procurei o lugar da cama, vazio, e enfiei o meu rosto entre o colchão e a cabeceira. Embora eu tremesse fazia muito calor.

Fechei os olhos e senti um dedo coçar a minha orelha, “Boa noite filhote”.

***

“Você tem seu lar, eu não entendo”, ele estava manso.

“É aqui que eu vou ficar hoje”, respondi.

(O rabino havia roubado a gravata, o padre seduzira um menino, o pastor matara uma criança, a sereia era a prova de um sacríficio, jesus morrera na cruz, o Adonai ainda não chegara. Nessas circunstâncias, como dormir tranquilo¿)

***
Eu fiz aquela posição e cumprimentei o Fùhrer. Ele me olhou irritado, queria me xingar, queria me ver no espeto, então abriu a boca e me chamou de… “Do contra!”… E correu com o carro.

***

“De quanto você precisa”. “Do suficiente para voltar para casa”.

Amor (V).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 12:44 pm

“Você vem”, me perguntou. E eu fui.

***

“Eu preciso ir”

Amor (IV).

In Uncategorized on Maio 7, 2009 at 2:07 pm

mae2

“Eu nunca mais quero lhe ver chorando desse jeito”, ela disse, “eu não criei um filho para isso”. Foi carinhosa, ao seu modo, cobrando apenas que eu tentasse descansar e refletir – nunca, nunca impediu um movimento meu.

(Aquele colosso ainda estava sendo construído, ela me pegou pela mão e me fez andar por entre as alamedas. Eu chorava como um bebê separado do seu brinquedo)

***

“Não arredo o pé”.

A carne trêmula, “eu não quero você aqui”.

“Se não for eu quem vai ser”, me perguntou.

***

“Mãe”, “o que foi”, “as vezes eu queria voltar para o útero”, e rimos juntos.

“Você não cabe mais aqui dentro”.

(Quando estou sozinho continuo a dormir todo coberto, dos pés a cabeça, e em posição fetal. É tudo tão morno e de onde olho, até a outra ponta do lençol, brinco de faz de conta em um mundo particular)

***

“Estou com sono”, eu falei. E ela me ensinou um segredo.

No segundo andar do colosso compramos um perfume com cheiro de bebê, “vamos fazer alquimia”, e um frasco de alfazema. Eu falei, “tenho água de flor de laranjeira”, “vamos dividir”. Misturamos tudo aquilo e, como nos filmes, a fórmula mudou de cor. “Agora vamos comprar chocolate, para te dar energia, e alguns cremes para essa sua pele, você precisa se cuidar”, e pela primeira vez, em duas semanas, dormi no horário certo. Como uma criança encantada.

(segredo: borrife a fórmula mágica sobre os travesseiros e o lençol)

***

“Me perdoe”. “Isso eu aprendi com você”.

Amor (III).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:28 pm

luigi-lingua

“Eu preciso dormir”, eu disse. E fez-se silêncio.

(As fotografias recortadas que davam o tom da novela, as promessas tortas, narrativa de muitos personagens. Um universo laborioso, tóxico, etéreo. “Como é perigosa essa sensação de abraçar o mundo”, alguém me disse, “e depois ter que fazer o contorno de novo”. Esse dia eu o deixei extinguir e aprendi a chamar por telefone de novo)

“Mas nós vamos ficar sozinhas aqui”, me disse a secretária de mesa. “Eu volto na hora do almoço e para fechar a urna, mas me deixem ir” e não houve objeção.

***

“Eu não consigo dormir”, eu disse. E levantei a cabeça, nauseado.

( “Não carregue nas costas o peso do mundo, não culpe seus ancestrais, não culpe sua família”, me disse uma mulher aflita)

Encontro uma amiga no térreo, “tem um palhaço argentino na praça aqui ao lado”, eu tirei meu adesivo de presidente e a segui. As mãos tremiam e eu tentava cerrar os punhos. Consegui passar cinco minutos olhando para aquele nariz de tomate, senti vontade de vomitar – era a criatura mais pavorosa da terra.

***

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

***

“Seus pais estiveram aqui mês passado, porque só decidiu vir agora”, ela me perguntou. “Porque só agora percebi que há algo de errado comigo”, eu respondi. “Depois de um ano e meio”, ela riu e tentou me acalmar, explicou que eu não estava doente, mas que minha ansiedade (que se tornara um tédio profundo) estava me prejudicando. “Veja como você balança as pernas”, ela apontou, e eu só queria chorar porque percebi, de súbito, que tinha pernas e elas tinham dedos e unhas.

Amor (II).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:38 am

nini

“Viemos lhe visitar”, ela me disse. Os cabelos cheiravam a uma lavanda especial, como se apenas uma tivesse sido fabricada e ali, segredada entre seus fios, fosse evaporando rumo ao vento. “Quanto tempo, meu amigo”, ele me abraçou.

Sentamos em frente ao mar. Aquela coisa, da qual eu fazia segredo, ainda me assombrava – logo que sentei visgou pela minha medula, descendo gelada como se me lambesse a coluna. “Vou morrer”, eu pensei.

“Você está bem”, ela perguntou. Eu queria dizer não, mas então disse “sim”. E ela olhou para ele e depois para mim, “faz alguns meses que chegamos, você sumiu”. “Vou morrer”, suspirei e depois acendi um cigarro, “está tudo bem”. Nunca guardei uma carta, uma foto, em toda minha vida; Mas estava aprendendo a me despedir de pessoas e coisas, “está tudo bem”, e aprendendo a mentir – aquela coisa voltara, gelada, por trás da minha cabeça, “está tudo bem”.

“Se você estiver mentindo para nós, não tem perdão”, ela falou depois da décima tentativa de me arrancar alguma informação. E eu amei tudo o que não tivemos, sua infância, sua vida no interior, sua delicadeza. Ela me virou o olho, “eu preciso ir embora”, pensei, e o que eu mais amava nele era o silêncio sem censura – porque era um jovem em meio a pessoas mais velhas, não aprendera a repreender.

“Bom ver vocês”. “Você tem certeza”, questionaram.

“Está tudo bem”

Amor.

In Uncategorized on Maio 5, 2009 at 11:38 pm

lara

“Eu vou ficar aqui com você, vem, deita no meu colo”, ela me disse.

Eu ali deitado na grama, em frente a um hotel cinco estrelas. Você passou a mão no meu cabelo e falou “Eu te amo, meu amigo, vai dormir na minha casa” e eu lhe neguei e ao mundo inteiro.

“Minha mãe mandou vocês aqui”, perguntei, você me olhou chorosa e ela me disse “precisamos de você” e, por um momento, pensei que estávamos brincando de novo de esconde-esconde – e você me encontrava na casa do jardim e falava bem alto “agora é a sua vez de nos procurar”.

lua

Desarranjo.

In Uncategorized on Maio 4, 2009 at 11:53 pm

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(2004) Memória do Ventos Alísios, antigo blog

Mal contando vinte anos dei para escrever asneiras, de cima para baixo e de baixo para cima. Tudo ainda era doce e fácil quando mantido em segredo. Se houvesse reciprocidade não haveriam essas linhas estreitas. Fui me construindo na falta e fazendo dela uma vaga alegria, ainda que duvidassem

eu amei…