Luigi Piccolo

Arquivo de Abril, 2009

Psicossomático.

In Uncategorized on Abril 30, 2009 at 3:06 pm

soma

“Diarréia, Dor de Cabeça, Sonolência, Barriga Vazia, Unha roída”

Ontem senti como se você passasse a mão por trás da minha orelha e puxasse bem de leve os meus cabelos. Então tudo ficou gelado e os pêlos do meu braço levantaram e eu os vi, escuros. Depois senti uma ânsia estranha, um embrulho, e pensei que você fosse jorrar da minha boca, quente, como um conjunto de palavras indevidas. Eu ía lhe contar um segredo, mas você morreu antes, quando juntavamos cacarecos e fazíamos um mosaico. Uma janela de ônibus, incenso, vinte cigarros, hidrocores, esmalte ainda fresco, um quarto escuro, um diário… No dia em que você morreu eu esqueci o meu nome, me chamavam de mãe, pai, filho… Com as vistas turvas ainda consegui escrever “eu não sei porque” em um papel com cheiro de laranja doce. Queria que você renascesse entre as minhas juntas, numa dor aguda, e eu pudesse beijar a ponta dos meus dedos e fazer dez pedidos. Que isso me curasse de mim, de você, de nós, de todo o mais. Em vão…

(Receitaram-me duas pílulas brancas e uma rosa. Quando as tomo, como mágica, relembro o meu nome. Eu ainda não sei porque, então lhe vejo em pé, vivo, em uma série de fotografias)

A sorte.

In Uncategorized on Abril 24, 2009 at 12:01 am

tarot

Que havia um metódo indolor, ele me disse, mas que nunca se deveria brincar de esquecer. Se quisesse realmente tirar esse peso da minha vida então que levasse a sério aquela mandinga, É batata, é batata. Havia três passos iniciais, Matéria morta, um pedaço da sua cutícula, um fio de cabelo, uma cusparada bem dada em um copo virgem. Tudo isso seria rezado. Perguntei se o material a ser recolhido era meu ou do finado.

Não trabalhamos com magia negra e sim com simpatias, essa é para melhorar sua auto-estima. Não vê, vocês vem aqui sempre me pedindo pra amarrar, para soltar, para jogar as cartas, para solucionar mistérios. Fui com a sua cara, vejo que está a sofrer em vão, é bonita e singela, então serei bastante honesto. Não há solução, eu moro nesse cafofo, faço isso para pagar minhas contas, no fundo eu vendo auto-estima, entende¿ É como uma terapia só que o cliente sempre sai satisfeito, o passado já foi dito, o presente está abarrotado de promessas e o futuro a Deus pertence, como sempre, mas ninguém precisa saber disso. Não chore, não chore.

Porque deveria cuspir em um copo virgem¿ Ora, prefere cortar os pulsos¿ Prefiro acabar logo com isso. Mas já está acabado e não lhe cobrarei nada. Mas você não fez nada. Passei uma hora lhe ouvindo, lhe entreguei um segredo místico, agora ande… Mas… Pegue seu dinheiro, compre algo bonito, um perfume, a cidade é grande, a cada esquina lhe cai um pensamento logo não haverá mais o que esquecer… Estarei só… Estará com os anjos, minha flor… Só… Com os seus, como no dia em que nascemos e no dia em que iremos morrer… Só… Não chore… E se tivesse cuspido em um copo virgem¿… Então meu aluguel estaria garantido e você saíria dessa porta como entrou… Talvez eu saísse daqui mais tranquila… Talvez sim, talvez não… Não me deu a chance de ser crédula como as outras… Quem mandou ter o rostinho tão bonito¿ Agora ande, ande, respire fundo, já disse que não lhe cobrarei pela consulta… Posso lhe deixar um pedaço de unha e uns fios de cabelo… O que farei com isso¿… Não sei, magia, eu preciso acreditar em alguma coisa… Mulher!… Em qualquer coisa… Então acredita no tempo… No que perdi¿… Sim, minha flor, e no porvir… Não entendo… Tem coisas que só que entendemos quando batemos a porta… Quanto te devo¿… Nada… Quero pagar!… Deixa uma nota sob aquela vela… Beija-me a face demoradamente e me diz, Você é nobre, uma princesa, agora vá e não se esqueça de bater a porta com força, bastante força…

Cowboy.

In Uncategorized on Abril 19, 2009 at 2:07 pm

cowboy1

Então, onde ponho minhas botas¿ Não sei se as tiro em sua frente ou se as esqueço debaixo da cama.

É a sua hora de entrar em cena, com um cavalo de pau e uma pistola metálica, persegue um indío até um desfiladeiro de isopor e papel-metro. Leve-me ao seu líder. O indío invoca seus deuses em uma língua estranha e se joga para o abismo, deixando você – que não é herói, tampouco vilão – boquiaberto. Ainda não levara a moça sequestrada para casa, a promessa que a traria antes do verão não seria cumprida, os indíos se moviam rápido pelo deserto de pedra e sal.

Eu entro em cena com o meu cavalo de pau e um laço de cânhamo na mão, pergunto onde está o malfeitor. Você me solta um palavrão e pergunta porque demorei tanto. Estou correndo ao meu tempo, explico. Ele se foi, você desce do cavalo, ele se jogou e perdemos a pista. Você é um ator mais bonito mas eu sou mais experiente, tiro o meu chapéu e o coloco sobre o peito falando, Não merecia essa sorte o pobre. Alguém derrama sinceramente uma lágrima na platéia.

Então, onde ponho minhas botas¿ Deixe-as secar perto do fogo ou espere chegarmos na taverna. Nós saímos de cena, entra uma atriz gorda e ansiosa que interpreta a dona do Salão.

Porque repete sempre essa fala quando não sabe mais improvisar, você me pergunta no camarim. Que fala¿ As botas, onde vai guardá-las, etc. Já se perguntou porque isso aflige tanto o seu cowboy¿ Não sei, vi antes em um filme ruim. E onde ele finalmente colocava as botas¿ Ele as esquecia debaixo da cama. Engraçado, o que seria de um cowboy sem suas botas¿ Não só isso, o que seria do cowboy sem indíos, malfeitores, xerifes, belas damas e um companheiro de aventuras¿ Têmos de voltar, coloque as botas e não se esqueça, você só as perde quando esquecer uma fala. De baixo da cama¿ Não, perto da fogueira.

Um flecha rasga o meu peito, você me agarra em seus braços e grita “Não”. O sangue molha a camisa e eu então sorrio, de improviso pergunto, onde ponho minhas botas. Ator inexperiente mas bastante estudioso você não sabe o que responder, procura a fogueira e não a encontra. Tiros e flechas cortam o cenário, você tem que ser mais rápido. Onde-eu-ponho… minhas botas¿ Onde… eu ponho… minhas botas¿

Onde… eu…¿