Luigi Piccolo

Arquivo de Março, 2009

Texto infantil.

In Uncategorized on Março 13, 2009 at 4:17 pm

Começo essa estória explicando que esse não é um conto comum para crianças. Não haverão princesas e vilões, monstros e fadas, mas sim um desafio. E todo desafio começa com uma pergunta cabeluda, dessas que fazem a gente coçar a orelha e espremer os olhos nos perguntando “mas o que é isso?”.

O João não sabia o que era uma Fábula. A professora tentou explicar que as fábulas eram pequenas estórias onde os personagens são normalmente animais com características humanas – eles falam, cantam, dançam, andam, como nós – e que sempre no final havia uma lição de moral.

O joão chegou em casa e olhou para o seu gato, o Malhado, e esperou cinco minutos para vero se ele esboçava alguma reação que lhe lembrasse seus colegas de escola, seus primos e amigos do bairro, mas a única coisa que conseguiu foi um carinho nas pernas que lhe lembrou muito os cafunés inesperados que levava da avó.

Confuso perguntou para a professora se a história do sapo que virava um príncipe no final era uma Fábula e ela lhe explicou que não. Nesse caso ser um sapo era um castigo e se tornar o príncipe a solução de todos os problemas. Nas Fábulas animais eram sempre animais só que conversam como nós e cometiam erros como nós. João não conhecia nenhum príncipe e detestava sapos, mas gostava do gato Malhado e pensou talvez que se o imitasse soubesse por onde começar a entender uma Fábula.

No outro dia chegou cedo à aula e quando a professora o chamou, João se levantou, pegou a mão da professora com calma e esfregou seu nariz entre seus dedos. A professora ficou vermelha como um tomate, abriu um pequeno livro que ela chamava de caça-palavras (um dicionário) e pediu para que o João lêsse em voz alta o significado da palavra “Imaginação”.

“Sem essa palavrinha mágica não há fábula, João”.

É essa a lição da estória, professora? – perguntou ele.

Não, esse é o desafio antes de ler qualquer livro – respondeu a professora.

Liberdade.

In Uncategorized on Março 6, 2009 at 11:38 pm

Enrolava o dedo nos cabelos sintéticos da boneca caolha, vez em quando o colocando na boca, chupando-o nervosamente como se fosse estranho ao seu próprio corpo. Camomila doce, morno ao toque dos lábios, sugava o sangue até a ponta da unha miúda e deixava-o voltar as veias, o ventinho batendo no molhado da saliva. Hoje, nem o vestido de cetim, presente da avó, nem o dedinho gordinho lhe deixava sossegada, gritava aos berros deixando as visitas constrangidas, o pai e a mãe desesperados, Desfaz as tranças dessa menina. Odiava aqueles dois pedaços de cabelo trançados, preferia a morte, dizia para a babá, essa fazia mesmo assim, aos beliscões, porque menina usava trança e quem criava a crina solta era a égua selvagem. Meias nem pensar, preferia o bicho de pé, as unhas enegrecidas com a lama do chiqueiro. Essa menina não tem jeito, a mãe chorava para o padre. O pai ouvia dos amigos que ela parecia um rapazote, Logo vai nascer o bigode, pagava a conta e chegava em casa, deprimido, a garota matando mosquitos e caçando ‘dinossauros’. A tia adorava, ria com as histórias da pequena, Conta a da mulinha apaixonada, desatava a cantar e relinchar como um potro selvagem, a mãe toda lastimosa. Resolveram então mandá-la para um convento, Liberdade venha cá, hoje você vai arrumar suas malas e colocar sua melhor roupa. A meninota gemendo, Não quero ir, a babá choramingando fazendo as tranças da menina e colocando as meias nos pezinhos. Botou a mala pesada no fundo do carro, a mãe abraçou e Liberdade não deu um piu, o pai lhe apertou as bochechas Liberdade fez que não viu. Correu então para dentro de casa, catou a boneca caolha escondida sob a cama e deu adeus ao último dinossauro da sua infância, uma lagartixa perneta que, apavorada, sumiu entre as molas e o colchão. Liberdade, liberdade, chegou a sua hora, desceu as escadas respirando com calma e quando na porta abriu um sorriso e bateu as asas até o banco dos fundos do automóvel. A mãe estendendo o braço, despedindo-se da filha, Era necessária o corretivo, consolava o pai. Liberdade, gritavam algumas crianças na rua pelo seu nome, já a uma certa distância de casa. Não se despediu, nesse exato momento destrançava os cabelos sintéticos da boneca caolha – as asinhas amarradas com uma meia felpuda e a mosquinha na janela pedindo para ser caçada.

Memória do Ventos Alísios

Prefaciando uma não-dedicatória

In Uncategorized on Março 1, 2009 at 4:59 pm

Não lhe dedico esse poema, amarga-doçura, porque como podes ver, salvo o excesso de adjetivos e outros estardalhaços estilísticos, não se respeita aqui à métrica e a rítmica do coração; antes sim, violentasse cada sílaba e expressão no intuito de engrandecê-la diante dos seus ouvidos invisíveis, tocando-lhe não mais na epiderme da alma, mas sim em pontos delicados, no mais sensível dos seios, da tua inconsciência.

Não irei dedicar-lhe nada, nem um “a”, nem um “o”, porque as escrevo sempre com o eu-fluído, derramando-me aos poucos numa profusão letal de palavras que vai me desatando, sem nunca alcançar uma verdade que me satisfaça – mas sempre lhe deixando saciada, amarga-doçura, pois cada gota da minha seiva articulada entre consoantes, apetece-lhe como o vinho mais saboroso.

Aprenda que nem tudo o que tem alvo é dedicatória, e nem toda dedicatória busca um alvo especifico – às vezes, só o que se quer é derrubar as paredes no olho do furacão e vê até onde pode chegar palavras rebeldes que almejam enlaçar alguém em seu descuido, e só depois então, devorar-lhe com toda a devoção.

Memória do Ventos Alísios