Luigi Piccolo

Arquivo de Fevereiro, 2009

Das cartas e sua cerimônia.

In Uncategorized on Fevereiro 24, 2009 at 12:11 pm

300px-french_suitssvg(Toda resistência é pouca quando tudo o que se quer é não resistir)

Ao fim, Da guerra – brindaram as duas senhoras e seus consortes, no que então a de longo negro, com o naipe de espadas bordado em prata no peito, ofereceu a mão à segunda mulher, uma rechonchuda senhora de cabelos escuros e naipe de copas enfeitando a capa vermelha, um grande coração recheado de pérolas rosadas; essa aceitou com um ar de desdém, logo depois olhou furiosa para o Mestre de Cerimônias, anunciando baixinho que, Isso não fazia parte do cerimonial, e crispando os dentes de raiva.

Sentaram as duas em seus respectivos tronos, num alto tablado, onde podiam assistir a cerimônia de entrega das armas, última parte do processo de paz entre os dois reinos. Soldados de ambos os lados jogavam suas lanças no chão e se abraçavam em sinal de respeito e amizade. Queimem tudo – anunciou o Mestre de Cerimônias, quando então trouxeram a mistura efervescente de gordura de vaga-lume e álcool-aquarela, jogando-a sobre o pequeno monte de armas que ali se formava. Foram oferecidos dois fósforos dourados as rainhas, que então se levantaram para dar inicio ao ritual de destruição das armas. Olhou a rainha para o Mestre de Cerimônias e depois para o fósforo da rainha de espadas, Certificou-se que o meu é menor do que o dela?, Sim Majestade, e dizia isso em meio a pernas bambas e outros tremeliques. Um tanto melhor para você, terminou a prosa em tom profético, como se o sucesso da empreitada tivesse alguma relação com o pescoço que dava sustentação à cabeça do bom homem.

Pois quando acendeu o fósforo, queimou em azul o da rainha de espadas, expelindo pequeninas estrelas cadentes e arrancando aplausos de ambos os exércitos. A rainha de copas não escondeu a insatisfação, bufou alto, e todos ficaram quietos respeitando o seu momento no ritual. Levantou o pequeno fósforo com toda a pompa, fazendo círculos enquanto não chegava à pequena esteira, aonde iria riscá-lo. Cantou o hino da sua nação, sendo acompanhada pelos seus e quando chegou à hora, foi com toda a força, como se decepasse com as próprias mãos algum dos seus desafetos… Ouviu-se um barulho de espanto, no que ao abrir um olho, verificou a dama que o seu palito havia partido ao meio. A face queimando num vermelho que se confundia com a capa que lhe dava autoridade, Foi um fracasso, gritou em voz alta, batendo com força o pé no tablado, rugindo como um tigre feroz. Aonde? Aonde foi parar?, procurou com os olhos o Mestre de Cerimônias, Apareça seu duende manco!, apertava o pescoço do consorte, o apagado rei de copas. A rainha de espadas não conteve um risinho, escondido delicadamente atrás das mãos, e resolveu interferir em favor do pequeno homem, Acho que não há razão alguma para castigá-lo!, poderíamos reiniciar a cerimônia, para mim não há problemas!, apagou com um sopro a chama azul que ardia na ponto do fósforo. Por acaso está insinuando que a culpa é minha? Que fui eu a culpada por tamanho fracasso? Logo se vê que não entende nada de cerimonial e Mestres de Cerimônias!, desceu do trono, pomposa, e gritou, Na certa é um complô, apontou para a rainha de espadas, perdendo toda a compostura, Um complô?, levantou-se indignada a dama de negro, Ora, ora, minha senhora, deveria tomar cuidado com a língua, essa parece ferver mais do que o seu humor exaltado! Num acesso de raiva a rainha de copas atirou-se contra as armas, depositadas no chão, apontando uma lança afiada em direção a outra senhora dos naipes, Pois tu devias era tomar cuidado com a defesa das suas cidades e palácios, Essa guerra termina agora quando começa a outra, Vão todos para casa!, insultada a senhora de espadas aceitou a proposta e no furor do momento gritou, Tens apenas um mês de reinado, aproveita!, e retirou-se com seu exercito para fora das terras dos de copas.

Sentou-se no trono, Tragam a taça de vinho, no que o rei lhe trousse cheia, rodeada de uvas e morangos. E quando acharem o velho, Me vejam só a cabeça, o resto empalem do lado de fora do castelo que é para o exercito de espadas perceber que não se brinca com uma dama, principalmente uma dama de vermelho, e abriu o leque em gargalhadas, enquanto rabiscava a melhor estratégia para se chegar à cabeça da rainha de espadas, sem perder a classe e a compostura.

Memória do Ventos Alísios

Virtuose.

In Uncategorized on Fevereiro 23, 2009 at 4:08 pm

Virtuose. No sentido pejorativo, é aquele que tem, em arte, habilidade meramente malabarística, destituída de sentimento, probidade interpretativa, etc. A exemplo do quadro moderno (três traços negros verticais, quatro traços vermelhos horizontais, dispostos uns sobre os outros paralelamente), cujo autor diz significar o emaranhado urbano e ideológico em que vivemos atualmente. Para a moça ao meu lado, apenas traços. Assim como para a senhora de vistas cansadas que via tudo dobrado, como um tecido em xadrez.

***

Eu conheço uma jovem malabarista. Sempre espero o momento em que ela joga os malabares para o alto e dá uma cambalhota; faz isso sorridente e cheia de emoção. Hoje a moça ao meu lado ri para a colega e diz: Você viu a cara que ela faz?… Parece que está gozando!

***

Já a palavra ‘virtuoso’ é um adjetivo, ou seja, qualifica o nome. Ela possui dois sentidos: indica aquele ‘que tem virtudes’ ou ‘aquele que é eficaz, que produz efeito’. As palavras podem não ter sentido se passarmos os olhos sobre elas com total impaciência. Ou mesmo se passarmos os nossos olhos sobre elas e não os olhos d’alma. Porque todo o sentido está na palavra sentida. E não importa muito se ela tem um significado próprio, toda e qualquer interpretação é eficaz e necessária. A virtude da palavra está no cabelo arrepiado da sua nuca e na maneira como ela lhe toca; como uma vizinha trocando de roupa com a janela aberta.

Memória do Ventos Alísios

Mexilhões e Saudades

In Uncategorized on Fevereiro 21, 2009 at 3:17 pm

A saudade presa na garrafa o mar trouxe, com cheiro de lembrança e marisco – meu pai está preparando uma paella na cozinha – e ela é miúda, eu sei, me esforço para ouvi-la no fundo da concha, um barulhinho de água salgada chegando aos nossos pés e nós dois correndo, inocentes, das águas-vivas – o arroz não está tão amarelado, falta açafrão, mas meu pai diz que está tudo nos conformes, eu então vou acreditar – lembrar é antes percorrer com a garrafa, sargaço e tempestades marinhas, do que destampá-la e ler as mensagens do passado. Guardo-lhe em movimento, na memória, para não lhe perder quando piscar os olhos – as panelas fazem tim-lim-tim e o cheirinho de ostra e outros bichinhos do mar já assaltam o ambiente, é tão bom com um vinho tinto – Deixei minha criança dormindo pra fugir com você pela janela do quarto. Descobrir o mundo e fazer das tuas asas a chave da minha prisão. E agora fico aqui remoendo imagens amareladas e me alimentando de “até mais ver”, pois quando fugi esqueci o caminho de casa e me perdi das suas mãos – Na mesa os pratos em seus devidos lugares, os talheres alinhados, à vista pro mar e todo mundo se preparando, mãos lavadas, ta na hora, ta na hora – Se um dia couber essa mensagem entre os livros e os troféus que guarda na sua estante, me avisa, que a envio de bom grado, com cheirinho de lavanda e um trevo de quatro folhas, pois quero assaltar o destino e abusar da sorte dos seus dias – Olá, não perguntei, que insensato, quer se sentar e almoçar comigo?

Memória dos Ventos Alísios

Vem, que lá se vai à tarde!

In Uncategorized on Fevereiro 19, 2009 at 6:03 pm

Já eram quatro as horas, passadas entre as folhas secas que piruetavam no chão, como crianças a girar em roda, e as sombras movediças que o sol tratava de deslocar quando assim ia se deitando sobre o horizonte. Quando?, enxugou a testa com um pano bordado, pequenas margaridas, e o guardou na bolsa grande ao lado do estojo de maquiagem. Ansiosa passava a mão na pequena imagem, o Santinho, que trazia sempre ao peito, um homenzinho de marfim segurando o cristo-rei ainda muito bebê. De um lado para o outro a cabeça, as mãos num esfregar nervoso, o esmalte já espantado na ponta das unhas, Nada!, e cantarolava um salmo que talvez servisse, apelidado de Arrasta-tempo. Sentou-se no banco novamente, perdera as contas de quantas vezes, e cruzando as pernas ficou a balançar os pés alguns minutinhos, quando o telefone móvel tocou, Alô, alô!, era engano, soltou um palavra suja no que respondeu com um tapinha na boca, Perdão, e alisou o santinho.

Quando a fome começou a apertar e os rins a doer, iniciou um cântico, Esse não falha!, Esse não falha!, mas as tripas se enrolavam, faziam barulho, as pernas se apertavam como se pudessem barrar um rio, fazendo força, Ai meu bom senhor, suava frio. Pegou o pano na bolsa, o suor molhando a camisa de seda, muito fina, enxugou o rosto, os braços, Toda borrada!, olhou no espelhinho do batom, Que faço senhor?, o telefone vibrando na bolsa, Alô, alô, e do outro lado uma voz perguntando por um certo alguém, Se enganou, desligou, Me enganei!, guardou o aparelho e conteve as lágrimas, o soluço preso na garganta, o coração chocho, o último suspiro antes de levantar.

Quando partiu, as folhas lá continuavam, motivadas como crianças em gangorra balançadas pelo vento do fim da tarde, subiam delicadas e desciam como plumas, nem deram adeus; não foram educadas para respeitar a tristeza dos homens, não davam os pêsames, apenas sorriam desavergonhadas enquanto a noite não vinha.

Memória do Ventos Alísios