Luigi Piccolo

Arquivo de Janeiro, 2009

Horizonte.

In Uncategorized on Janeiro 22, 2009 at 12:44 pm

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Alí

—————- todo lugar-lugar algum

Aqui

Eis que de súbito, na densa massa escura da madrugada, reconheceu-se o mundo em dois planos paralelos que, obedecendo às regras matinais, caminharam do tímido azul espacial à cor invisível que define todas as coisas.

No horizonte, a mais perfeita das retas desenhadas à mão livre, misturaram-se mar e nuvens e tudo aquilo que os olhos não podiam – e ainda não podem – alcançar. Era ali que o celeste do céu evaporava-se nas profundezas do vácuo e onde morava também todo e qualquer tipo de besta devoradora de marinheiros.

No céu dançava um astro solitário, escondido, vez sim, vez não, sob vinte véus brancos; enquanto treinava cada pirueta de seus raios solares. Logo abaixo, o mar e todas as pedras que bóiam sobre ele davam vida a uma série de bailarinos coadjuvantes; criaturas coloridas e de uma graciosidade nunca antes vistas por essas bandas.

E num piscar de olhos ía célere o tempo deleitado. Ao fechar das cortinas, novamente se dissolveria a cor definidora em um misterioso caldo escuro repicado de brilhantes, e nada mais seria – somente os malandros sobreviveriam a um mundo de pálpebras fechadas.

Onde eu estava.

In Uncategorized on Janeiro 10, 2009 at 2:19 pm

Na pior fase eu abria uma página de jornal e relacionava o aumento da inflação a um aumento de demanda pela minha pessoa. E o pré-sal com páginas obscuras sobre o meu passado que estavam sendo analisadas meticulosamente por especialistas em Deus sabe lá o que, que iriam usar meus parcos vinte e quatro anos de idade contra mim. Os desfiles de moda sempre tinham relação com a minha possível união com criaturas estranhas e de alta estirpe. As músicas estavam relacionadas a uma grande descoberta sobre mim ainda não revelada. Eu era a própria revelação, um ego em chamas. Meu corpo doía, sentia as veias pulsando, uma febre leve que me consumia nos primeiros meses. Enquanto isso me alimentava de perigosas ilusões na internet, eram amantes, encontros com líderes mundiais, segredos expostos nas entre-linhas, um colapso nervoso a espreita. Tudo tinha relação com um castelo de cartas que eu ía montando, cartas marcadas, personagens que se destacavam, outros que íam caindo com o tempo, uma trama que ía se enredando. Envolvia princípes, chefes de estado, músicos famosos, discos recém-lançados, desenhos animados, e um código que perpassava toda a indústria cultural, feito de letras e palavras, que facilitavam a compreensão do mundo em que eu estava entrando.

Passei um ano construindo a trama e me desligando de tudo o que diz respeito a realidade, fugindo para um mundo literalmente virtual em que a promessa de alguma conclusão me movia, mas nunca se concluía nada, sempre surgia um fato novo, uma nova afeição, até o dia fatídico em que dormi as 14 horas e só acordei de madrugada, o mundo que havia criado sumira, as cartas desabaram, o preço do feijão não tinha necessariamente a ver com uma conspiração silenciosa, a perseguição acabara e eu mais uma vez havia deixado de lado a minha faculdade, os meus amigos, a minha família, tudo de ponta a cabeça. A razão veio como uma sonolência, a realidade era um tédio abrupto, o meu mundo caíra, só me restava um travesseiro e um relógio a fazer barulhinhos que me doíam os nervos. Saio de um vazio entrando em uma sala ampla, cheia de espaços, onde percebo que há muito a ser reconstruído, revigorado, revivido, sempre com um pé depois do outro, lentamente. A paranóia se fora, deixando uma carcaça vazia que precisava de novos estímulos para se revigorar. Se não tivesse uma família atenta, talvez sumisse entre novas ilusões, sempre atrasando um processo de amadurecimento que mais dia, menos dia teria de ocorrer. Um pé depois o outro, um pé depois o outro…

2009.

In Uncategorized on Janeiro 7, 2009 at 11:19 am

Sentados na beira da praia esperamos junto a massa de gente a chegada do ano novo. As pessoas se ajeitam como podem na areia, trazendo toalhas, delimitando seus espaços, cantando alto, até que de repente começam a contar: cada um faz uma contagem em separado, a sua própria virada de ano. Garrafas estouram e liberam o vapor gasoso preso dentro delas. Alguns malandros aproveitam para dar um banho nos turistas, além de molhar seus familiares com a champagne. Quando uma relva de fogos estouram no horizonte, já se sabe que o ano entrou e que é preciso fazer certos rituais na praia para comemorar a sua chegada. Sigo com minha mãe para o mar, primeiro pedindo uma permissão de entrada na água e logo depois molhando os pés. Ao meu lado um grupo de amigos pulam sete ondas, nós rimos juntos, eu e a minha mãe, mas cada um faz respeita um ritual próprio. Eu peço coisas em silêncio, deixando pequenas marolas bater nos meus calcanhares. Molho a mão com água e passo na testa; é ano de oxossi, vou com uma camisa escrita Salve Jorge, vermelha sangue e molho a testa invocando a força do santo. As pessoas tomam seu rumo, ainda vejo a minha mãe de braços abertos e olhos fechados recebendo o ano novo, emanando uma leve luz – reflexo das estrelas em seu vestido amarelo. Fogos ainda estouram sobre nossos ouvidos, quando decidimos partir da praia de volta para casa. Dever cumprido, a passagem se deu sem a sonolência, sem o vapor do álcool, sem grandes problemas, seguindo o ritmo das gentes que brincam na beira do mar, seguindo o estouro dos fogos, seguindo os pés molhados na areia e as flores oferecidas a Iemanjá e o retorno do povo para os seus particulares. Faço retorno com a imagem da minha mãe guardada na mente, tranquila; é como filho dela que findo o ano, é mais filho ainda que desperto para 2009.

***

A sonolência anda vencida pelo auto-controle, o tédio não me perturba tanto, a culpa e a idade são assuntos para mais tarde. A uma série de hábitos ruins que desenvolvi para não adiantar-me em meu processo de cura, um deles é reclamar do tempo. Mas se tem uma coisa em que estar diante de um processo de reintegração trás são visões neutras de um todo em andamento. Despertei da sonolência para os cuidados familiares mais básicos, sou antes de tudo um ente familiar. É na família, pela família, por causa da família que alcancei um estado diferenciado no processo de amadurecimento. Sou minha mãe e meu pai, estou estacionado diante deles, mas revigorado entre meus problemas. Quero de mim tanta coisa mas tenho pouca força, preguiça mesmo de ser algo mais do que filho de meus pais. É por aí que começo minha aprendizagem, é como um rosto familiar ao da minha mãe, como um corpo familiar ao do meu pai que entro em 2009.