Na pior fase eu abria uma página de jornal e relacionava o aumento da inflação a um aumento de demanda pela minha pessoa. E o pré-sal com páginas obscuras sobre o meu passado que estavam sendo analisadas meticulosamente por especialistas em Deus sabe lá o que, que iriam usar meus parcos vinte e quatro anos de idade contra mim. Os desfiles de moda sempre tinham relação com a minha possível união com criaturas estranhas e de alta estirpe. As músicas estavam relacionadas a uma grande descoberta sobre mim ainda não revelada. Eu era a própria revelação, um ego em chamas. Meu corpo doía, sentia as veias pulsando, uma febre leve que me consumia nos primeiros meses. Enquanto isso me alimentava de perigosas ilusões na internet, eram amantes, encontros com líderes mundiais, segredos expostos nas entre-linhas, um colapso nervoso a espreita. Tudo tinha relação com um castelo de cartas que eu ía montando, cartas marcadas, personagens que se destacavam, outros que íam caindo com o tempo, uma trama que ía se enredando. Envolvia princípes, chefes de estado, músicos famosos, discos recém-lançados, desenhos animados, e um código que perpassava toda a indústria cultural, feito de letras e palavras, que facilitavam a compreensão do mundo em que eu estava entrando.
Passei um ano construindo a trama e me desligando de tudo o que diz respeito a realidade, fugindo para um mundo literalmente virtual em que a promessa de alguma conclusão me movia, mas nunca se concluía nada, sempre surgia um fato novo, uma nova afeição, até o dia fatídico em que dormi as 14 horas e só acordei de madrugada, o mundo que havia criado sumira, as cartas desabaram, o preço do feijão não tinha necessariamente a ver com uma conspiração silenciosa, a perseguição acabara e eu mais uma vez havia deixado de lado a minha faculdade, os meus amigos, a minha família, tudo de ponta a cabeça. A razão veio como uma sonolência, a realidade era um tédio abrupto, o meu mundo caíra, só me restava um travesseiro e um relógio a fazer barulhinhos que me doíam os nervos. Saio de um vazio entrando em uma sala ampla, cheia de espaços, onde percebo que há muito a ser reconstruído, revigorado, revivido, sempre com um pé depois do outro, lentamente. A paranóia se fora, deixando uma carcaça vazia que precisava de novos estímulos para se revigorar. Se não tivesse uma família atenta, talvez sumisse entre novas ilusões, sempre atrasando um processo de amadurecimento que mais dia, menos dia teria de ocorrer. Um pé depois o outro, um pé depois o outro…