Luigi Piccolo

Arquivo de PM

Dois irmãos.

In Uncategorized on Junho 16, 2009 at 2:58 pm

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A peleja entre os gêmeos Raimundo e Deodoro Paranhos era nacionalmente conhecida. Sua luta encarniçada pelo título de “especialista em tudo o que há” os levaram a um sucesso ressonante: ambos eram editorialistas prestigiados, embora um tivesse por formação a medicina – em uma escola conhecida por instruir as maiores mentes do liberal Partido do Povo – e o outro estudado as leis do país na conservadora e católica Universidade de Todos os Santos. Raimundo escrevia a coluna A Lupa no segundo jornal mais vendido do país: seu grande mérito era destrinchar a vida de celebridades e políticos como um médico legista o faz com um cadáver. Não raro destruía reputações apimentando matérias e opiniões com segredos de alcova. O que lhe salvava a cabeça era a maneira magistral com que lidava com a língua portuguesa – diziam os amigos intelectuais. Fora convidado a ser sócio do jornal tamanho o sucesso de sua escrita entre as classes populares, mas preferiu continuar dividindo a literatura com a clínica geral – era, talvez, o médico mais bem-sucedido da capital.

Ao carola Deodoro cabia a tarefa de expurgar todo e qualquer traço de liberalidade na sua coluna O púlpito, que aos domingos era substituída pelas orações que Dona Marília Paranhos, sua esposa e oradora prodigiosa, concebia com suas amigas da fraternidade Mulheres por Nossa Senhora. Se o irmão trabalhava no jornal conhecido como “jornal do Raimundo”, era Deodoro o colunista mais lido do país. Trabalhava para um influente grupo de comunicação que detinha a maior rede de rádios e televisões da República e isso explicava porque era execrado por progressistas e comunistas, mas adorado pelos conservadores e o admirável contingente de católicos praticantes que se espalhavam por todos os cantos da nação.

Se Raimundo escrevia sobre a boa fase do time de futebol nacional Deodoro fazia ressalvas quanto à escalação do time. Se Deodoro escrevia sobre a retumbante vitória do Partido Conservador nas eleições regionais Raimundo protestava contra as leis que impediam negros e brancos de se sentarem juntos em lugares públicos. Se um herói nacional era prestigiado em O Púlpito certamente A Lupa traria um filho ilegítimo aos holofotes. Não foi uma surpresa quando Raimundo perdeu a cadeira na Academia Nacional de Letras para o irmão. Tampouco foi uma surpresa quando Deodoro tachou de “socialistas”, em sua coluna, os celebres intelectuais que apontavam Raimundo como a melhor opção para a prefeitura da capital. A antítese daquela relação era acompanhada de forma tão entusiasmada que a “guerra dos Paranhos” era, sem dúvida alguma, a novela mais popular do país.

A única pessoa a que ambos respeitavam era a sua mãe, centenária, mas liberal nos costumes. No dia do seu enterro ambos acertaram uma trégua muda, publicando cada um a sua maneira a história daquela mulher – que enviuvara cedo e criara doze filhos. Aquela senhora não viu os dois filhos se cumprimentarem em seu leito de morte, porque um estava a esperar na varanda que o outro se retirasse da casa. Não guardaram luto. Em poucos dias Raimundo estava a protestar contra a péssima estrutura da escola de seu povoado natal, que representava para ele o exemplo de como o Partido Conservador tratava a educação do país na região serrana. Deodoro se contrapôs reafirmando as benesses que o programa de agricultura trouxera aquela região, que produzira um presidente e um membro da Academia Nacional de Letras.

Não causou espanto algum quando, aos 65 anos, Raimundo morreu de uma cirrose devastadora. Seus hábitos pouco saudáveis e seu gosto pelo destilado nacional o levara a ter uma constituição fraca – não raro padecia de desmaios e refluxos diante dos amigos. Mesmo contrariado o Partido Conservador decretou luto por três dias em homenagem aquele homem, que fora reconhecido recentemente por sua luta pelos direitos humanos. A Lupa amanheceu sem o seu colunista e, naquele dia, o “jornal do Raimundo” foi o mais vendido na capital e no interior. Embora as homenagens não cessassem Deodoro não se deu por vencido publicando em O púlpito a sua celebre frase: A bebida faz o homem.

Aos 82 anos de idade foi encontrado morto sobre a sua cama, vitima de um enfarte fulminante. Já havia sido ministro de estado duas vezes e trabalhava incessantemente em um livro, o qual nunca concluiu. Também descontente o Partido do Povo, que chegara ao poder depois de algumas gerações e embalado pela revolução dos costumes na Europa, decretou luto por três dias e ponto facultativo em todas as repartições. Durante três semanas, O púlpito passou a retratar a vida de Deodoro Paranhos e seus principais amigos e familiares dedicaram-lhe as mais honradas palavras. A Lupa calou-se diante da sobriedade com que aquele homem levara a vida, constituindo uma família feliz e sem nenhum filho ilegítimo reclamando o inventário.

O armistício só cessou quando o presidente, liberal e grande admirador de Raimundo Paranhos, não compareceu nem velório e nem ao enterro, consagrado nas tumbas da Academia Nacional de Letras. No outro dia A Lupa fazia menção ao plano nacional de desenvolvimento e O púlpito a falta que fazia ao país a figura de um grande estadista.

O sumiço de Luisa.

In Uncategorized on Junho 15, 2009 at 2:57 pm

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De todas as coisas que Luisa gostava mais de fazer, além das visitas a Tia Gioconda em noites de reza forte, a que mais lhe agradava era bordar sob o céu estrelado de Paúra. A vila fora castigada pelo santo patrono com um clima cáustico que impedia a visita do vento as janelas, mas mantinha o dia e a noite sem a marca de nuvens. Um escritor famoso que nascera em Paúra e de lá fugira em sua rebeldia adolescente dissera que “para as crianças do povoado faltava o essencial, a merenda e a imaginação”. Confessou anos mais tarde que a falta de nuvens era um castigo sobre-humano àquela cidadela: não se podia adivinhar em suas formas nem elefantes e nem coelhos, era uma espécie de sub-nutrição.

Luisa bordava corações nos babados. Aprendera aquele desenho, que em nada se assemelha a anatomia humana, nas cartas de baralho que Tia Gioconda guardava dentro da gaveta, sob o oratório. A senhora de avançada idade sempre dizia que “havia muito o que se aprender na guerra muda do carteado” e Luisa gostava da maneira enigmática com que Gioconda Mastrocola fraseava – sempre levantando o dedo indicador ou depois de baforar a fumaça densa de seu cigarro de palha. Quando a moça não estava bordando se mantinha trancada em seu quarto onde escrevia, sempre em dia santo, uma carta de amor a si mesma. Todas as mulheres de Paúra eram ensimesmadas, dizia o autor fugitivo em entrevista: alimentam-se de amor ou farinha, quando não estão a se alimentar das duas coisas, ao mesmo tempo.

Uma noite deram por falta de Luisa. Gritos de pavor tomaram a velha casa dos Mastrocolas quando perceberam que havia no lençol uma mancha de sangue indistinguível. Pequena e ainda úmida. Convocaram Gioconda a levantar-se da velha cadeira de balanço e dar o seu veredito. A senhora embora muito próxima de Luisa afirmou não saber nenhum segredo que desse fim ao mistério. E era verdade. Gostava mais da pequena pela atenção dedicada do que por seus desvarios românticos; sequer lhe interessava se a moça tinha um pretendente. Olhando a mancha com suas pupilas cansadas, perguntou:

- Já está na idade fértil? – ao que ninguém sabia responder.

Não demorou para a história se espalhar por Paúra a passos demôniacos. Todos conheciam um possível infeliz que tivesse roubado a honra da moça, embora nenhum varão tenha desaparecido da cidade. A desonra dos Mastrocolas era um mistério tão insóluvel que as mulheres da cidade resolveram tomar a partir dali medidas drásticas: toda menina em idade fértil tinha a sua menstruação anunciada com lençois presos as janelas. O pudor era tamanho que as meninas de Paúra passaram a ser chamadas sempre com o nome de suas mães e Luisa se tornou um nome proibido, amaldiçoado. Até hoje, mesmo com a morte do último Mastrocola da cidade, o “dia do vermelho” é comemorado em bailes entusiasmados. Tornou-se uma galhofa entre os homens da vila e uma dor de cabeça entre as mulheres, que escondem os lençois antes que seus maridos os pintem em vermelho para saírem as ruas em um carnaval tenebroso.

Jurubeba.

In Uncategorized on Maio 26, 2009 at 12:36 pm

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Ela se sentou cansada sobre a pedra espumada e levou os braços até a testa, enxugando o suor que escorria sobre o rosto. As outras riram de sua indisposição.

- Porque parou, mulher¿

Estou cansada dessa vida, Nena – e torceu a barra do vestido – Não posso passar o resto da vida sovando roupa na pedra.

- Alguns nascem para isso, Juru – Nena estendia o lençol sobre os galhos de um cajueiro – Para lavar a roupa suja dos outros. E ainda reclamam se tudo não ficar um brinco.

-  Pois um dia vou embora sem deixar rastro.

- Você sabe o que acontece com uma bonitinha feito você na cidade grande – Olhou com repreensão – Quer ser mulher de vida fácil¿

- Quero cantar fora da bacia, Nena. No rádio.

- Aqui nós cantamos ou pra atrair a chuva ou pra espantar o Diabo, filha.

Jurubeba recolheu a bolsa que levava sempre para o ribeirão e retirou duas presilhas douradas. Começou a fazer uma trança com a ponta dos cabelos.

- Sabe Nena, minha avó sempre dizia que a graça da desgraça é o seu repente. Como uma chuva dessas de quebrar teto. Quem movimenta o mundo são os demônios porque Deus é sempre misericordioso.

- Sua avó era mulher amarga, Juru. Eu a conhecia como ninguém.

- Eu queria me apaixonar, Nena.

- Você é nova. Um dia aprende que isso é mais do que castigo – virou-se para Jurubeba e sorriu – Já tem um pretendente¿

- Sim, o dono do circo. Anda a me fazer gracejos.

- Ele poderia ser seu pai, toma juízo.

Prendeu a primeira trança com a presilha e começou a cantarolar.

- Eu poderia ter nascido um passarinho.

- Sua aluada. Pois eu não saberia o que fazer com duas asas.

- Poderia voar, Nena.

- Ou cair na boca de um gavião.

- Você sentiria saudades de mim, prima¿

- Está pensando em fugir, Jurubeba¿

- Ele me convidou para ser bailarina.

- O parrudo que se pinta de palhaço¿

- Ele mesmo.

- E você sabe dançar¿

- Não, mas aprendo. Tenho até o fim do mês, depois o circo parte para a Capital.

- Nessa sua cabeça de minhoca nem a barba do profeta faz cócegas. Deus lhe ilumine.

- Vou pra casa minha barriga dói.

- Toma aquela efusão que eu te ensinei. Se for bicho sara logo.

- Vai ficar aí¿

- Até não sobrar uma mancha nessa roupa.

Jurubeba torceu o vestido mais uma vez e calçou as sandálias. Com a bolsa a tira-colo ainda olhou para trás e sorriu para Nena, prima-irmã de sua mãe, dizendo:

- Se eu tiver uma filha vou pôr o seu nome.

- E se for menino¿

- Vai ter o nome do pai.

***

- Estou mais morta do que viva, por isso enterrem-me sob folhas secas e perfumadas, batam palmas, mas não derramem uma lágrima – dizia a velha. E a lenda que corria no ribeirão era que Deus havia se apiedado daquele ser miúdo e desdentado, e esquecido de marcar a sua hora.

Centenária e desbocada, Jurubeba não teve filhos. Era conhecida como Dona Alminha, a Bruxa, a Velha do Ribeirão. Quando uma criança cometia uma prenda seus pais sempre diziam:

- Eu vou chamar Jurubeba! – e todas corriam para debaixo do lençol.

***

- Nena – conversava a velha com o retrato da defunta – se eu tivesse tido uma filha ela teria o seu nome.

As folhas do cajueiro sopravam rindo de seus óvarios murchos.

- Mas se fosse menino teria o nome do pai.

Breu.

In Uncategorized on Maio 21, 2009 at 11:50 am

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Vou a pé a cidade de Aluz, a última cidade habitada antes do pólo norte. O inverno mal começou e as únicas luzes que brilham são as luzes do norte – a aurora rabiscada na abóboda celeste. Com o meu compasso vou anotando as coordenadas até chegar na cidadela, toda construída em vidro multicolorido.

- O vidro não é um bom isolante térmico – falei ao guarda que protegia a primeira torre de vigília.

- Essa é uma cidade esquecida pela luz, estrangeiro, por isso a transparência.

Vejo vultos; em uma das casas alguém tira as calças e senta em uma privada. Em outra uma mulher seminua recusa as carícias de um homem alto. Os vitrais não permitem que aquelas sombras assumam alguma definição – logo não sei se era um homem, se estava a acariciá-la, se alguém sentou em uma privada. As paredes contavam histórias, falavam um dialeto estranho, e o estrangeiro despreparado ou perdia tempo para interpretá-las ou, cauteloso, fechava os olhos e tateava até a estalagem mais próxima.

Em Aluz nenhum segredo sobrevivia, as paredes reverberavam cochichos e conversas de pé de ouvido. Se alguém amava a filha do prefeito, logo estavam todos prevenidos antes da primeira serenata. Por isso as empresas que mais prosperavam na pequena cidade eram o correio e a funerária, responsáveis por entregar as cartas de porta em porta e por enterrar os mortos com discrição. Mas cartas podem ser abertas e túmulos profanados, pensei.

Em Aluz, onde o sol só batia durante três meses, não se podia mentir nem tampouco confiar na verdade. O viajante que quisesse lá permanecer não deveria nunca questionar um morador sobre os seus rumos. Um cartaz na estalagem surpreendia os turistas ao dizer SORRIA. Não era um convite, era uma recomendação.

Dali partiria para o pólo onde seria o primeiro homem a fincar a bandeira do meu país no ponto mais extremo da Terra. Andara léguas com o meu compasso, agora além do calor me faltava um objetivo maior que me fizesse voltar a minha nação – que não o de mostrar aos meus compatriotas a foto que iria tirar da nossa bandeira flamulando junto a nações amigas e inimigas.

Talvez voltasse a Aluz e lá construísse minha própria casa de vidro.

Monólogo.

In Uncategorized on Maio 14, 2009 at 1:38 pm

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[Na cena um banco e um copo d’água. Ele se senta, cruza as pernas e acende um cigarro. Levanta o dedo como quem pede licença para falar, logo depois o enfia na orelha direita]

- Não é sobre o que eu quero sentir, entendem? Eu já sinto muito, por mim, por você, por todos aqui sentado. Não é uma busca, vocês podem perceber que não há cenário, não há antagonista, coadjuvantes, a luz se precipita apenas sobre mim.

[Apaga o cigarro e enfia o outro dedo na orelha esquerda]

- Trata-se somente do que eu quero ouvir. Que existe relação entre o não dito e o que se quis dizer. Complicado?

[Com os ouvidos tapados se levanta da cadeira e, tambores tocando, agarra o copo d’água com os cotovelos]

- Olha o que eu sou capaz de fazer!

[Leva o copo d’água até a boca, mas não consegue engoli-la. Rosto e camisa empapados. Alguém ri na platéia, mas a grande maioria faz silêncio]

- Isso sim é complicado!

[A produção traz uma toalha, ele se limpa e a coloca sobre os ombros]

- Complicado é ser honesto sem parecer careta!

[Coloca as duas mãos sobre o banco e planta bananeira]

- Por exemplo, se eu dissesse que eu não queria estar em nenhum outro lugar se não ao seu lado, isso soaria piegas. Vocês já ouviram isso em algum lugar.

[Cai no chão]

- Ai. Complicada é a lei da gravidade.

[Levanta-se e começa a bater palmas]

- É ser óbvio sem cair no ridículo.

[O público começa a aplaudir, uma minoria permanece calada. Ele põe as duas mãos na boca e sussurra]

- É dizer a verdade.

[Faz touca com a toalha, imitando um adivinho]

- É prever o futuro.

[Senta-se novamente, coloca as mãos sobre as pernas e faz silêncio. Depois de cinco minutos começa uma vaia]

- É pagar por esse espetáculo.

[E sai de cena]

Diálogo.

In Uncategorized on Maio 13, 2009 at 10:51 pm

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Pensei em pôr aqui uma frase de Clarice, mas tive medo de sepultá-la como uma unanimidade. Antes de morrer, porém, ela me apontou com aquela mão calejada pelo fogo e me interrogou.

- Sei que nunca leu um livro meu até o fim. E você sabe que escrever, mesmo que qualquer bobagem, é vender a alma aos poucos. O que lhe tira o sono?

- Não sei, como toda criança talvez o medo. Ainda anseio por uma coisa sem nome, embora ele esteja na ponta da língua.

- Medo de parecer honesto ou medo de ser honestamente louco?

- Qual a diferença? Ambos são paralisantes!

- Deixe a palavra morrer em paz e siga vivendo. Diga sim, sempre.

- Se assim fizesse uma hora estaria me violentando.

- Isso porque você ainda acredita que você vale à pena. Não perca tempo.

- Para onde vão as pessoas depois que elas morrem?

- Não sei. Eu virei poeira em seus livros.

- Ainda assim todos lhe amam.

- Porque verso como uma bruxa. Trato a letra com muita mandinga. Em vida nunca fiz questão de ser compreendida.

- Agora que está morta…

- Não posso processar quem abusa dos meus textos. Fazem mal-uso deles, tratam tudo como uma grande revelação, não há nada de original nem no sofrimento nem no gozo. Nem na falta.

- Pensei em usar algumas palavras suas para traduzir o que ando a sentir.

- Não seria o primeiro.

- Mas prefiro ser clichê ao meu modo.

- Não será o último.

Ainda passei o dedo sobre a capa de Perto do Coração Selvagem; pensei em folheá-lo e roubar um trecho avulso, qualquer um. Queria selar assim um pacto com a palavra. Eu abriria mão da autoria, de qualquer verdade inventada, e em troca venderia a alma dela, de Clarice, já carcomida pela vida, mas nunca, nunca esquecida.

Desculpa ou O Conto da Ilha de Abre-Olhos.

In Uncategorized on Maio 12, 2009 at 2:46 am

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Fomos a cavalo, eu e a minha sombra, até o Porto onde sabíamos existir um barco a nossa espera. Nele uma caveira encapuzada recomendava que os viajantes engolissem uma moeda antes de embarcar. “Vai saber se vão chegar”, dizia com sua voz cadavérica.

No caminho um vapor suforoso que emanava do lago me deixou nauseado; a ponto de ver tudo dobrado. Eram duas as caveiras e elas brincavam com suas foices como quem joga maculelê em noite de festa. De repente um barulho, “estou cega”, disse a vizinha gorda e um homem atrás pulou de alegria, “eu também, só enxergo o que quero”.

Com a sombra grudada nos pés vi ao longe as sete ilhas vulcânicas, cada uma tinha um nome, esquecidos em algum registro da Capitania. Juntas formavam Abre-olhos, a terra onde “era impossível se enxergar um palmo a frente e que, ironia a parte, todos queriam chegar”. Diziam haver nela toda sorte de fruto, uma espécie de vaca que dava leite três vezes ao dia, as mais belas mulheres, os homens mais corajosos, o último dos tesouros enterrados e uma cidade para a qual todos os dias viramos as costas – e que, natimorta, nunca mais fora encontrada.

“Aqui paramos, quem quiser segue a nado”, disse a caveira. Pus as minhas botas na água e tapei as narinas, dando um salto de invejar golfinho. Com um dos braços puxei a água caudalosa, com o outro certifiquei-me se carregava a mochila nas costas. A minha sombra sumira, deixando-me a ver navios – dois e agora eram quatro encapuzados me desejando boa sorte.

As horas passavam e Abre-olhos crescia. Um ponto luminoso podia ser visto na ponta esquerda da primeira ilha, seriam necessárias mais umas mil braçadas até que eu conseguisse pisar na terra prometida. Vultos tomavam a água escura, pensei se não eram feras devoradoras de marinheiros preparando o bote, mas a minha sombra voltara, refletida a luz da lua, me lembrando que eu era mais osso do que carne – um petisco intragável.

Já ía alta a lua quando pisei na areia pedregosa e avistei uma vila. “Aqui só se entra pedindo desculpas”, dizia uma placa. Gritei bem alto “desculpa” e um homem manco veio me recepcionar de braços abertos. Levou-me para casa e me ofereceu uma toalha -  era cego dos dois olhos. “Quero morar aqui por alguns tempos”, disse, “ouvi falar que aqui as pessoas morrem mais tarde do que em qualquer outra parte do mundo”. “Eu não sei o que é a velhice, nunca a vi, só a sinto nas costelas”, riu o bom homem.

Deixou que eu ficasse apenas cinco dias, no sexto deveria partir e só voltar quando aprendesse a pedir perdão, palavra que até então não conhecia. Acendi um vela grande, que contava uma semana, e verifiquei que a minha sombra ainda estava lá, amarrada sob as minhas botas, hora diminuindo, hora crescendo – e isso me encheu de alegria.

Minha primeira noite em Abre-olhos passou tranquila. Logo que acordei percebi que a minha sombra saíra para passear e me deixara só em casa com aquele homem que, agora, estava a cozinhar batatas. Ofereci-lhe ajuda mas ele, como bom anfitrião, recusou. Fui então até a praia, puxei meu caderno de notas e comecei a escrever uma poesia.

Eram as mais doces palavras de amor por aquelas ilhas negras; seria o meu hino e um presente para aquele homem que insistia que eu aprendesse a pedir perdão, ou não me dava o sexto dia. Quando terminei de escrever vi uma vaca feia e descarnada se aproximar da casa. O sol levantara sobre as montanhas e a minha sombra resolvera sentar-se ao meu lado. “O poema se chama Desculpa”, eu disse. Ela pareceu gostar pois se aproximara das minhas pernas como se quisesse ouvir um bocadinho mais daquele hino. “E começa assim…”

Romântico.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 1:01 pm
Por Pedro Fernandes

Por Pedro Fernandes

Comentário em Desenha-me um Carneiro:

“O bom é que antes de descer para o estômago ela dá uma voltinha no coração”

***

“Bem, eu não tenho certeza, é coisa minha, como lhe dizer, acho que estou..”

“As palavras…”

“O que tem elas?”

“Perdem o encantamento muito rápido”

Moderno.

In Uncategorized on Maio 11, 2009 at 11:54 am

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VERMELHO

“Eu vejo uma grade”, me disse.

“Eu vejo três cores básicas  impedidas de se misturarem”

“Não estamos falando sobre a mesma coisa, impedimento?”

“Acho que ele queria falar sobre simetria, nós é que estamos no caminho errado”

***

AMARELO

“Ontem estive com outra pessoa”

***

AZUL

“Porque você é tão calado?”. Aproximou-se e tirou um cílio que escapara, colocou sobre o dedo e falou “vem”.

“Porque tenho medo de parecer clichê quando estou do seu lado” e apertei com firmeza o meu dedão sobre aquele dedo pequeno.

“Você venceu”, me disse, “vai desejar o que?”.

Equação.

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 7:26 pm
"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

"Listen to your Heart" de Pedro Fernandes

Posto o problema, e dada meia hora para solucioná-lo, comecei a rabiscar com o meu lápis laranja as possíveis fórmulas para se chegar a resposta. Eu sabia que era um número de 1 a 10, mas o exercício tinha muitas letras, números e variáveis.

Cocei o cocuruto e olhei para o relógio, ainda faltavam vinte minutos. Crianças brincavam do lado de fora, escorregavam, giravam, gritavam – uma delas tirou uma maçã da lancheira e tascou-lhe uma mordida.

Suando, bati com a ponta do lápis na mesa. Faltavam cinco minutos quando entreguei a prova nas mãos do professor.

***

Resolvi que todo problema matemático poderia ser transformado em uma pergunta boba e rabiscava “Como vai você¿”, “O dia está chuvoso, não¿”, “Você já foi ao banheiro hoje¿”, “Quantas vezes você sente vontade de me ver ao dia¿” ou “Você já leu aquele livro¿”.

Respondi: N vezes elevado a infinito. E saí sorrindo para os meus colegas de sala.

Amor (VI).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 6:35 pm

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“Posso dormir aqui com você”, eu perguntei. Os calafrios tinham voltado, meio tonto procurei o lugar da cama, vazio, e enfiei o meu rosto entre o colchão e a cabeceira. Embora eu tremesse fazia muito calor.

Fechei os olhos e senti um dedo coçar a minha orelha, “Boa noite filhote”.

***

“Você tem seu lar, eu não entendo”, ele estava manso.

“É aqui que eu vou ficar hoje”, respondi.

(O rabino havia roubado a gravata, o padre seduzira um menino, o pastor matara uma criança, a sereia era a prova de um sacríficio, jesus morrera na cruz, o Adonai ainda não chegara. Nessas circunstâncias, como dormir tranquilo¿)

***
Eu fiz aquela posição e cumprimentei o Fùhrer. Ele me olhou irritado, queria me xingar, queria me ver no espeto, então abriu a boca e me chamou de… “Do contra!”… E correu com o carro.

***

“De quanto você precisa”. “Do suficiente para voltar para casa”.

Amor (V).

In Uncategorized on Maio 8, 2009 at 12:44 pm

“Você vem”, me perguntou. E eu fui.

***

“Eu preciso ir”

Amor (IV).

In Uncategorized on Maio 7, 2009 at 2:07 pm

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“Eu nunca mais quero lhe ver chorando desse jeito”, ela disse, “eu não criei um filho para isso”. Foi carinhosa, ao seu modo, cobrando apenas que eu tentasse descansar e refletir – nunca, nunca impediu um movimento meu.

(Aquele colosso ainda estava sendo construído, ela me pegou pela mão e me fez andar por entre as alamedas. Eu chorava como um bebê separado do seu brinquedo)

***

“Não arredo o pé”.

A carne trêmula, “eu não quero você aqui”.

“Se não for eu quem vai ser”, me perguntou.

***

“Mãe”, “o que foi”, “as vezes eu queria voltar para o útero”, e rimos juntos.

“Você não cabe mais aqui dentro”.

(Quando estou sozinho continuo a dormir todo coberto, dos pés a cabeça, e em posição fetal. É tudo tão morno e de onde olho, até a outra ponta do lençol, brinco de faz de conta em um mundo particular)

***

“Estou com sono”, eu falei. E ela me ensinou um segredo.

No segundo andar do colosso compramos um perfume com cheiro de bebê, “vamos fazer alquimia”, e um frasco de alfazema. Eu falei, “tenho água de flor de laranjeira”, “vamos dividir”. Misturamos tudo aquilo e, como nos filmes, a fórmula mudou de cor. “Agora vamos comprar chocolate, para te dar energia, e alguns cremes para essa sua pele, você precisa se cuidar”, e pela primeira vez, em duas semanas, dormi no horário certo. Como uma criança encantada.

(segredo: borrife a fórmula mágica sobre os travesseiros e o lençol)

***

“Me perdoe”. “Isso eu aprendi com você”.

Amor (III).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:28 pm

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“Eu preciso dormir”, eu disse. E fez-se silêncio.

(As fotografias recortadas que davam o tom da novela, as promessas tortas, narrativa de muitos personagens. Um universo laborioso, tóxico, etéreo. “Como é perigosa essa sensação de abraçar o mundo”, alguém me disse, “e depois ter que fazer o contorno de novo”. Esse dia eu o deixei extinguir e aprendi a chamar por telefone de novo)

“Mas nós vamos ficar sozinhas aqui”, me disse a secretária de mesa. “Eu volto na hora do almoço e para fechar a urna, mas me deixem ir” e não houve objeção.

***

“Eu não consigo dormir”, eu disse. E levantei a cabeça, nauseado.

( “Não carregue nas costas o peso do mundo, não culpe seus ancestrais, não culpe sua família”, me disse uma mulher aflita)

Encontro uma amiga no térreo, “tem um palhaço argentino na praça aqui ao lado”, eu tirei meu adesivo de presidente e a segui. As mãos tremiam e eu tentava cerrar os punhos. Consegui passar cinco minutos olhando para aquele nariz de tomate, senti vontade de vomitar – era a criatura mais pavorosa da terra.

***

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

***

“Seus pais estiveram aqui mês passado, porque só decidiu vir agora”, ela me perguntou. “Porque só agora percebi que há algo de errado comigo”, eu respondi. “Depois de um ano e meio”, ela riu e tentou me acalmar, explicou que eu não estava doente, mas que minha ansiedade (que se tornara um tédio profundo) estava me prejudicando. “Veja como você balança as pernas”, ela apontou, e eu só queria chorar porque percebi, de súbito, que tinha pernas e elas tinham dedos e unhas.

Amor (II).

In Uncategorized on Maio 6, 2009 at 11:38 am

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“Viemos lhe visitar”, ela me disse. Os cabelos cheiravam a uma lavanda especial, como se apenas uma tivesse sido fabricada e ali, segredada entre seus fios, fosse evaporando rumo ao vento. “Quanto tempo, meu amigo”, ele me abraçou.

Sentamos em frente ao mar. Aquela coisa, da qual eu fazia segredo, ainda me assombrava – logo que sentei visgou pela minha medula, descendo gelada como se me lambesse a coluna. “Vou morrer”, eu pensei.

“Você está bem”, ela perguntou. Eu queria dizer não, mas então disse “sim”. E ela olhou para ele e depois para mim, “faz alguns meses que chegamos, você sumiu”. “Vou morrer”, suspirei e depois acendi um cigarro, “está tudo bem”. Nunca guardei uma carta, uma foto, em toda minha vida; Mas estava aprendendo a me despedir de pessoas e coisas, “está tudo bem”, e aprendendo a mentir – aquela coisa voltara, gelada, por trás da minha cabeça, “está tudo bem”.

“Se você estiver mentindo para nós, não tem perdão”, ela falou depois da décima tentativa de me arrancar alguma informação. E eu amei tudo o que não tivemos, sua infância, sua vida no interior, sua delicadeza. Ela me virou o olho, “eu preciso ir embora”, pensei, e o que eu mais amava nele era o silêncio sem censura – porque era um jovem em meio a pessoas mais velhas, não aprendera a repreender.

“Bom ver vocês”. “Você tem certeza”, questionaram.

“Está tudo bem”

Amor.

In Uncategorized on Maio 5, 2009 at 11:38 pm

lara

“Eu vou ficar aqui com você, vem, deita no meu colo”, ela me disse.

Eu ali deitado na grama, em frente a um hotel cinco estrelas. Você passou a mão no meu cabelo e falou “Eu te amo, meu amigo, vai dormir na minha casa” e eu lhe neguei e ao mundo inteiro.

“Minha mãe mandou vocês aqui”, perguntei, você me olhou chorosa e ela me disse “precisamos de você” e, por um momento, pensei que estávamos brincando de novo de esconde-esconde – e você me encontrava na casa do jardim e falava bem alto “agora é a sua vez de nos procurar”.

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Desarranjo.

In Uncategorized on Maio 4, 2009 at 11:53 pm

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(2004) Memória do Ventos Alísios, antigo blog

Mal contando vinte anos dei para escrever asneiras, de cima para baixo e de baixo para cima. Tudo ainda era doce e fácil quando mantido em segredo. Se houvesse reciprocidade não haveriam essas linhas estreitas. Fui me construindo na falta e fazendo dela uma vaga alegria, ainda que duvidassem

eu amei…

Psicossomático.

In Uncategorized on Abril 30, 2009 at 3:06 pm

soma

“Diarréia, Dor de Cabeça, Sonolência, Barriga Vazia, Unha roída”

Ontem senti como se você passasse a mão por trás da minha orelha e puxasse bem de leve os meus cabelos. Então tudo ficou gelado e os pêlos do meu braço levantaram e eu os vi, escuros. Depois senti uma ânsia estranha, um embrulho, e pensei que você fosse jorrar da minha boca, quente, como um conjunto de palavras indevidas. Eu ía lhe contar um segredo, mas você morreu antes, quando juntavamos cacarecos e fazíamos um mosaico. Uma janela de ônibus, incenso, vinte cigarros, hidrocores, esmalte ainda fresco, um quarto escuro, um diário… No dia em que você morreu eu esqueci o meu nome, me chamavam de mãe, pai, filho… Com as vistas turvas ainda consegui escrever “eu não sei porque” em um papel com cheiro de laranja doce. Queria que você renascesse entre as minhas juntas, numa dor aguda, e eu pudesse beijar a ponta dos meus dedos e fazer dez pedidos. Que isso me curasse de mim, de você, de nós, de todo o mais. Em vão…

(Receitaram-me duas pílulas brancas e uma rosa. Quando as tomo, como mágica, relembro o meu nome. Eu ainda não sei porque, então lhe vejo em pé, vivo, em uma série de fotografias)

A sorte.

In Uncategorized on Abril 24, 2009 at 12:01 am

tarot

Que havia um metódo indolor, ele me disse, mas que nunca se deveria brincar de esquecer. Se quisesse realmente tirar esse peso da minha vida então que levasse a sério aquela mandinga, É batata, é batata. Havia três passos iniciais, Matéria morta, um pedaço da sua cutícula, um fio de cabelo, uma cusparada bem dada em um copo virgem. Tudo isso seria rezado. Perguntei se o material a ser recolhido era meu ou do finado.

Não trabalhamos com magia negra e sim com simpatias, essa é para melhorar sua auto-estima. Não vê, vocês vem aqui sempre me pedindo pra amarrar, para soltar, para jogar as cartas, para solucionar mistérios. Fui com a sua cara, vejo que está a sofrer em vão, é bonita e singela, então serei bastante honesto. Não há solução, eu moro nesse cafofo, faço isso para pagar minhas contas, no fundo eu vendo auto-estima, entende¿ É como uma terapia só que o cliente sempre sai satisfeito, o passado já foi dito, o presente está abarrotado de promessas e o futuro a Deus pertence, como sempre, mas ninguém precisa saber disso. Não chore, não chore.

Porque deveria cuspir em um copo virgem¿ Ora, prefere cortar os pulsos¿ Prefiro acabar logo com isso. Mas já está acabado e não lhe cobrarei nada. Mas você não fez nada. Passei uma hora lhe ouvindo, lhe entreguei um segredo místico, agora ande… Mas… Pegue seu dinheiro, compre algo bonito, um perfume, a cidade é grande, a cada esquina lhe cai um pensamento logo não haverá mais o que esquecer… Estarei só… Estará com os anjos, minha flor… Só… Com os seus, como no dia em que nascemos e no dia em que iremos morrer… Só… Não chore… E se tivesse cuspido em um copo virgem¿… Então meu aluguel estaria garantido e você saíria dessa porta como entrou… Talvez eu saísse daqui mais tranquila… Talvez sim, talvez não… Não me deu a chance de ser crédula como as outras… Quem mandou ter o rostinho tão bonito¿ Agora ande, ande, respire fundo, já disse que não lhe cobrarei pela consulta… Posso lhe deixar um pedaço de unha e uns fios de cabelo… O que farei com isso¿… Não sei, magia, eu preciso acreditar em alguma coisa… Mulher!… Em qualquer coisa… Então acredita no tempo… No que perdi¿… Sim, minha flor, e no porvir… Não entendo… Tem coisas que só que entendemos quando batemos a porta… Quanto te devo¿… Nada… Quero pagar!… Deixa uma nota sob aquela vela… Beija-me a face demoradamente e me diz, Você é nobre, uma princesa, agora vá e não se esqueça de bater a porta com força, bastante força…

Cowboy.

In Uncategorized on Abril 19, 2009 at 2:07 pm

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Então, onde ponho minhas botas¿ Não sei se as tiro em sua frente ou se as esqueço debaixo da cama.

É a sua hora de entrar em cena, com um cavalo de pau e uma pistola metálica, persegue um indío até um desfiladeiro de isopor e papel-metro. Leve-me ao seu líder. O indío invoca seus deuses em uma língua estranha e se joga para o abismo, deixando você – que não é herói, tampouco vilão – boquiaberto. Ainda não levara a moça sequestrada para casa, a promessa que a traria antes do verão não seria cumprida, os indíos se moviam rápido pelo deserto de pedra e sal.

Eu entro em cena com o meu cavalo de pau e um laço de cânhamo na mão, pergunto onde está o malfeitor. Você me solta um palavrão e pergunta porque demorei tanto. Estou correndo ao meu tempo, explico. Ele se foi, você desce do cavalo, ele se jogou e perdemos a pista. Você é um ator mais bonito mas eu sou mais experiente, tiro o meu chapéu e o coloco sobre o peito falando, Não merecia essa sorte o pobre. Alguém derrama sinceramente uma lágrima na platéia.

Então, onde ponho minhas botas¿ Deixe-as secar perto do fogo ou espere chegarmos na taverna. Nós saímos de cena, entra uma atriz gorda e ansiosa que interpreta a dona do Salão.

Porque repete sempre essa fala quando não sabe mais improvisar, você me pergunta no camarim. Que fala¿ As botas, onde vai guardá-las, etc. Já se perguntou porque isso aflige tanto o seu cowboy¿ Não sei, vi antes em um filme ruim. E onde ele finalmente colocava as botas¿ Ele as esquecia debaixo da cama. Engraçado, o que seria de um cowboy sem suas botas¿ Não só isso, o que seria do cowboy sem indíos, malfeitores, xerifes, belas damas e um companheiro de aventuras¿ Têmos de voltar, coloque as botas e não se esqueça, você só as perde quando esquecer uma fala. De baixo da cama¿ Não, perto da fogueira.

Um flecha rasga o meu peito, você me agarra em seus braços e grita “Não”. O sangue molha a camisa e eu então sorrio, de improviso pergunto, onde ponho minhas botas. Ator inexperiente mas bastante estudioso você não sabe o que responder, procura a fogueira e não a encontra. Tiros e flechas cortam o cenário, você tem que ser mais rápido. Onde-eu-ponho… minhas botas¿ Onde… eu ponho… minhas botas¿

Onde… eu…¿

Texto infantil.

In Uncategorized on Março 13, 2009 at 4:17 pm

Começo essa estória explicando que esse não é um conto comum para crianças. Não haverão princesas e vilões, monstros e fadas, mas sim um desafio. E todo desafio começa com uma pergunta cabeluda, dessas que fazem a gente coçar a orelha e espremer os olhos nos perguntando “mas o que é isso?”.

O João não sabia o que era uma Fábula. A professora tentou explicar que as fábulas eram pequenas estórias onde os personagens são normalmente animais com características humanas – eles falam, cantam, dançam, andam, como nós – e que sempre no final havia uma lição de moral.

O joão chegou em casa e olhou para o seu gato, o Malhado, e esperou cinco minutos para vero se ele esboçava alguma reação que lhe lembrasse seus colegas de escola, seus primos e amigos do bairro, mas a única coisa que conseguiu foi um carinho nas pernas que lhe lembrou muito os cafunés inesperados que levava da avó.

Confuso perguntou para a professora se a história do sapo que virava um príncipe no final era uma Fábula e ela lhe explicou que não. Nesse caso ser um sapo era um castigo e se tornar o príncipe a solução de todos os problemas. Nas Fábulas animais eram sempre animais só que conversam como nós e cometiam erros como nós. João não conhecia nenhum príncipe e detestava sapos, mas gostava do gato Malhado e pensou talvez que se o imitasse soubesse por onde começar a entender uma Fábula.

No outro dia chegou cedo à aula e quando a professora o chamou, João se levantou, pegou a mão da professora com calma e esfregou seu nariz entre seus dedos. A professora ficou vermelha como um tomate, abriu um pequeno livro que ela chamava de caça-palavras (um dicionário) e pediu para que o João lêsse em voz alta o significado da palavra “Imaginação”.

“Sem essa palavrinha mágica não há fábula, João”.

É essa a lição da estória, professora? – perguntou ele.

Não, esse é o desafio antes de ler qualquer livro – respondeu a professora.

Liberdade.

In Uncategorized on Março 6, 2009 at 11:38 pm

Enrolava o dedo nos cabelos sintéticos da boneca caolha, vez em quando o colocando na boca, chupando-o nervosamente como se fosse estranho ao seu próprio corpo. Camomila doce, morno ao toque dos lábios, sugava o sangue até a ponta da unha miúda e deixava-o voltar as veias, o ventinho batendo no molhado da saliva. Hoje, nem o vestido de cetim, presente da avó, nem o dedinho gordinho lhe deixava sossegada, gritava aos berros deixando as visitas constrangidas, o pai e a mãe desesperados, Desfaz as tranças dessa menina. Odiava aqueles dois pedaços de cabelo trançados, preferia a morte, dizia para a babá, essa fazia mesmo assim, aos beliscões, porque menina usava trança e quem criava a crina solta era a égua selvagem. Meias nem pensar, preferia o bicho de pé, as unhas enegrecidas com a lama do chiqueiro. Essa menina não tem jeito, a mãe chorava para o padre. O pai ouvia dos amigos que ela parecia um rapazote, Logo vai nascer o bigode, pagava a conta e chegava em casa, deprimido, a garota matando mosquitos e caçando ‘dinossauros’. A tia adorava, ria com as histórias da pequena, Conta a da mulinha apaixonada, desatava a cantar e relinchar como um potro selvagem, a mãe toda lastimosa. Resolveram então mandá-la para um convento, Liberdade venha cá, hoje você vai arrumar suas malas e colocar sua melhor roupa. A meninota gemendo, Não quero ir, a babá choramingando fazendo as tranças da menina e colocando as meias nos pezinhos. Botou a mala pesada no fundo do carro, a mãe abraçou e Liberdade não deu um piu, o pai lhe apertou as bochechas Liberdade fez que não viu. Correu então para dentro de casa, catou a boneca caolha escondida sob a cama e deu adeus ao último dinossauro da sua infância, uma lagartixa perneta que, apavorada, sumiu entre as molas e o colchão. Liberdade, liberdade, chegou a sua hora, desceu as escadas respirando com calma e quando na porta abriu um sorriso e bateu as asas até o banco dos fundos do automóvel. A mãe estendendo o braço, despedindo-se da filha, Era necessária o corretivo, consolava o pai. Liberdade, gritavam algumas crianças na rua pelo seu nome, já a uma certa distância de casa. Não se despediu, nesse exato momento destrançava os cabelos sintéticos da boneca caolha – as asinhas amarradas com uma meia felpuda e a mosquinha na janela pedindo para ser caçada.

Memória do Ventos Alísios

Prefaciando uma não-dedicatória

In Uncategorized on Março 1, 2009 at 4:59 pm

Não lhe dedico esse poema, amarga-doçura, porque como podes ver, salvo o excesso de adjetivos e outros estardalhaços estilísticos, não se respeita aqui à métrica e a rítmica do coração; antes sim, violentasse cada sílaba e expressão no intuito de engrandecê-la diante dos seus ouvidos invisíveis, tocando-lhe não mais na epiderme da alma, mas sim em pontos delicados, no mais sensível dos seios, da tua inconsciência.

Não irei dedicar-lhe nada, nem um “a”, nem um “o”, porque as escrevo sempre com o eu-fluído, derramando-me aos poucos numa profusão letal de palavras que vai me desatando, sem nunca alcançar uma verdade que me satisfaça – mas sempre lhe deixando saciada, amarga-doçura, pois cada gota da minha seiva articulada entre consoantes, apetece-lhe como o vinho mais saboroso.

Aprenda que nem tudo o que tem alvo é dedicatória, e nem toda dedicatória busca um alvo especifico – às vezes, só o que se quer é derrubar as paredes no olho do furacão e vê até onde pode chegar palavras rebeldes que almejam enlaçar alguém em seu descuido, e só depois então, devorar-lhe com toda a devoção.

Memória do Ventos Alísios

Das cartas e sua cerimônia.

In Uncategorized on Fevereiro 24, 2009 at 12:11 pm

300px-french_suitssvg(Toda resistência é pouca quando tudo o que se quer é não resistir)

Ao fim, Da guerra – brindaram as duas senhoras e seus consortes, no que então a de longo negro, com o naipe de espadas bordado em prata no peito, ofereceu a mão à segunda mulher, uma rechonchuda senhora de cabelos escuros e naipe de copas enfeitando a capa vermelha, um grande coração recheado de pérolas rosadas; essa aceitou com um ar de desdém, logo depois olhou furiosa para o Mestre de Cerimônias, anunciando baixinho que, Isso não fazia parte do cerimonial, e crispando os dentes de raiva.

Sentaram as duas em seus respectivos tronos, num alto tablado, onde podiam assistir a cerimônia de entrega das armas, última parte do processo de paz entre os dois reinos. Soldados de ambos os lados jogavam suas lanças no chão e se abraçavam em sinal de respeito e amizade. Queimem tudo – anunciou o Mestre de Cerimônias, quando então trouxeram a mistura efervescente de gordura de vaga-lume e álcool-aquarela, jogando-a sobre o pequeno monte de armas que ali se formava. Foram oferecidos dois fósforos dourados as rainhas, que então se levantaram para dar inicio ao ritual de destruição das armas. Olhou a rainha para o Mestre de Cerimônias e depois para o fósforo da rainha de espadas, Certificou-se que o meu é menor do que o dela?, Sim Majestade, e dizia isso em meio a pernas bambas e outros tremeliques. Um tanto melhor para você, terminou a prosa em tom profético, como se o sucesso da empreitada tivesse alguma relação com o pescoço que dava sustentação à cabeça do bom homem.

Pois quando acendeu o fósforo, queimou em azul o da rainha de espadas, expelindo pequeninas estrelas cadentes e arrancando aplausos de ambos os exércitos. A rainha de copas não escondeu a insatisfação, bufou alto, e todos ficaram quietos respeitando o seu momento no ritual. Levantou o pequeno fósforo com toda a pompa, fazendo círculos enquanto não chegava à pequena esteira, aonde iria riscá-lo. Cantou o hino da sua nação, sendo acompanhada pelos seus e quando chegou à hora, foi com toda a força, como se decepasse com as próprias mãos algum dos seus desafetos… Ouviu-se um barulho de espanto, no que ao abrir um olho, verificou a dama que o seu palito havia partido ao meio. A face queimando num vermelho que se confundia com a capa que lhe dava autoridade, Foi um fracasso, gritou em voz alta, batendo com força o pé no tablado, rugindo como um tigre feroz. Aonde? Aonde foi parar?, procurou com os olhos o Mestre de Cerimônias, Apareça seu duende manco!, apertava o pescoço do consorte, o apagado rei de copas. A rainha de espadas não conteve um risinho, escondido delicadamente atrás das mãos, e resolveu interferir em favor do pequeno homem, Acho que não há razão alguma para castigá-lo!, poderíamos reiniciar a cerimônia, para mim não há problemas!, apagou com um sopro a chama azul que ardia na ponto do fósforo. Por acaso está insinuando que a culpa é minha? Que fui eu a culpada por tamanho fracasso? Logo se vê que não entende nada de cerimonial e Mestres de Cerimônias!, desceu do trono, pomposa, e gritou, Na certa é um complô, apontou para a rainha de espadas, perdendo toda a compostura, Um complô?, levantou-se indignada a dama de negro, Ora, ora, minha senhora, deveria tomar cuidado com a língua, essa parece ferver mais do que o seu humor exaltado! Num acesso de raiva a rainha de copas atirou-se contra as armas, depositadas no chão, apontando uma lança afiada em direção a outra senhora dos naipes, Pois tu devias era tomar cuidado com a defesa das suas cidades e palácios, Essa guerra termina agora quando começa a outra, Vão todos para casa!, insultada a senhora de espadas aceitou a proposta e no furor do momento gritou, Tens apenas um mês de reinado, aproveita!, e retirou-se com seu exercito para fora das terras dos de copas.

Sentou-se no trono, Tragam a taça de vinho, no que o rei lhe trousse cheia, rodeada de uvas e morangos. E quando acharem o velho, Me vejam só a cabeça, o resto empalem do lado de fora do castelo que é para o exercito de espadas perceber que não se brinca com uma dama, principalmente uma dama de vermelho, e abriu o leque em gargalhadas, enquanto rabiscava a melhor estratégia para se chegar à cabeça da rainha de espadas, sem perder a classe e a compostura.

Memória do Ventos Alísios

Virtuose.

In Uncategorized on Fevereiro 23, 2009 at 4:08 pm

Virtuose. No sentido pejorativo, é aquele que tem, em arte, habilidade meramente malabarística, destituída de sentimento, probidade interpretativa, etc. A exemplo do quadro moderno (três traços negros verticais, quatro traços vermelhos horizontais, dispostos uns sobre os outros paralelamente), cujo autor diz significar o emaranhado urbano e ideológico em que vivemos atualmente. Para a moça ao meu lado, apenas traços. Assim como para a senhora de vistas cansadas que via tudo dobrado, como um tecido em xadrez.

***

Eu conheço uma jovem malabarista. Sempre espero o momento em que ela joga os malabares para o alto e dá uma cambalhota; faz isso sorridente e cheia de emoção. Hoje a moça ao meu lado ri para a colega e diz: Você viu a cara que ela faz?… Parece que está gozando!

***

Já a palavra ‘virtuoso’ é um adjetivo, ou seja, qualifica o nome. Ela possui dois sentidos: indica aquele ‘que tem virtudes’ ou ‘aquele que é eficaz, que produz efeito’. As palavras podem não ter sentido se passarmos os olhos sobre elas com total impaciência. Ou mesmo se passarmos os nossos olhos sobre elas e não os olhos d’alma. Porque todo o sentido está na palavra sentida. E não importa muito se ela tem um significado próprio, toda e qualquer interpretação é eficaz e necessária. A virtude da palavra está no cabelo arrepiado da sua nuca e na maneira como ela lhe toca; como uma vizinha trocando de roupa com a janela aberta.

Memória do Ventos Alísios

Mexilhões e Saudades

In Uncategorized on Fevereiro 21, 2009 at 3:17 pm

A saudade presa na garrafa o mar trouxe, com cheiro de lembrança e marisco – meu pai está preparando uma paella na cozinha – e ela é miúda, eu sei, me esforço para ouvi-la no fundo da concha, um barulhinho de água salgada chegando aos nossos pés e nós dois correndo, inocentes, das águas-vivas – o arroz não está tão amarelado, falta açafrão, mas meu pai diz que está tudo nos conformes, eu então vou acreditar – lembrar é antes percorrer com a garrafa, sargaço e tempestades marinhas, do que destampá-la e ler as mensagens do passado. Guardo-lhe em movimento, na memória, para não lhe perder quando piscar os olhos – as panelas fazem tim-lim-tim e o cheirinho de ostra e outros bichinhos do mar já assaltam o ambiente, é tão bom com um vinho tinto – Deixei minha criança dormindo pra fugir com você pela janela do quarto. Descobrir o mundo e fazer das tuas asas a chave da minha prisão. E agora fico aqui remoendo imagens amareladas e me alimentando de “até mais ver”, pois quando fugi esqueci o caminho de casa e me perdi das suas mãos – Na mesa os pratos em seus devidos lugares, os talheres alinhados, à vista pro mar e todo mundo se preparando, mãos lavadas, ta na hora, ta na hora – Se um dia couber essa mensagem entre os livros e os troféus que guarda na sua estante, me avisa, que a envio de bom grado, com cheirinho de lavanda e um trevo de quatro folhas, pois quero assaltar o destino e abusar da sorte dos seus dias – Olá, não perguntei, que insensato, quer se sentar e almoçar comigo?

Memória dos Ventos Alísios

Vem, que lá se vai à tarde!

In Uncategorized on Fevereiro 19, 2009 at 6:03 pm

Já eram quatro as horas, passadas entre as folhas secas que piruetavam no chão, como crianças a girar em roda, e as sombras movediças que o sol tratava de deslocar quando assim ia se deitando sobre o horizonte. Quando?, enxugou a testa com um pano bordado, pequenas margaridas, e o guardou na bolsa grande ao lado do estojo de maquiagem. Ansiosa passava a mão na pequena imagem, o Santinho, que trazia sempre ao peito, um homenzinho de marfim segurando o cristo-rei ainda muito bebê. De um lado para o outro a cabeça, as mãos num esfregar nervoso, o esmalte já espantado na ponta das unhas, Nada!, e cantarolava um salmo que talvez servisse, apelidado de Arrasta-tempo. Sentou-se no banco novamente, perdera as contas de quantas vezes, e cruzando as pernas ficou a balançar os pés alguns minutinhos, quando o telefone móvel tocou, Alô, alô!, era engano, soltou um palavra suja no que respondeu com um tapinha na boca, Perdão, e alisou o santinho.

Quando a fome começou a apertar e os rins a doer, iniciou um cântico, Esse não falha!, Esse não falha!, mas as tripas se enrolavam, faziam barulho, as pernas se apertavam como se pudessem barrar um rio, fazendo força, Ai meu bom senhor, suava frio. Pegou o pano na bolsa, o suor molhando a camisa de seda, muito fina, enxugou o rosto, os braços, Toda borrada!, olhou no espelhinho do batom, Que faço senhor?, o telefone vibrando na bolsa, Alô, alô, e do outro lado uma voz perguntando por um certo alguém, Se enganou, desligou, Me enganei!, guardou o aparelho e conteve as lágrimas, o soluço preso na garganta, o coração chocho, o último suspiro antes de levantar.

Quando partiu, as folhas lá continuavam, motivadas como crianças em gangorra balançadas pelo vento do fim da tarde, subiam delicadas e desciam como plumas, nem deram adeus; não foram educadas para respeitar a tristeza dos homens, não davam os pêsames, apenas sorriam desavergonhadas enquanto a noite não vinha.

Memória do Ventos Alísios

Horizonte.

In Uncategorized on Janeiro 22, 2009 at 12:44 pm

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Alí

—————- todo lugar-lugar algum

Aqui

Eis que de súbito, na densa massa escura da madrugada, reconheceu-se o mundo em dois planos paralelos que, obedecendo às regras matinais, caminharam do tímido azul espacial à cor invisível que define todas as coisas.

No horizonte, a mais perfeita das retas desenhadas à mão livre, misturaram-se mar e nuvens e tudo aquilo que os olhos não podiam – e ainda não podem – alcançar. Era ali que o celeste do céu evaporava-se nas profundezas do vácuo e onde morava também todo e qualquer tipo de besta devoradora de marinheiros.

No céu dançava um astro solitário, escondido, vez sim, vez não, sob vinte véus brancos; enquanto treinava cada pirueta de seus raios solares. Logo abaixo, o mar e todas as pedras que bóiam sobre ele davam vida a uma série de bailarinos coadjuvantes; criaturas coloridas e de uma graciosidade nunca antes vistas por essas bandas.

E num piscar de olhos ía célere o tempo deleitado. Ao fechar das cortinas, novamente se dissolveria a cor definidora em um misterioso caldo escuro repicado de brilhantes, e nada mais seria – somente os malandros sobreviveriam a um mundo de pálpebras fechadas.

Onde eu estava.

In Uncategorized on Janeiro 10, 2009 at 2:19 pm

Na pior fase eu abria uma página de jornal e relacionava o aumento da inflação a um aumento de demanda pela minha pessoa. E o pré-sal com páginas obscuras sobre o meu passado que estavam sendo analisadas meticulosamente por especialistas em Deus sabe lá o que, que iriam usar meus parcos vinte e quatro anos de idade contra mim. Os desfiles de moda sempre tinham relação com a minha possível união com criaturas estranhas e de alta estirpe. As músicas estavam relacionadas a uma grande descoberta sobre mim ainda não revelada. Eu era a própria revelação, um ego em chamas. Meu corpo doía, sentia as veias pulsando, uma febre leve que me consumia nos primeiros meses. Enquanto isso me alimentava de perigosas ilusões na internet, eram amantes, encontros com líderes mundiais, segredos expostos nas entre-linhas, um colapso nervoso a espreita. Tudo tinha relação com um castelo de cartas que eu ía montando, cartas marcadas, personagens que se destacavam, outros que íam caindo com o tempo, uma trama que ía se enredando. Envolvia princípes, chefes de estado, músicos famosos, discos recém-lançados, desenhos animados, e um código que perpassava toda a indústria cultural, feito de letras e palavras, que facilitavam a compreensão do mundo em que eu estava entrando.

Passei um ano construindo a trama e me desligando de tudo o que diz respeito a realidade, fugindo para um mundo literalmente virtual em que a promessa de alguma conclusão me movia, mas nunca se concluía nada, sempre surgia um fato novo, uma nova afeição, até o dia fatídico em que dormi as 14 horas e só acordei de madrugada, o mundo que havia criado sumira, as cartas desabaram, o preço do feijão não tinha necessariamente a ver com uma conspiração silenciosa, a perseguição acabara e eu mais uma vez havia deixado de lado a minha faculdade, os meus amigos, a minha família, tudo de ponta a cabeça. A razão veio como uma sonolência, a realidade era um tédio abrupto, o meu mundo caíra, só me restava um travesseiro e um relógio a fazer barulhinhos que me doíam os nervos. Saio de um vazio entrando em uma sala ampla, cheia de espaços, onde percebo que há muito a ser reconstruído, revigorado, revivido, sempre com um pé depois do outro, lentamente. A paranóia se fora, deixando uma carcaça vazia que precisava de novos estímulos para se revigorar. Se não tivesse uma família atenta, talvez sumisse entre novas ilusões, sempre atrasando um processo de amadurecimento que mais dia, menos dia teria de ocorrer. Um pé depois o outro, um pé depois o outro…

2009.

In Uncategorized on Janeiro 7, 2009 at 11:19 am

Sentados na beira da praia esperamos junto a massa de gente a chegada do ano novo. As pessoas se ajeitam como podem na areia, trazendo toalhas, delimitando seus espaços, cantando alto, até que de repente começam a contar: cada um faz uma contagem em separado, a sua própria virada de ano. Garrafas estouram e liberam o vapor gasoso preso dentro delas. Alguns malandros aproveitam para dar um banho nos turistas, além de molhar seus familiares com a champagne. Quando uma relva de fogos estouram no horizonte, já se sabe que o ano entrou e que é preciso fazer certos rituais na praia para comemorar a sua chegada. Sigo com minha mãe para o mar, primeiro pedindo uma permissão de entrada na água e logo depois molhando os pés. Ao meu lado um grupo de amigos pulam sete ondas, nós rimos juntos, eu e a minha mãe, mas cada um faz respeita um ritual próprio. Eu peço coisas em silêncio, deixando pequenas marolas bater nos meus calcanhares. Molho a mão com água e passo na testa; é ano de oxossi, vou com uma camisa escrita Salve Jorge, vermelha sangue e molho a testa invocando a força do santo. As pessoas tomam seu rumo, ainda vejo a minha mãe de braços abertos e olhos fechados recebendo o ano novo, emanando uma leve luz – reflexo das estrelas em seu vestido amarelo. Fogos ainda estouram sobre nossos ouvidos, quando decidimos partir da praia de volta para casa. Dever cumprido, a passagem se deu sem a sonolência, sem o vapor do álcool, sem grandes problemas, seguindo o ritmo das gentes que brincam na beira do mar, seguindo o estouro dos fogos, seguindo os pés molhados na areia e as flores oferecidas a Iemanjá e o retorno do povo para os seus particulares. Faço retorno com a imagem da minha mãe guardada na mente, tranquila; é como filho dela que findo o ano, é mais filho ainda que desperto para 2009.

***

A sonolência anda vencida pelo auto-controle, o tédio não me perturba tanto, a culpa e a idade são assuntos para mais tarde. A uma série de hábitos ruins que desenvolvi para não adiantar-me em meu processo de cura, um deles é reclamar do tempo. Mas se tem uma coisa em que estar diante de um processo de reintegração trás são visões neutras de um todo em andamento. Despertei da sonolência para os cuidados familiares mais básicos, sou antes de tudo um ente familiar. É na família, pela família, por causa da família que alcancei um estado diferenciado no processo de amadurecimento. Sou minha mãe e meu pai, estou estacionado diante deles, mas revigorado entre meus problemas. Quero de mim tanta coisa mas tenho pouca força, preguiça mesmo de ser algo mais do que filho de meus pais. É por aí que começo minha aprendizagem, é como um rosto familiar ao da minha mãe, como um corpo familiar ao do meu pai que entro em 2009.