Assim quando estourou o primeiro dos fogos eu estava longe, com a cabeça em outra cidade. Fechei os olhos e me transportei para perto de amigos que não estavam ali comigo, mas dividiam o mesmo momento – a passagem de ano. Juntei as palmas das mãos e os saudei, saudei também o ano vindouro, depois de abrir os olhos saudei a minha mãe, dediquei um tempo ainda a molhar os pés na beira do mar e a fazer desejos. Desejei coisas simples, uni-me aquela massa de homens e mulheres e seus rituais e desejos complexos; pedi um ano melhor, que este fosse mais proveitoso, fui atendido na mesma hora com mais estouros de fogos e jubilos de alegria. Era a melhor festa do ano, era também a última.
***
Escrever me toma pouco tempo, ainda assim tenho de pensar sobre como, o momento, o que deve ser escrito, que contrato eu estabeleço com quem me lê, toda uma gama de coisas que parecem muito sérias assim escritas, mas que na verdade estão cobertas de pura galhofa e gratuidade. Já fui melhor sonhando, já fui mais alto escrevendo, já fui tanta coisa esse ano que me bastaria um abraço e uma conversa elaborada, algo que me fizesse generosamente sorrir para me encantar. Ando com as pernas bambas, o cérebro fraco, ainda assim ele dá rodopios e idéias mirabolantes solidificam-se e derretem ao mesmo tempo, logo depois que eu acordo. Como balas engatilhadas, um circo armado, um tiroteio prestes a acontecer. Não fui feliz este ano, também não fui infeliz. Algo se manteve, gavetas trancadas que precisam ser reorganizadas, muita insegurança sobre a capacidade de lidar com a tarefa. Muito trabalho a ser feito.
***
O que fazer quando felicidade se resume a manter pelo máximo de tempo balas de cereja na boca?







