Luigi Piccolo

Arquivo de Dezembro, 2008

Finda o ano.

In Uncategorized on Dezembro 30, 2008 at 12:30 pm

Assim quando estourou o primeiro dos fogos eu estava longe, com a cabeça em outra cidade. Fechei os olhos e me transportei para perto de amigos que não estavam ali comigo, mas dividiam o mesmo momento – a passagem de ano. Juntei as palmas das mãos e os saudei, saudei também o ano vindouro, depois de abrir os olhos saudei a minha mãe, dediquei um tempo ainda a molhar os pés na beira do mar e a fazer desejos. Desejei coisas simples, uni-me aquela massa de homens e mulheres e seus rituais e desejos complexos; pedi um ano melhor, que este fosse mais proveitoso, fui atendido na mesma hora com mais estouros de fogos e jubilos de alegria. Era a melhor festa do ano, era também a última.

***

Escrever me toma pouco tempo, ainda assim tenho de pensar sobre como, o momento, o que deve ser escrito, que contrato eu estabeleço com quem me lê, toda uma gama de coisas que parecem muito sérias assim escritas, mas que na verdade estão cobertas de pura galhofa e gratuidade. Já fui melhor sonhando, já fui mais alto escrevendo, já fui tanta coisa esse ano que me bastaria um abraço e uma conversa elaborada, algo que me fizesse generosamente sorrir para me encantar. Ando com as pernas bambas, o cérebro fraco, ainda assim ele dá rodopios e idéias mirabolantes solidificam-se e derretem ao mesmo tempo, logo depois que eu acordo. Como balas engatilhadas, um circo armado, um tiroteio prestes a acontecer. Não fui feliz este ano, também não fui infeliz. Algo se manteve, gavetas trancadas que precisam ser reorganizadas, muita insegurança sobre a capacidade de lidar com a tarefa. Muito trabalho a ser feito.

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O que fazer quando felicidade se resume a manter pelo máximo de tempo balas de cereja na boca?

Fim de Ano.

In Uncategorized on Dezembro 28, 2008 at 12:19 pm

Estou na rua de trás, andando a passos largos e com as mãos nos bolsos; a essa hora da noite faz um frio incomum, o tempo anda pelo avesso, soltando fumaças estranhas das esquinas. O ano está para acabar, faltam poucos dias. A vida por aqui segue tranquila. Resolvo remeter uma carta o único posto do correio que conheço fica logo mais a frente, se pudesse contar com ele na porta da minha casa teria evitado usar casacos e cachecol, mas seja como for tinha que andar de qualquer forma e pensar sobre o que escrevi para mim mesmo, uma carta que estou a enviar a minha pessoa e que só receberei no ano que vem, graças a burocracia estatal. Nela estão escritos os seguintes dizeres:

“Teimo em acreditar que o ano passou tão rápido, diz desses estava deitado em uma cama acometido de um mal incurável, uma sonolência pegajosa que me impedia de qualquer convívio social, de qualquer aproximação mais eficaz. Perdi meses da minha vida contando horas de relógio e vivendo aventuras virtuais que mal posso ditá-las em uma carta de tão estapafúrdias. O ano passou, passou também a idade, me sinto mais velho, menos moço, não sei o que fazer com o peso da idade e com pouca responsabilidade – é como entrar na vida adulta ainda com fazeres de criança”

“A cidade está moribunda neste fim de ano. Muitos viajaram para se encontrar com os seus então as ruas ficam de repente mais arejadas e a chance de encontrar algo ou alguem que lhe chame a atenção diminui sensivelmente. Desci para a piscina onde brinco de voar sobre os ladrilhos enquanto boio na água – a sensação de ser um pássaro molhado, eu a amo – e vejo crianças brincando com seus presentes de natal. Não consigo parar de pensar que depois de uma certa idade o melhor da vida foi ter sido criança. Observo seus gestos, a maneira como falam dos pais, a proteção que as circundam. Sinto saudades de mim mesmo.”

“O ano termina com pouco aproveitamento. No céu irão brilhar fogos e será sim uma noite mágica, como todas as viradas de ano, até que tudo se tranquilize novamente e volte ao seu estado natural. Durante o momento não sei o que pedirei, talvez mais saúde, uma rotina diferente, algo que me arrebata de tal forma que eu seja obrigado a participar de uma grande aventura sem ter sido convidado. Algo de novo, por favor. Que eu posso celebrar a entrada de um ano mágico, com grandes novidades, muita saúde; que eu possa finalmente cumprir com certas responsabilidades atrasadas.”

Hiato.

In Uncategorized on Dezembro 23, 2008 at 12:34 pm

Solução ou interrupção de continuidade em um corpo, em uma série etc.; falta, intervalo, lacuna.

Largo os pés logo cedo sobre a cadeira e me ponho a escrever novamente sobre a falta, o vazio tedioso. Já há quem o diga que o venero como a um Deus, que o tenho como inspiração maior dos meus escritos. Há verdade é que a lacuna é mais sensível onde o processo criativo foi interrompido, no afeto que se põe sobre as coisas do mundo, sobre a própria realidade sensível.

O certo seria venerar o que me rodeia e o que obtenho em retorno. Uma boa família, uma boa saúde, dois pares de perna qie ainda seguem rumos certos, um bom emprego. Mas sinto que o amor pena para acontecer. Não tomo nada em minhas mãos que me torne efusivo, tão pouco me faça andar por caminhos depressivos; pouco choro, pouco dou risada, estou em pausa.

As vezes sinto-me beirando a loucura, é quando tento quebrar meu próprio conceito de normalidade, rasgar a realidade e forçar fronteiras; isso acontece com desconhecidos ou pessoas próximas, arregimentando segredos em série, forçando pequenos vínculos e amizades. Não é um afeto de qualidade, é antes um amor construído, nada falso porém sem a pontinha de alegria e compromisso que figuram nos amores não embrutecidos.

Risco um pedaço de papel. Me alimento hora sim hora não de palavras dificéis. Quero conquistar um espaço enorme, estive sóbrio porém vazio por tempo demais; há ainda um mundo a minha espera eu é que não sei esperar pelo meu papel antes de entrar no palco. Que personagem é esse que interpreto sem vontade¿

Estar vivo é extremamente complexo, organizar uma vida ainda mais. Quando o relógio bate 20h eu durmo, quando dão 8h eu acordo; entremeios vou levando o meu tédio de uma forma salutar, tentando escrever, jogando conversa fora, trabalhando sobre um hiato criativo e mental de aproximadamente um ano. Com frequência tenho tremores nas pernas e nas mãos. É difícil falar sobre abismos quando ainda se está subindo às margens de uma depressão, aos mãos não sangram, mas a falta de apoio é evidente; é um caminho que se faz sozinho e em silêncio.

7.

In .números. on Dezembro 19, 2008 at 8:07 pm

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Se lhe pego correndo novamente com aqueles garotos, se lhe pego a se divertir furando os gatos da rua de trás, não sabe do que sou capaz. Um animal, é o que você é, quando pinica os olhos dos gatunos com as seringas do teu pai. Se não gosta de animais porque me pediu um cachorro de aniversário, está aí, mal-cuidado, e se furassem a ele também; sairia atirando pedras no malfeitor, correria para amaldiçoa-lo, não, choraria indefeso na barra da minha saia. A vontade que me dá é de pinicar os olhos do teu cão, vê-los vazar, para que você saiba o que é um olho a menos. Como faz falta um olho a menos e olhe que viemos com dois. Queria ver o teu cão mancando, batendo com a cabeça nas portas, tateando os terrenos, latindo para as paredes, cagando sobre o teu travesseiro. Se te pego de novo furando os olhos de um gato, furo eu mesma os teus. Vou presa por cegar um filho mas com o dever cumprido; lhe prefiro cego do que malfeitor. Crio um filho cego, estás me ouvindo, não se faça de surdo, mas não crio um bandido. Começa por gatos… Depois esta aí torturando passarinhos… Estás me ouvindo… Abandonando mulheres, batendo em indefesos… Estás me ouvindo… Surrando crianças e eu que tenho de ouvir dos pais… Estás me… Se te pego furando o olho de um gato, se te pego a pinicar animais…

6.

In .números. on Dezembro 18, 2008 at 12:36 pm

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Pegaram a primeira a esquerda e seguiram pela rua do Conde, ele pensando ao volante se talvez não chegariam mais rápido se tivessem aceitado o conselho e tomado um atalho pela rua de trás. Estavam perdidos. A essa hora o jantar já estaria servido e ela fazia círculos sobre o mapa, círculos avulsos e isso o irritava profundamente; buzinavam os carros enquanto eles pediam informações. A rua de trás era o atalho mais recomendado, deram meia volta, um outro buzinaço. Esta rua fedia a mijo seco e lixo revirado, se fechassem a janela iriam suar. Ligou o rádio e uma música melosa tocava, ele a conhecia, estava na metade. Ela parou de fazer círculos e se pôs a cantar, alto, e isso o também o irritava.

Ao chegarem na rua recomendada deram de cara com uma praça que a dividia em duas mãos, uma de ida outra de volta; já deviam estar na sobremesa. Ela perdeu um brinco, ele começara a suar. A testa molhada, o perfume rareando, ainda estavam perdidos. Ela achou o brinco, ele ainda suava quando num muxoxo desistiu da festa. Explicaria por telefone que se desentendera com o mapa ou inventaria uma desculpa. Era festa de família, ele não queria ir, ela insistira. No rádio tocava outra música melosa, desconhecida, quando se ouviu um barulho; alguém batera no fundo do carro. Ela xingou, ele pensou em potes de sobremesa. Não precisava mais de desculpas.

Aceitou vir porque a relação não ía bem; achava até que andara sendo traído. Mas era do tipo controlado cujo um par de chifres não lhe tirava oito horas de sono. Ela saiu primeiro, brigava com um rapazote que não percebera o carro da frente desacelerar. Acendeu um cigarro e saiu do carro. Ela estava linda, lhe faltava um brinco na orelha. Imaginou se não o trairia com um tipo jovem, como este moço agora que a afrontava, explicando seus caminhos. Pensou em frangos empanados e mousses de mangaba, pensou em tanta coisa. Queria voltar para casa rápido, trepar, calçar um par de meias e ficar sob as cobertas com o ar condicionado ligado ao máximo. A barriga roncava. Um guarda anotava o número das placas, um arranhão na lataria, nada significativo. Sentou-se e ela o chamou de imprestável, pediu para ir para casa. O ar ao máximo, uma coberta e restos de comida em um congelador. Em seu devido momento, depois da trepada, queria mesmo era ficar solto; nada de cabelos sobre o peito e mãos  lhe acariciando. Esta noite não dormiriam abraçados.

Voltar.

In Uncategorized on Dezembro 17, 2008 at 8:06 pm

Pego um palito de dentes afiado e encontro uma teia de aranha na varanda, pequena, com um inseto envolto e pendurado a espera. Agora a quebro, liberto o alimento morto, deixo-o cair no chão à espera das formigas.

Escrever se tornou uma tarefa tão enfadonha quanto brincar com a comida no prato, com o estômago sem vontade; de repente, uma obrigação diária. São leves exercícios físicos para a mente, jocosos, irritantes, quando a ainda se estou a buscar o meu ápice criativo – do outro lado da balança um grande “nada a declarar”. Quem quer me ler¿ O que se tem para ler hoje por aqui¿ Que tipo de retorno está garantido¿ E essa tarefa me inquieta além do simples prazer de frasear¿ Que tipo de inquietação eu quero despertar¿

Quando estou sólido a letra enrijece comigo. A mágica se perde no caminho – é o tédio, estou de sobreaviso. Quero ligar para minha mãe, ela me escuta, eu ainda a encanto e ela me encanta como poucas pessoas: nosso vínculo invisível é tão forte que tenho medo de ganhar rugas e ainda estar sob a barra de suas calças. É sobre a mecânica de nossa relação que me debruço quando estou na penumbra, no mais ou menos. O tédio me faz revivê-la, revisitá-la com muita frequência.

A tenho como força motriz, geradora de diversos impulsos criativos, a minha mãe. Seus dizeres, a forma como organiza sua vida, seu esforço humano para alcançar-me enquanto mulher e enquanto amiga, o afeto direto que põe sobre as coisas: a simplicidade com que nossos mecanismos trabalham é o que me convida a querer mais da vida, principalmente quando fui tomado pelo vazio, tedioso e alquebrante. Ela é a minha principal incentivadora em qualquer coisa, eu sou o que trás o princípio da dúvida e a insegurança; tenho medo de sugá-la, ela diz que cobro muito pouco, que quer me ver sanado. Um pé depois do outro, enquanto ela segura as minhas mãos.

Escrever é simples, cativar nem tanto. Encantar é um processo alheio ao que se escreve, imagino eu, a reação mágica entre o trabalho intelectual e um espaço em branco no leitor – talvez o mesmo tédio que sinto, talvez o mesmo encantamento quando pego um livro. Queria libertar-me, queria me saber libertário também, cunhar palavras que quebrassem na relação autor-leitor um grande copo de vidro vazio; que causasse um grande estardalhaço, e que ambos pudessemos ouvir, que ambos pudessemos catar os cacos, recolá-los, trabalhá-los em um mosaico. O copo nunca mais seria o mesmo, assim como eu e você, nunca mais teríamos um ao outro da mesma maneira – é o encantamento a que me refiro, é o tédio submetido. Se a vida só tratasse do que é encantado encontraria a minha cura em horinhas de descuido, transformando-me a beira do teclado, em palavras que me reconduzem e remodelam. Mas eu sou todo cuidados, perco a fé facilmente, não vejo luz no fim do túnel – ainda faço meus exercícios sem nenhuma finalidade, hoje sem a magia de outrora. Já fui mais jovem e mais vaidoso.

Ainda quero ligar para a minha mãe, enquanto penso em como fechar esse texto.

5.

In .números. on Dezembro 17, 2008 at 11:19 am

circo

Hoje pela manhã aconteceu algo incomum na rua de trás. Muito estreita e sem comportar veículos grandes, a rua foi tomada por dez caminhões coloridos que anunciava a chegada do circo à cidade.

As carroças azuis vinham decoradas com o nome Gran Circo em amarelo e o rosto arredondado de um palhaço, careca como todos e de nariz vermelho. Algumas ficavam expostas a céu aberto, arejando a jaula de grandes feras. Outras eram menores, traziam pequenas cortinas e longas chaminés de onde saíam uma fumaça branca; tinham a aparência de uma casa sobre rodas. Eram nelas que viviam os malabaristas, palhaços e trapezistas? Quem poderia saber por que tipos eram ocupadas? Como era interessante pensar em tanta vida escondida, esperando a última parada antes do espetáculo!

Crianças se aglomeraram na rua enquanto os caminhões perpassavam com todo o cuidado e demoradamente os poucos metros que marcam a vizinhança. Alguns paralelepípedos ameaçaram sair do lugar quando a carroça que trazia um imenso urso passou, mas todas as pedras agüentaram em suas posições. Não fugiram com o circo.

São Jorge.

In Uncategorized on Dezembro 16, 2008 at 9:55 am

jorge

A lenda fala sobre um cavaleiro e seu cavalo branco que salvam, ao trespassar a garganta de um dragão com sua lança, um povoado e a última virgem que seria sacrificada para amansar a fera. Nas areias da África do Norte os cidadãos da pequena vila se convertem ao cristianismo e a donzela se casa com Jorge, que a leva com ele para a Europa. Em outra lenda se fala de um herói de armas do exército romano alçado muito jovem a carreira de tribuno. Desafiando outros juízes que haviam declarado a morte em massa de seguidores de Jesus que não aceitavam o paganismo imposto pelo imperador, Jorge se levanta e se declara cristão e fala que aquela é a sua verdade. Ele então é castigado com inúmeros martírios até a data de sua morte, em 23 de abril de 303, quando é comemorado o seu dia. Já foi rebaixado na categoria dos santos, já foi revitalizado pelo Papa, é padroeiro de alguns países e regiões, inspirou muita música boa e aparece em camisetas despojadas por todo o Brasil; enfim, é um santo popular.

O fato é que queria uma corrente de ouro com um pequeno São Jorge e a ganhei de minha mãe no meu vigésimo quinto aniversário. Ela aparece e diz, quero pô-la em você, e me conta que o santo matava um dragão por dia. Penso em um lema que tenho usado: um pé depois o outro. Guardando a certeza de que não são dragões que me atormentam, nem mágoas retidas, é a sonolência tediosa e sem cura, que agora, às avessas, me faz perder noites de sono.

A cabeça fervilhando sobre o travesseiro, cheio de idéias amalucadas. Penso na minha idade, vinte e cinco. Penso no santo. Penso em ir à missa para solenizar o momento e a medalha. Batizá-la como fui batizado. Abençoá-la, trazê-la a cristandade. Mas é o seu lado místico que mexe comigo, sua lua brasileira, seu dragão, seu corpo revestido em orixá, o sincretismo. Eu não sei o meu santo no candomblé, mas fora dele tomei gosto por São Jorge – ainda iniciante em seus segredos.

Todavia não sei ao certo que proteção queria, contra que armas eu estou me defendendo. Sim, por vaidade queria uma corrente porque achava bonito tê-la em volta do pescoço. Agora me pego a pensar em sua história, no misticismo, em um escudo invisível, um motivo para rezar o corpo. Hoje o guardo no peito como um companheiro, carrego uma inspiração comigo, sou um cavaleiro de Jorge; não sei ainda matar dragões nem salvar virgens, mas sei orar baixinho, emaranhar em pequenas preces as melhores energias. Como diz a letra do Caetano, potência de amar senhor do lugar inteiro. Os santos sempre amam demais, amam sem aviso, protegem, dão cor aos altares e escutam pedidos. Pedirei um ano melhor, a cura de um mal ainda indefinido, mais alegria menos combate – hei de ser atendido.

Aniversário.

In Uncategorized on Dezembro 15, 2008 at 10:10 am

Sinto falta das bujalações e do bolo com velas; seriam vinte e cinco e eu as assopraria desejando alguma coisa doce, muito doce. Algo simples, como um ano melhor, saúde ou paz de espírito. Aniversários sempre parecem melhores quando somos crianças, todos em volta da mesa, a família batendo palmas, as brincadeiras na hora dos parabéns e os presentes.

Quando somos pequenos ainda ganhamos presentes inesperados. O brinquedo da moda, uma roupa que não cabe e precisa ser trocada, um roupa que cabe mas que não gostamos e fingimos bem em uma risada de canto de boca. Mais velhos ganhamos livros que não lêmos, cartões ou uma presença em mesa de bar para ajudar a dividir a conta. Isso quando respondem ao convite.

Faço aniversário em uma segunda-feira mas escrevo isso antes, muito antes. Porque sei o que irei fazer antes de reunir-me aos amigos ou fazer um jantar pequeno com a família; irei ao mar. Sempre vou a praia na manhã do meu aniversário, tiro a roupa e entro vagarosamente. Quando a água já tomou a minha cabeça eu grito. Saúde, felicidade, amor, coisas clichês e positivas. Grito alto sob as águas do porto.

Nado um pouco, brinco com a água e depois saio confiante. O ritual nem sempre se repete ano a ano, mas saio com a certeza de que no próximo estarei lá, sob o mar, aos berros pedindo algo que não vou ter sob um laço de fita ou papel de embrulho. Deixo sob a água bem mais do que pedidos e quereres; deixo ali mais um ano de vida, tanto faz o que passou, tanto faz o que virá.

Os livros.

In Uncategorized on Dezembro 13, 2008 at 11:46 am

Este sim foi um livro libertador para mim, ele me disse. Acordo com a obra ao lado já em andamente, britadeiras a postos, as soldas ainda não usadas. Por puro costume pego um cigarro e vou a varanda. Dia desses alguém gritou “caipora”, alto o suficiente para eu ouvir. Os tenho com indiferença, os rapazes da obra, eles xingam com naturalidade, o dia inteiro; xingam e batem a argamassa, xingam e jogam o dominó na hora do almoço.

Pego o livro que ganhei de presente a exatamente um ano e o abro na parte em que deixei ontem a noite. Leio umas poucas páginas, os olhos ainda estão grudados, acabei de acordar. Depois inquieto pego um outro cigarro e tomo o rumo do computador, ainda é cedo, ninguém para jogar conversa fora. Já acordo com o tédio, de uma forma secreta me dou “bom dia” antes que ele me visite. Penso que ainda há muito a ser reconstruído, reavido, reajustado, então não me culpo mais por senti-lo – o tédio. Quanto a ele só me incomoda não ler mais de vinte páginas de um livro ou a televisão, que não visito a um bom tempo.

Escrever se transformou em uma forma de combatê-lo. Junto minhas armas e com um pouco de esforço sopro palavras; se quisesse levar isso a sério, vestir-me de autor, diria que me falta leitura. Daí penso nos livros que estão sobre a minha estante. Quantos eu já li realmente? Quantos estão imbuídos de uma capacidade transformadora, libertadora? Todos, provavelmente. A minha relação com livros é bem complicada. Leio pouco por medo do encantamento que guardam as páginas. Sou tão influenciável que passo a escrever como o autor que leio, a fazer dele um companheiro diário, a me embebedar em cada frase que julgo emoldurada por uma sabedoria acima da média. Respeito e temo autores de livros, mesmo os ruins, porque ainda não escrevi um que possa chamá-lo de meu e, principalmente, duvido da minha capacidade de encantar como me encantam. No dia que puder dispor de força para libertar um momento, uma memória, alguém através de palavras, nesse dia serei temporariamente completo. Nesse dia, entre palavras minhas e mecanismos alheios, dividiremos um segredo. Não há nada mais libertador que um segredo em uma relação a dois.

Engrenagem.

In Uncategorized on Dezembro 12, 2008 at 3:03 pm

As engrenagens da mente; quem pode entendê-las? Com um parafuso a menos, corremos sem eira nem beira por sertões apinhados de cactos. Combatemos não os jagunços, mas plantas, como Quixote em uma nova aventura. Saltamos rios e montanhas com os nossos cavalos, achamos água para saciar nossa sede; bebemos e a saciamos. Com um parafuso a menos se vai longe onde se está, sem ir à parte alguma – há coadjuvantes, mas eles não sabem que fazem parte de um grande e enfadonho monólogo. Está tudo errado, estão todos enganados e a razão é minha, sozinho e sem contra-argumentos.

Com algumas peças a mais, todos os círculos encaixados e girando. Com a máquina lubrificada e os cálculos sendo feitos, também se vai longe. Quase tudo se pode saber com exatidão; tudo o que envolve importa para o seu bom funcionamento. A mínima experiência gozada é o máximo divisor em uma conta complicada, que produz tantos outros cacarecos. Com a máquina lubrificada todos os sentidos estão aguçados então sentir, qualquer bobagem, é a perfeição. Não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência. A frase do Kant é enfática, tirada de um concurso de revista; faz-me bocejar. Tento entre toda esta parafernália descobrir a minha verdadeira vocação. Sinto saudades de quando não estava tão azeitado, saudades dos sertões e do fantástico, saudades de quando eu era um aventureiro e não trabalhava em série, saudades de mim.

Estou em uma grande biblioteca, não há bibliotecário, basta puxar uma corda e um livro empoeirado cai sobre minha mão. Leio os títulos, brinco com um álbum de fotografias, danço sozinho, grito alto e escuto ecos. As pequenas aventuras de LP é o nome. Capa mole, poucas páginas, a orelha escrita por um autor desconhecido; amigo próximo. Grito alto e escuto ecos, o vão, a parede apinhada de livros e álbuns a perder de vista. Puxo a corda me vem outro livro, auto-ajuda, algo sobre ócio criativo e bons exercícios para a mente. O parafuso está solto, mas ainda não caiu no chão, ainda não caiu; a biblioteca silenciosa, eu balanço freneticamente a cabeça para o lado, dando tapas na orelha esquerda, espero ouvir em breve um tilintar metálico no chão. Quero mesmo é combater cactos e não fazer cálculos matemáticos.

Sólido.

In Uncategorized on Dezembro 11, 2008 at 10:09 pm

Saí de lá estranho, com dores na cabeça e uma sonolência inexplicável. Quando o sono chega a uma da tarde, antes de comer qualquer coisa, sei que algo não vai bem. Não tenho costume de tirar sonecas; em verdade, sempre sonho quando durmo à tarde e acordo pesado e sem chão, como um bicho-preguiça sem o seu galho de árvore. Parei de roer mesmo as unhas, olhei para elas de novo em um ônibus apinhado de estudantes.

Esperava chegar sólido mas o tédio me pegou antes; antes mesmo de pôr a lasanha no prato, de entrar naquele ônibus, ele já estava lá. Impreciso, dentro de um caos controlado. Sono à tarde virou sinal de desarranjo, para mim. Tenho um alfabeto inteiro com letras trocadas de lugar. Tenho um guarda-roupa onde os pares de meia foram parar na gaveta de calças. Tenho dois braços nos lugares das pernas. Tenho também uma tendência a aumentar o tamanho dos problemas, quando não se tem nenhum problema maior em vista. Culpo-me por sentir sono porque sei que terei de organizar a baderna, em algum momento terei de começar a pôr as vogais no lugar e colocar as calças sujas para limpar.

Preciso de alguém para conversar mas o mundo parece bocejar comigo. Está tudo ao avesso e está tudo em seu devido lugar, nunca esteve melhor, não poderia estar. Tenho escrito como um louco e isso é sinal de que quero algo, de que estou inquieto; estou aqui, me organizando de alguma forma, no meio de palavras. Vez em quando um bocejo, uma lágrima. Recebo uma ligação, fui selecionado para uma vaga de estágio, penso: sou feliz, eu só ainda não sei disso.

Máquina 3.

In Uncategorized on Dezembro 10, 2008 at 2:42 pm

Quando dão as férias de fim de ano, quando deu algo errado em minha vida ou, simplesmente, quando dá algo aqui dentro [o desejo mesmo de mudar], eu raspo o cabelo. Sigo com uma amiga até o banco para depositar dinheiro e depois de um forte abraço cada um toma seu rumo. Eu decido atravessar a rua e cortar o cabelo com uma senhora divertida que já o tinha cortado da última vez.

Enquanto ela resmunga sobre o patrão que não se cansa de brigar com os eletricistas que empatam a frente do prédio, vai tirando o excesso de pontas e tufos descomunais que se lançam para os lados. Redemoinhos, ela anuncia, são muitos, temos de começar a cortar pelo lado contrário ao que eles crescem. Com a cabeça depenada ela me pergunta o número, eu digo máquina três, ao que ela responde: vai ficar bonitinho.

Ela sempre me compara a um artista, primeiro a um vencedor de reality show e depois a um roqueiro mineiro, deixando claro que esse corte está nas vitrines, na moda e que provavelmente alguém irá me copiar; como se copia a um ídolo. É só uma cabeça raspada.

Mas no fundo, bem lá no fundo, quando deixo o salão e atravesso a rua, sempre penso que é um rito de passagem. O sol queima o couro cabeludo quase a mostra e eu continuo com a certeza de que deixei algo mais do que fios de cabelo em um chão qualquer – algo que não verei no espelho.

4.

In .números. on Dezembro 10, 2008 at 11:05 am

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Um casal resolve cortar caminho até o ponto de ônibus pela rua de trás. Aparentando ser muito jovem e com cabelos compridos a moça está lacrimosa. O rapaz a acompanha circundando um braço por sua cintura; é magro, alto e muito feio. Segura-a de forma firme como que fincando ali uma bandeira, demarcando um território; ela não demonstra, mas gosta da atenção.

Estão calados, um pouco irritados. Saídos de uma briga, talvez. Destas onde no fim ninguém assume a culpa ou a razão, só o silêncio. Vão andando juntos até a esquina e lá se viram um para o outro, ele a olhando fixamente nos olhos. Ela de cabeça abaixada e de olhos fechados. Beijam-se sem muita paixão.

- Então, me espere amanhã, no mesmo horário – diz o rapaz.

- Vou te esperar.

Três carros passam antes de a condução chegar. O homem entra no ônibus vazio e ainda acena com a ponta dos dedos, mas a mulher já se virara de costas tomando o rumo de volta.

Feriado, oito.

In Uncategorized on Dezembro 9, 2008 at 10:59 am

Gosto quando a ilha some atrás de uma parede de neblina e os navios desencantam na baía. Imagino um infinito chumaço de algodão grudado ao céu, me impedindo de seguir com os olhos os pequenos montes que se formam no horizonte. Enquanto fumo uma música eletrônica toca em alto e bom som, colagens metálicas e vozes masculinas de uma banda da qual baixei três discos sem conhecer nenhuma música. Minto, haviam dois clipes que passavam incessantemente na televisão; o que há de popular.

Mais tarde a ilha reaparece entre leves batidas que atravessam a minha janela. You are everything that i never could keep. Batidas intercaladas por um coro suave, erotismo, música para dois. Chove fino, a neblina se disperça e fico sem o meu algodoado, encostando o cigarro na boca levemente.

Em dias assim a fumaça entra fria e lentamente nos pulmões; a sensação é a mesma de sempre, enchendo e esvaziando a metade de um copo vazio, ao mesmo tempo. Inspirando e expirando.

Almoço fora. Volto. Consigo dormir, sonho em pequenos flashes, colegas de faculdade. Não me recordo. Na ilha se acendem as luzes, pequenos pontos luminosos surgem desenhando um traço no horizonte. Escurece. A neblina volta a tomar metade da paisagem, esmaecendo os montes distantes. You are everything that i never could keep. Outro cigarro, outra música, outra conversa batida, um pouco de lucidez, vou a uma peça de teatro e está tudo bem. Irei comer restos do almoço, dormir e sentir faltar alguma coisa – a metade de uma ilha, talvez.

O tédio 2.

In Uncategorized on Dezembro 8, 2008 at 11:12 am

Então percebo que existem margens, meandros, pequenos orifícios na escuridão. Se pudesse manobrá-lo, tratá-lo como um material alquímico, moldá-lo a minha maneira como se molda um souvenir de barro. Presenteá-lo sem cobrar absolutamente nada, pelo simples gosto de dividir um momento com alguém. Talvez pudéssemos moldá-lo juntos, com as mãos entrelaçadas, trabalhar, suar a testa, deixar pingar algumas gotas no barro e só então presenteá-lo a um terceiro. Que poderia ou não se juntar a tarefa de fabricar pequenos souvenires.

Em meio a copos de cerveja, gente dançando, música alta, luzes e cores, a escuridão iria se esmaecendo. Não sentiria grudá-lo nas mãos, deixaria de ser pegajoso e encardido. Em degrade, ainda fosco, se transmutaria em um estado calmo e convidativo, intercalado por conversas batidas e todo tipo de novidade. A calma preenchida pelo gozo. O tédio como uma lojinha de souvenires multicoloridos onde sempre se pode ler “volte sempre” em plaquinhas de metal fincadas sobre um pedestal de madeira.

Acordo. Fumo três cigarros intercalados por dois cafés. Na tela do computador pisca um comando exigindo uma letra, marca o início de um trabalho descompromissado. Um T, depois um E, depois um acento, depois um D, depois um I e só então um O. Vou passá-lo em papel celofane, enrolá-lo em uma fita e deixar sobre uma bancada. Quem passar primeiro leva. É um presente.

O tédio.

In Uncategorized on Dezembro 6, 2008 at 12:51 pm

Estado invisível e pegajoso cujo efeito não se percebe nem com o bater dos dedos sobre uma mesa, nem com o passar das horas. Sobre ele as melhores palavras surgem quando sento para fumar um cigarro, surgem em cascatas e beiram a poesia. Mas não caio nessas águas, não deixo a água forte bater sobre o meu corpo; em verdade, não vejo uma cachoeira faz quatro anos. E metade da poesia some no caminho para o computador.

Parei de roer as unhas e o sinto crescer e se esconder sob as pontas sobressalentes. As vezes encarde em pequenos negrumes que fico a limpar com outras pontas de unha enquanto nada me chama a atenção; o tédio é escuro, imagino, embora não o possa ver. Respiro-o.

Entre as mãos, quase se pode o ter entre as mãos. Abraça-lo se fosse o caso, como se abraça a uma grande oportunidade, não fosse ele tão escorregadio. Um amigo me presenteou com um livro do Sartre – o protagonista não sabe ao certo se viveu aventuras o suficiente e entediado empurra fotos ao Autodidata que o pergunta sobre suas viagens. Para viver aventuras é preciso que nos ponhamos a narrá-las. Mas é preciso escolher: viver ou narra-las.

Uma aventura; e então o escuro invisível envolve o gabinete, o quarto, a rua. Não se pode narrá-lo nem vivê-lo com exatidão, somente usufruí-lo de alguma maneira. Corro para a varanda, acendo um cigarro e espero, espero por palavras enquanto homens xingam qualquer coisa na obra ao lado. Quando o sol desce sob a ilha desenhada no horizonte eu chego a certeza de que o tédio é sim escuro; não como a noite. Ele não irá se dobrar quando raiar o dia, permanecerá negro e cada vez mais fundo, sob a ponta da minha unha.

3.

In .números. on Dezembro 5, 2008 at 1:19 pm

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Um homem a beira da loucura corre pela rua de trás com uma faca na mão. O peito nu, os cabelos desgrenhados e a carne muito magra, coberto por um lençol ensangüentado. Fazia dias que os vizinhos não o viam e agora ele sai gritando:

- Uma desgraça. Uma desgraça se abateu sobre mim – repetindo a exaustão.

Seja lá o que tenha acontecido ninguém deu por nota. Porque assim como entrou correndo pela esquina saiu pela outra deixando cair o pano que pendia sobre o corpo. É ator de profissão.

De cereja.

In Uncategorized on Dezembro 4, 2008 at 9:29 pm

Faltando meia-hora para eu entrar na piscina atravesso a rua de casa e vou comprar balas de cereja. Uma para degustar na ida outra na volta. Desembrulho-as e ganho sempre de brinde um papel prateado com fotos de garotas e garotos de todo o brasil. São amigos, imagino, e estão sempre felizes.

Carrego em um braço um saco com dois imensos pés de pato e uma mochila contendo o necessário (uma carteira de identidade, uma toalha, uma touca e os ocúlos para natação). Enfio a bala vermelha na boca e a sorvo calmamente durante vinte a vinte cinco minutos, sem quebra-la apressadamente. É um exercício contra a ansiedade. Penso da seguinte forma: se posso chupar uma bala de casa até o clube onde nado então posso transformar uma parte dos meus dias em algo programadamente doce.

Mantenho o cuidado de não quebra-las com o dente até chegar a água, quando já estão como um filete adocicado ameaçados de sumir a qualquer choque mais abrupto; com um molar ou um canino. Meus passos são sempre apressados e nada, absolutamente nada nem ninguém, me aguça os sentidos enquanto eu ando pela rua.

2.

In .números. on Dezembro 3, 2008 at 11:34 am

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Na rua de trás vive um terapeuta com a sua esposa, uma mulher bonita e dez anos mais nova. Resolveram construir sua casa baseada em uma mistura de convicções filosóficas, religiosas e esotéricas, depois de uma viagem a Índia. Como são três os principais deuses do hinduísmo eram três também os andares, as torres que se pronunciavam no terraço, as varandas e as portas que davam de entrada e saída ao edifício. Até onde se pode contar eram dezoito as janelas.

O último andar o terapeuta usava como sala de atendimento. O divã era cercado por incensos e toda sorte de imagens e símbolos hinduístas, embora ele pouco o utilizasse. Preferia sentar jocosamente e descalço sobre almofadas que cercavam a pequena varanda de madeira que havia preparado somente para isso. Sobre um tatame o analisado era convidado a retirar os sapatos e se deitar, da maneira que assim preferisse.

É um terapeuta heterodoxo. Não se serve de nenhuma das linhas clássicas de análise psicológica e ao mesmo tempo se serve de todas, em um trabalho que anuncia em jornais e no boca-a-boca como uma “abordagem holística”. O todo para que se possam chegar às partes, em partes para que se possa conquistar o todo, é o seu mote. Apresenta-o sempre antes de tirar os sapatos e estender as pernas curtas sobre a almofada roxa.

A porta principal carrega uma pequena imagem de uma antiga lenda hindu. Uma criatura humanóide com cabeça de tigre segura em uma das mãos uma cimitarra e na outra a piteira de um narguilé dourado. É um rakshasa, um demônio, explica a todos que perguntam, e os demônios eu os prefiro fora de casa.

Sua mulher está grávida e ainda não sabe. O quarto do bebê será construído onde antes havia uma pequena sala escura para a revelação de fotos; a esposa é fotografa profissional. As paredes serão pintadas de verde limão, com uma série de vinte lótus azuis e douradas representando as flores que nasceram com os primeiros passos de Sidharta Gautama, o Buda. O terapeuta tem uma filha mais velha, do primeiro casamento, que mora em Londres e se comunica com o pai por cartões-postais. Ele não tem computador.

Dois banhos.

In Uncategorized on Dezembro 2, 2008 at 2:53 pm

São dois por dia. Um por tédio, antes do almoço, para subjulgar a cabeleira que está desgovernada (não devia ter pedido a ela que cortasse só as pontas do cabelo). O outro para limpar o cloro da piscina, entre as 17h30 e as 18h, apertado de fome.

O primeiro é demorado. Pego o sabão desgastado e aplico sobre o corpo de qualquer jeito. Lavo somente o que julgo necessário; o peito coberto de cravos muito pequenos e o rosto oleoso. Deixo a água correr, as vezes encostando a cabeça na parede para senti-la na nuca. Nunca limpo os cabelos.

Antes do pôr-do-sol me preparo para o segundo. Com a barriga roncando limpo duas vezes a cabeça com um shampoo bege e cheiroso. Movimento o sabão pelo corpo, círculos e mais círculos, até ganhar uma armadura de espuma dos pés a cabeça. A água quente açoita o ar, faz um barulhinho bom, mas só a encontro para deixar armadura (e armas) escorrer pelo ralo. É sempre o melhor banho do dia.

1.

In .números. on Dezembro 2, 2008 at 1:00 pm

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Na rua de trás o motivo de riso é sempre o mesmo. Uma grande placa de vende-se sobre o muro da casa de número 16. Para a casa, muito pequena, dois quartos e uma laje batida, nunca acharam um comprador. Não é feia, pelo contrário, o grande pomar a sua frente, com destaque para um frondoso limoeiro, dá graça à obra mal-acabada. Os últimos galhos, que saltam para fora do muro, deixando cinco ou seis grandes limões à mercê das crianças da rua, servem de apoio aos arames que deixam a placa cair sobre o muro.

Vende-se. Um cachorro magro perambula pelo pomar cavando buracos onde, vez em quando, esconde suas fezes do dono. Cansado de ser surrado por defecar em casa e de não ter outra ocupação a não ser vigiar os outros tantos limões e cajus do pomar, o cachorro criou o hábito de cavar buracos. Longe dos temperos e verduras, sempre perto do mamoeiro ou do pé de limão. Cava-os e depois os cobre. Cava-os e depois os cobre. Não é um hobby, ele sequer balança o rabo. Ao contrário, entorta a coluna e com as patas em diagonal vai cavando agressivamente buracos, não muito fundos. Como foi dito, algumas vezes se alivia sobre um deles

Vende-se. A dona da casa é uma mulher miúda, muito magra. Trabalhou durante cinco anos como babá até “sua menina” estar crescida o suficiente. Tinha um celular que foi presenteado pela patroa: somente para casos de emergência. Foi despedida em uma véspera de natal e dois anos depois teve um filho com um ajudante de pedreiro, no momento desempregado. O filho passa os dias na casa da avó, não muito longe dali, enquanto a mãe e o pai procuram empregos.

Vende-se. O casal é motivo de riso porque, novos na vizinhança, trocaram o “s” por um “ç” pintado em vermelho na placa de ferro. Assim, onde se deveria ler “vende-se” lê-se “vendeçe”. A vizinha, que tem uma filha que freqüenta a escola começou com a piada e assim foi se espalhando pelo bairro que a casa não é vendida por causa da cedilha vermelha. Embora a mesma vizinha tenha pensado, com o seu marido taxista, em deixar de pagar aluguel e comprar a casa ao lado. Sua filha letrada ontem roubou um limão depois de voltar da escola.