Luigi Piccolo

Dois irmãos.

In Uncategorized on Junho 16, 2009 at 2:58 pm

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A peleja entre os gêmeos Raimundo e Deodoro Paranhos era nacionalmente conhecida. Sua luta encarniçada pelo título de “especialista em tudo o que há” os levaram a um sucesso ressonante: ambos eram editorialistas prestigiados, embora um tivesse por formação a medicina – em uma escola conhecida por instruir as maiores mentes do liberal Partido do Povo – e o outro estudado as leis do país na conservadora e católica Universidade de Todos os Santos. Raimundo escrevia a coluna A Lupa no segundo jornal mais vendido do país: seu grande mérito era destrinchar a vida de celebridades e políticos como um médico legista o faz com um cadáver. Não raro destruía reputações apimentando matérias e opiniões com segredos de alcova. O que lhe salvava a cabeça era a maneira magistral com que lidava com a língua portuguesa – diziam os amigos intelectuais. Fora convidado a ser sócio do jornal tamanho o sucesso de sua escrita entre as classes populares, mas preferiu continuar dividindo a literatura com a clínica geral – era, talvez, o médico mais bem-sucedido da capital.

Ao carola Deodoro cabia a tarefa de expurgar todo e qualquer traço de liberalidade na sua coluna O púlpito, que aos domingos era substituída pelas orações que Dona Marília Paranhos, sua esposa e oradora prodigiosa, concebia com suas amigas da fraternidade Mulheres por Nossa Senhora. Se o irmão trabalhava no jornal conhecido como “jornal do Raimundo”, era Deodoro o colunista mais lido do país. Trabalhava para um influente grupo de comunicação que detinha a maior rede de rádios e televisões da República e isso explicava porque era execrado por progressistas e comunistas, mas adorado pelos conservadores e o admirável contingente de católicos praticantes que se espalhavam por todos os cantos da nação.

Se Raimundo escrevia sobre a boa fase do time de futebol nacional Deodoro fazia ressalvas quanto à escalação do time. Se Deodoro escrevia sobre a retumbante vitória do Partido Conservador nas eleições regionais Raimundo protestava contra as leis que impediam negros e brancos de se sentarem juntos em lugares públicos. Se um herói nacional era prestigiado em O Púlpito certamente A Lupa traria um filho ilegítimo aos holofotes. Não foi uma surpresa quando Raimundo perdeu a cadeira na Academia Nacional de Letras para o irmão. Tampouco foi uma surpresa quando Deodoro tachou de “socialistas”, em sua coluna, os celebres intelectuais que apontavam Raimundo como a melhor opção para a prefeitura da capital. A antítese daquela relação era acompanhada de forma tão entusiasmada que a “guerra dos Paranhos” era, sem dúvida alguma, a novela mais popular do país.

A única pessoa a que ambos respeitavam era a sua mãe, centenária, mas liberal nos costumes. No dia do seu enterro ambos acertaram uma trégua muda, publicando cada um a sua maneira a história daquela mulher – que enviuvara cedo e criara doze filhos. Aquela senhora não viu os dois filhos se cumprimentarem em seu leito de morte, porque um estava a esperar na varanda que o outro se retirasse da casa. Não guardaram luto. Em poucos dias Raimundo estava a protestar contra a péssima estrutura da escola de seu povoado natal, que representava para ele o exemplo de como o Partido Conservador tratava a educação do país na região serrana. Deodoro se contrapôs reafirmando as benesses que o programa de agricultura trouxera aquela região, que produzira um presidente e um membro da Academia Nacional de Letras.

Não causou espanto algum quando, aos 65 anos, Raimundo morreu de uma cirrose devastadora. Seus hábitos pouco saudáveis e seu gosto pelo destilado nacional o levara a ter uma constituição fraca – não raro padecia de desmaios e refluxos diante dos amigos. Mesmo contrariado o Partido Conservador decretou luto por três dias em homenagem aquele homem, que fora reconhecido recentemente por sua luta pelos direitos humanos. A Lupa amanheceu sem o seu colunista e, naquele dia, o “jornal do Raimundo” foi o mais vendido na capital e no interior. Embora as homenagens não cessassem Deodoro não se deu por vencido publicando em O púlpito a sua celebre frase: A bebida faz o homem.

Aos 82 anos de idade foi encontrado morto sobre a sua cama, vitima de um enfarte fulminante. Já havia sido ministro de estado duas vezes e trabalhava incessantemente em um livro, o qual nunca concluiu. Também descontente o Partido do Povo, que chegara ao poder depois de algumas gerações e embalado pela revolução dos costumes na Europa, decretou luto por três dias e ponto facultativo em todas as repartições. Durante três semanas, O púlpito passou a retratar a vida de Deodoro Paranhos e seus principais amigos e familiares dedicaram-lhe as mais honradas palavras. A Lupa calou-se diante da sobriedade com que aquele homem levara a vida, constituindo uma família feliz e sem nenhum filho ilegítimo reclamando o inventário.

O armistício só cessou quando o presidente, liberal e grande admirador de Raimundo Paranhos, não compareceu nem velório e nem ao enterro, consagrado nas tumbas da Academia Nacional de Letras. No outro dia A Lupa fazia menção ao plano nacional de desenvolvimento e O púlpito a falta que fazia ao país a figura de um grande estadista.

O sumiço de Luisa.

In Uncategorized on Junho 15, 2009 at 2:57 pm

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De todas as coisas que Luisa gostava mais de fazer, além das visitas a Tia Gioconda em noites de reza forte, a que mais lhe agradava era bordar sob o céu estrelado de Paúra. A vila fora castigada pelo santo patrono com um clima cáustico que impedia a visita do vento as janelas, mas mantinha o dia e a noite sem a marca de nuvens. Um escritor famoso que nascera em Paúra e de lá fugira em sua rebeldia adolescente dissera que “para as crianças do povoado faltava o essencial, a merenda e a imaginação”. Confessou anos mais tarde que a falta de nuvens era um castigo sobre-humano àquela cidadela: não se podia adivinhar em suas formas nem elefantes e nem coelhos, era uma espécie de sub-nutrição.

Luisa bordava corações nos babados. Aprendera aquele desenho, que em nada se assemelha a anatomia humana, nas cartas de baralho que Tia Gioconda guardava dentro da gaveta, sob o oratório. A senhora de avançada idade sempre dizia que “havia muito o que se aprender na guerra muda do carteado” e Luisa gostava da maneira enigmática com que Gioconda Mastrocola fraseava – sempre levantando o dedo indicador ou depois de baforar a fumaça densa de seu cigarro de palha. Quando a moça não estava bordando se mantinha trancada em seu quarto onde escrevia, sempre em dia santo, uma carta de amor a si mesma. Todas as mulheres de Paúra eram ensimesmadas, dizia o autor fugitivo em entrevista: alimentam-se de amor ou farinha, quando não estão a se alimentar das duas coisas, ao mesmo tempo.

Uma noite deram por falta de Luisa. Gritos de pavor tomaram a velha casa dos Mastrocolas quando perceberam que havia no lençol uma mancha de sangue indistinguível. Pequena e ainda úmida. Convocaram Gioconda a levantar-se da velha cadeira de balanço e dar o seu veredito. A senhora embora muito próxima de Luisa afirmou não saber nenhum segredo que desse fim ao mistério. E era verdade. Gostava mais da pequena pela atenção dedicada do que por seus desvarios românticos; sequer lhe interessava se a moça tinha um pretendente. Olhando a mancha com suas pupilas cansadas, perguntou:

- Já está na idade fértil? – ao que ninguém sabia responder.

Não demorou para a história se espalhar por Paúra a passos demôniacos. Todos conheciam um possível infeliz que tivesse roubado a honra da moça, embora nenhum varão tenha desaparecido da cidade. A desonra dos Mastrocolas era um mistério tão insóluvel que as mulheres da cidade resolveram tomar a partir dali medidas drásticas: toda menina em idade fértil tinha a sua menstruação anunciada com lençois presos as janelas. O pudor era tamanho que as meninas de Paúra passaram a ser chamadas sempre com o nome de suas mães e Luisa se tornou um nome proibido, amaldiçoado. Até hoje, mesmo com a morte do último Mastrocola da cidade, o “dia do vermelho” é comemorado em bailes entusiasmados. Tornou-se uma galhofa entre os homens da vila e uma dor de cabeça entre as mulheres, que escondem os lençois antes que seus maridos os pintem em vermelho para saírem as ruas em um carnaval tenebroso.

Jurubeba.

In Uncategorized on Maio 26, 2009 at 12:36 pm

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Ela se sentou cansada sobre a pedra espumada e levou os braços até a testa, enxugando o suor que escorria sobre o rosto. As outras riram de sua indisposição.

- Porque parou, mulher¿

Estou cansada dessa vida, Nena – e torceu a barra do vestido – Não posso passar o resto da vida sovando roupa na pedra.

- Alguns nascem para isso, Juru – Nena estendia o lençol sobre os galhos de um cajueiro – Para lavar a roupa suja dos outros. E ainda reclamam se tudo não ficar um brinco.

-  Pois um dia vou embora sem deixar rastro.

- Você sabe o que acontece com uma bonitinha feito você na cidade grande – Olhou com repreensão – Quer ser mulher de vida fácil¿

- Quero cantar fora da bacia, Nena. No rádio.

- Aqui nós cantamos ou pra atrair a chuva ou pra espantar o Diabo, filha.

Jurubeba recolheu a bolsa que levava sempre para o ribeirão e retirou duas presilhas douradas. Começou a fazer uma trança com a ponta dos cabelos.

- Sabe Nena, minha avó sempre dizia que a graça da desgraça é o seu repente. Como uma chuva dessas de quebrar teto. Quem movimenta o mundo são os demônios porque Deus é sempre misericordioso.

- Sua avó era mulher amarga, Juru. Eu a conhecia como ninguém.

- Eu queria me apaixonar, Nena.

- Você é nova. Um dia aprende que isso é mais do que castigo – virou-se para Jurubeba e sorriu – Já tem um pretendente¿

- Sim, o dono do circo. Anda a me fazer gracejos.

- Ele poderia ser seu pai, toma juízo.

Prendeu a primeira trança com a presilha e começou a cantarolar.

- Eu poderia ter nascido um passarinho.

- Sua aluada. Pois eu não saberia o que fazer com duas asas.

- Poderia voar, Nena.

- Ou cair na boca de um gavião.

- Você sentiria saudades de mim, prima¿

- Está pensando em fugir, Jurubeba¿

- Ele me convidou para ser bailarina.

- O parrudo que se pinta de palhaço¿

- Ele mesmo.

- E você sabe dançar¿

- Não, mas aprendo. Tenho até o fim do mês, depois o circo parte para a Capital.

- Nessa sua cabeça de minhoca nem a barba do profeta faz cócegas. Deus lhe ilumine.

- Vou pra casa minha barriga dói.

- Toma aquela efusão que eu te ensinei. Se for bicho sara logo.

- Vai ficar aí¿

- Até não sobrar uma mancha nessa roupa.

Jurubeba torceu o vestido mais uma vez e calçou as sandálias. Com a bolsa a tira-colo ainda olhou para trás e sorriu para Nena, prima-irmã de sua mãe, dizendo:

- Se eu tiver uma filha vou pôr o seu nome.

- E se for menino¿

- Vai ter o nome do pai.

***

- Estou mais morta do que viva, por isso enterrem-me sob folhas secas e perfumadas, batam palmas, mas não derramem uma lágrima – dizia a velha. E a lenda que corria no ribeirão era que Deus havia se apiedado daquele ser miúdo e desdentado, e esquecido de marcar a sua hora.

Centenária e desbocada, Jurubeba não teve filhos. Era conhecida como Dona Alminha, a Bruxa, a Velha do Ribeirão. Quando uma criança cometia uma prenda seus pais sempre diziam:

- Eu vou chamar Jurubeba! – e todas corriam para debaixo do lençol.

***

- Nena – conversava a velha com o retrato da defunta – se eu tivesse tido uma filha ela teria o seu nome.

As folhas do cajueiro sopravam rindo de seus óvarios murchos.

- Mas se fosse menino teria o nome do pai.